| Especial - Boletim ASA nº 99, mar-abr/2006 |
Helena Lewin / Especial para ASA
Que fatores impulsionaram, a partir da Segunda Guerra Mundial, a imigração de judeus portugueses para o Brasil? Como se adaptaram e mantiveram a sua condição judaica? Este pequeno artigo pretende responder algumas dessas questões. As famílias sefaraditas de origem portuguesa adotaram o modelo clânico de organização familiar, reforçado pela prática preferencial da endogamia, cujo entrelaçamento familiar e de amizades concorreu para promover atividades econômicas conjuntas, sobretudo no comércio atacadista no qual se sobressaíram. Mas por que − contrariando a trajetória comunitária dos judeus marroquinos em Manaus e Belém e de todos aqueles provenientes da Europa Central e Oriental, assim como dos países árabes − os imigrantes portugueses, que em Lisboa dispunham de uma comunidade organizada, com todos os serviços atuando, não criaram instituições próprias para resguardar sua identidade judaica, quando aqui se estabeleceram? Em 1904, ergue-se em Lisboa a primeira sinagoga após 400 anos da expulsão dos judeus da Península Ibérica. Funcionavam plenamente o Hospital Israelita, a Escola Israelita, a Cozinha Econômica − que fornecia refeições para a população carente judaica e para os alunos da escola −, um jornal e uma revista quinzenal. O Centro Israelita de Lisboa representava politicamente a comunidade frente ao governo português, além de determinar o modus operandi da estrutura institucional. O movimento feminino sionista teve, juntamente com o Joint, papel relevante na absorção em Portugal dos refugiados da Segunda Guerra Mundial e sua posterior emigração para Israel e para as Américas. Em pequeno número e exibindo restrita capacidade financeira para construir e manter um aparato comunitário segundo sua origem étnica, as famílias portuguesas que imigraram para o Brasil no século 20 adotaram a sinagoga Shel Guemilut Hassadim, de costumes marroquinos, como “a nossa sinagoga”. Justificavam-se observando que se tratava de “uma mesma religião e uma mesma cultura separadas apenas pelo Mediterrâneo”. A similaridade lingüística propiciou aos portugueses sua compreensão imediata da legislação vigente, da organização burocrática e do aparato político do novo país, bem como das manifestações da cultura brasileira. Os demais imigrantes, ao contrário, para resguardar a sua singularidade religiosa e cultural, necessitavam construir entidades comunitárias que os representassem e protegessem. Por que, tendo chegado ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, os judeus portugueses se referiam a Antonio Oliveira Salazar como um bom governante? Por que não levavam em conta o seu governo fascista, com supressão das liberdades individuais? Como contemporizaram o passado trágico da Inquisição, que os torturara e expulsara, e a abertura das terras portuguesas aos refugiados judeus do nazismo? A Alemanha nazista manifestava-se contra a entrada dos judeus refugiados ou apátridas em Portugal, embora nenhum dos dois países tivesse a intenção de interromper o importante comércio, pelo qual Portugal exportava matéria-prima estratégica para a indústria bélica alemã e os submarinos alemães utilizavam a costa portuguesa como ponto de abastecimento e posto avançado sobre o Oceano Atlântico. Segundo Salazar, sua política era “tornar Portugal tão útil aos nazis que estes não vissem vantagens adicionais na sua invasão”. Internamente, havia a desconfiança de que os refugiados judeus pudessem criar um desequilíbrio populacional em função de seu número. Eram-lhes atribuídas idéias marxistas ou contestadoras, além de um conluio com a maçonaria, o que poderia “contaminar” as premissas políticas do governo fascista português e os princípios cristãos de sua população. De outra parte, havia a convicção de que a neutralidade preservava sua diplomacia com a Inglaterra, aliada histórica, a qual Portugal abastecia com produtos estratégicos essenciais à indústria de guerra. Além do mais, a aliança da Inglaterra com os Estados Unidos contava favoravelmente, sobretudo em relação à defesa dos Açores, caso houvesse ameaça de invasão alemã. Judeus que vivenciaram essa época afirmam que, apesar da punição ao embaixador Souza Mendes por conceder vistos de entrada a refugiados judeus, não houve qualquer manifestação anti-semita durante a ditadura portuguesa. A absorção dos refugiados foi imediata. Uma comissão de acolhimento foi instaurada sob o comando de Moses Amzalak, presidente durante décadas da Comunidade Israelita de Lisboa e cujo bom relacionamento com Salazar permitiu que as portas portuguesas nunca se fechassem à entrada de refugiados. Calcula-se que 150 mil judeus passaram por Portugal. Não lhes sendo permitida a fixação definitiva, foram forçados a se instalar fora de Lisboa, em cidades menores e em zonas rurais. Por conta da comunidade judaica e de seus grupos voluntários, além de instituições americanas de ajuda humanitária, como o Joint e o Hias, os refugiados foram abrigados e alimentados na Cozinha Econômica, receberam atendimento médico e medicamentos gratuitos e, aqueles que chegaram indocumentados, tiveram a sua situação legalizada. Embora proibidos de exercer atividade remunerada, os mais capacitados foram absorvidos pelas empresas de composição societária judaica. As atividades de resgate dos refugiados não eram isentas de grandes perigos, cabendo chamar atenção para alguns nomes que muito contribuíram para o sucesso de tal operação: Elias Baruel, Samuel Levy, os irmãos Sequerra, entre outros. Terminada a guerra, a comunidade judaica em Portugal decresceu significativamente. Grande parte dos refugiados imigrou para Israel e para diversos países do continente americano. Algumas dezenas de famílias permaneceram em Portugal, transformando-se de refugiados em imigrantes. O ampliado recrutamento para lutar na guerra colonial portuguesa em Angola e Moçambique foi fator preponderante de abandono da pátria por jovens judeus nascidos portugueses. Essa geração foi quase toda embora, para vários destinos, alterando o perfil demográfico, pois os pais, assim que podiam, iam juntar-se aos filhos. Grande parte se dirigiu a Israel, tendo em vista o trabalho efetuado pela Agência Judaica. Judeus portugueses do Rio de Janeiro confirmaram em entrevistas que a atitude de Salazar foi fundamental para sua salvação. Expressaram-se de forma agradecida e amistosa em relação ao ditador, não comentando, positiva ou negativamente, os abusos de poder e a restrição de liberdade, que eram claros e contundentes. Essa dissociação entre o político e o benfeitor dos refugiados judeus pode ser explicada de duas maneiras. Uma, refere-se à liderança de Amzalak, intelectual e grande filantropo comunitário, que exercia ampla influência sobre os judeus portugueses. Sua grande amizade com Salazar o convertia em tutor e fiador da comunidade e, como decorrência, representava o modelo a ser seguido no tocante ao comportamento cívico. Outra explicação pode ser encontrada na educação clânica da comunidade judaica portuguesa, que privilegiava, sem contestações, o binômio autoridade / obediência, concorrendo para formar uma mentalidade politicamente conservadora e orientando suas vontades para os negócios e a família. Helena
Lewin,
socióloga, é coordenadora do Programa de Estudos Judaicos da UERJ |
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