Especial - Boletim ASA nº 99, mar-abr/2006


Vlado: Aqui Estamos

No dia 5 de dezembro passado, a ABI – Associação Brasileira de Imprensa e a ASA promoveram um ato público para lembrar o trigésimo aniversário do assassinato do jornalista Vladimir Herzog. No histórico auditório do 9º andar, palco de memoráveis manifestações pela democracia, pronunciaram-se o rabino Henry Sobel, o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio Dantas, e o presidente da ASA, Horácio Itkis Schechter. O discurso de Horácio desenhou um painel denso em informação e cáustico na defesa da justiça. O Boletim o reproduz na íntegra.

 

Estamos aqui reunidos para homenagear o jornalista Vladimir Herzog. Trago o abraço fraterno e solidário da ASA − Associação Scholem Aleichem , centro do judaísmo progressista do Rio de Janeiro, aos amigos de Herzog.

Existe entre os judeus e suas entidades muita coisa em comum. Em agosto deste ano [2005], a ASA comemorou 41 anos, e na qualidade de sucessora da Biblioteca Scholem Aleichem, representa uma trajetória de cerca de 81 anos. A Biblioteca e a ASA em várias épocas sofreram intervenção e vigilância por parte dos órgãos de segurança.

A ASA é um Centro de Cultura. Seus fundadores são imigrantes, vindos principalmente da Europa Oriental. Judeus. Chegaram ao Brasil para recomeçar suas vidas. Além de sua bagagem, traziam suas tradições e costumes, e um sólido conjunto de valores éticos e morais. A vida familiar tinha sua seqüência natural nas atividades sociais onde preservavam sua cultura, traduzidas em grupos corais, grupos teatrais, bibliotecas, círculos de leitura e publicações. Essas atividades são desenvolvidas até os dias de hoje.

A ASA é um Centro de Debates. Seus fundadores participavam ativamente da mobilização em torno de idéias políticas da época, que trouxeram de seus países de origem. Sentiam a necessidade e o imperativo de transformações para a construção de um mundo melhor.

Deles herdamos seus sonhos, a que não renunciamos. Acreditamos que um mundo melhor é possível. Um mundo com menos violência e sem exclusões. Um mundo de Justiça Social, mais igualitário e de respeito ao próximo e aos seus direitos. Um mundo baseado em princípios de paz, democracia e liberdade.

Acreditamos no Homem. Acreditamos no seu sentimento de fraternidade, solidariedade e tolerância. Acreditamos no seu senso de justiça.

              Assumimos um compromisso. Somos daqueles que não aceitam o fim da História. Continuaremos a buscar novos caminhos e novos horizontes para a construção de um mundo melhor. Existem muitas alternativas para atingir esse objetivo e a ASA sempre será um espaço livre para a sua análise, avaliação e reflexão.

Minha família também sofreu com a ditadura. Permitam-me lembrar meu falecido pai, Hersch Schechter. Filho de imigrantes. Jovem imigrante. Judeu. Também acreditava que um mundo melhor era possível. Militante das causas sociais desde cedo. Jornalista. Em abril de 1947, fundou o jornal Nossa Voz (Unzer Shtime ), voltado para o setor progressista da coletividade judaica. Era seu dirigente e também redator. Na véspera da edição do seu 17° aniversário, a repressão fecha o jornal e empastela a gráfica Isbra, onde era impresso. Busca refúgio em Montevidéu, Uruguai, terra sempre generosa. Quando houve condições, volta ao Brasil e trabalha na revista Veja até se aposentar por estar com uma doença grave. 

Vladimir Herzog. Filho de imigrantes. Jovem imigrante. Judeu. Também acreditava que um mundo melhor era possível. Militante das causas sociais. Jornalista. Deixa a revista Visão, onde era editor de cultura, e passa a dirigir o Departamento de Jornalismo da TV Cultura. Acreditava na verdade e na força da informação livre. Combatia a censura, que considerava uma forma de violência.

O general Ednardo D´Ávila Melo, comandante do 2˚ Exército, quer atingir as vozes de oposição. Os jornalistas são o alvo principal. Passam a ser perseguidos, sofrem prisões arbitrárias e tortura.

25 de outubro de 1975. Herzog vai ao DOI-Codi paulista. Cerca das 15 horas. Jornalistas presos ouvem os gritos de Herzog. A princípio, fortes; a seguir, sufocados; e finalmente, o silêncio. Calaram a voz de Vladimir Herzog.

Nossa homenagem a Vladimir Herzog. Homem do seu tempo. A dignidade foi o traço de sua vida e de sua morte. Honrou sua vida, sensível aos problemas sociais. Honrou seu trabalho, sempre à procura da verdade. Honrou sua morte, rasgando a falsa confissão que queriam obrigá-lo a assinar. Torna-se o mártir da abertura, segundo Zuenir Ventura.

Rompe-se o equilíbrio. A linha dura do golpe militar começa a perder espaço.

Nesta ocasião, devemos lembrar ainda as pessoas que não se calaram, pessoas que dão uma maior dimensão ao ser humano. A indignação vencera o medo em tempos duros e difíceis. Mil perdões se não cito outros, por esquecimento ou por ignorância.

Nossa homenagem a Clarice Herzog, mulher e esposa que se transforma em leoa para provar que Herzog havia sido assassinado. Seu grito lancinante de “Mataram o Vlado!” percorre e sacode todo o Brasil.

Nossa homenagem aos advogados Heleno Fragoso, defensor de tantos presos políticos, e  Sergio Bermudes, que abraçaram a causa de Vladimir Herzog, sem temer possíveis represálias.

Nossa homenagem ao juiz federal Márcio José de Moraes, que deu a sentença, em 25 de outubro de 1978, considerando a União responsável pela prisão, tortura e morte de Vladimir Herzog.

Nossa homenagem ao rabino Henry Sobel, participante ativo nas grandes causas da coletividade judaica e do diálogo ecumênico. O rabino Sobel se recusa a enterrar Herzog no lugar destinado aos suicidas conforme manda a tradição judaica. A farsa não seria aceita. Acompanha a família em toda sua luta e sofrimento. No Cemitério Israelita, no enterro, cerca de mil pessoas e muitos agentes da repressão.   

Nossa homenagem ao cardeal dom Paulo Evaristo Arns, que usou seu espaço para denunciar a tortura e falava sobre liberdade e dignidade humanas, para desgosto dos militares. Aceitou a proposta e foi um dos incentivadores da missa ecumênica realizada na Catedral da Sé. Oito mil pessoas compareceram, vencendo as barreiras policiais. A missa foi celebrada pelo próprio dom Paulo, por dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, pelo rabino Sobel e pelo reverendo James Wright. Citando palavras bíblicas, dom Paulo, com sua voz tão característica, inicia sua oração “Maldito aquele que tem as mãos manchadas pelo sangue de seu irmão”.

Nossa homenagem a Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, na época. Liderando os jornalistas, fez aprovar a proposta de missa ecumênica, sugestão de David de Moraes, em assembléia de 300 jornalistas.

No enterro de Herzog, lembra Castro Alves :

     Senhor Deus dos Desgraçados,

     Dizei-me Vós Senhor Deus,

     se é loucura... se é Verdade

     tanto horror perante os céus.

Na convocação para o enterro, já denunciava as prisões arbitrárias e o prolongamento da incomunicabilidade acima dos dez dias legais. Na missa, no seu pronunciamento, preocupou-se com a segurança dos presentes – pediu para que todos saíssem em pequenos grupos e em silêncio.

Inicia-se uma abertura lenta. Recuos e avanços. Sai a anistia recíproca aceita pela ditadura. O movimento das diretas atravessa e mobiliza o país. Finalmente, os militares se recolhem à caserna e o poder é entregue aos civis. As sementes da Liberdade e da Democracia germinaram e hoje são tenras plantinhas que precisamos fazer crescer cada vez mais.

Recordo desde a infância que nas solenidades em homenagem aos 6 milhões de judeus mortos, vítimas do nazismo, havia sempre uma faixa com os dizeres “ Não perdoar e não esquecer” ... Hoje, entendo. Não é uma questão de vingança. É uma questão de Justiça. Os governos civis após o término da ditadura – Sarney, Collor, Fernando Henrique e agora Lula − nada fizeram para punir os torturadores e assassinos. É preciso dar um basta a essa impunidade ou aceitaremos passivamente a barbárie. Tortura e assassinato são crimes contra a Humanidade, não devem prescrever e têm que ser punidos.

Amigo Herzog, calaram a tua voz, mas não calaram a tua mensagem. Descanse em paz. Tua esposa e teus filhos sempre sentirão orgulho de ti. Nós também.

A letra do hino dos partisans na 2ª Guerra Mundial diz em sua primeira estrofe :

        Não digas nunca que este é o último caminho;

        sob negras nuvens claro dia se desvenda.

       Ainda há de vir o dia que sonhamos,

        nosso passo ressoará – Aqui estamos.

Amigo Vladimir Herzog, aqui estamos e continuaremos a caminhada.

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