| Especial - Boletim ASA nº 99, mar-abr/2006 |
Paulo Blank / Especial para ASA Garoto novo, um professor me ensinou que o nome Ahasverus, do imperador da história de Purim, poderia ser lido como Ahas Va Rosh, ou seja, aquele que sente na cabeça, o que é uma maneira cifrada de dizer que o sujeito era louco. Nunca mais esqueci a explicação que atribuía à doideira do imperador a sua inclinação às idéias genocidas de seu ministro, Haman. Pensar que coisas como exterminar os judeus só passavam pela cabeça de governantes tresloucados dava uma certa tranqüilidade ao menino recém-chegado a Ashquelon, na beira do deserto do Neguev, a dez quilômetros da Faixa de Gaza. Moré Avigdor, o tal professor, sabra de Tel Aviv, dizia para a garotada de olhos arregalados que Deus era a natureza, que o Estado e a religião não se misturavam e que a paz com os árabes era questão de tempo, de democracia na região, e de acreditar numa razão alegre que deveria superar o ódio, sentimento que gera uma razão pessimista. Era impossível, simplesmente impossível, que os países árabes continuassem feudais e dominados pela negação de uma evidência, a existência de Israel, dizia o mestre. Quando se tornassem países democráticos, as massas árabes deixariam de ser manipuladas pela manutenção de um permanente estado de guerra. Após a vitória avassaladora do Hamas na eleição democrática realizada na Palestina e a homenagem da ONU, no dia 27 de janeiro, aos judeus mortos pelo nazi-fascismo − que, é bom não esquecer, também foi eleito pelo povo alemão −, eu me pergunto se o moré Avigdor estará vivo e o que andou fazendo ao longo de todo esse tempo que não trouxe o mundo que ele, profeta em terras de profecias, assegurava que veríamos. Naqueles dias, início da década de 1960, era impossível imaginar que, passados menos de 50 anos, os jornais falariam de um novo imperador persa, suspeito de “sentir na cabeça” quando se propõe a convocar uma reunião para provar que o Holocausto é uma lenda. Mahmud Ahmadinejad, que pouco parece ligar para as opiniões internacionais e seus diagnósticos psiquiátricos, segue em seu projeto que, no fundo, quer rediscutir o direito de existência do Estado de Israel. O problema é que atribuir idéias deste tipo à loucura de um governante que, ao mesmo tempo, executa um plano de armamentos nucleares e financia grupos terroristas, é algo tão perigoso quanto as próprias opiniões que ele defende. Como num dia de Purim, quando se subverte a ordem do mundo lendo textos bíblicos fora da seqüência normal, parece que alguém embaralhou as coisas que pareciam óbvias e a história nos escapou entre os dedos como se fosse a areia de uma ampulheta. Naquele tempo, idos de 1961, a garotada em Ashquelon ia aos comícios de Menahem Béguin para rir daquela figura que insistia em perseguir um poder que jamais conquistaria; a religião era assunto dos crentes e de alguns partidos pequenos, e a morá Hana, nossa professora orientadora, era uma ativista do Mapam e praticava o socialismo em sala de aula. Para um brasileiro como eu, foi estranho trabalhar durante dois longos dias ensolarados em um quibutz para financiar os colegas que não podiam pagar o passeio anual que faríamos, aboletados em caminhões iguais aos paus-de-arara nordestinos. A fraternidade que a morá Hana pregava era matéria a ser aprendida em exercícios práticos nada fáceis de assimilar. De Ahasverus e sua cabeça torta até Ahmadinejad, o que temos ao longo da História é a dificuldade de ver vencer o projeto da saudosa morá Hana. A mesma e sempre repetida impossibilidade de conviver dentro da diferença, única maneira possível de construir relações de respeito e fraternidade. No seu oposto, o que temos é o desejo de uma razão única que traz no seu bojo o conflito de culturas em que não há acordos, só ódio interminável. Mas, para não perder de vez a razão otimista e entrar em depressão, é bom relembrar que o Oriente Médio que hoje chafurda na impossibilidade do encontro é também a terra que trouxe ao mundo, através do pensamento judaico, a percepção do próximo como um parceiro por quem devo estar comprometido e responsável. Responsabilidade radical pelo outro, outro que é uma criação bíblica e não um legado natural do homem. Outro que faz de nós todos igualmente culpados por tudo o que lhe acontece, até mesmo quando se trata de um inimigo que deseja a nossa morte, como nos ensinou de maneira perturbadora o grande filósofo judeu Emanuel Lévinas. Paulo
Blank,
doutor em Comunicação e Cultura, é psicanalista, colaborador do Jornal
do Brasil e autor de Cabala:
o mistério dos casais. |
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