EDITORIAL - Boletim ASA nº 99, mar-abr/2006


Bombas?

            O Oriente Médio trepida. Do Irã, vem uma nova provocação inaceitável: um concurso de charges sobre o Holocausto, como “resposta” às caricaturas antiislâmicas publicadas na Europa.  Noutra ponta, a vitória do Hamas nas eleições palestinas de janeiro altera o xadrez político da região. Movimento que atua com dois braços, o assistencialista e o terrorista, ele encerrou a longa hegemonia do Fatah, num pleito em que quase 80% dos eleitores votaram. É, portanto, goste-se ou não, o legítimo representante da maioria da população palestina.

            Sem ignorar o discurso agressivo e sectário até aqui marca registrada do Hamas, a situação pós-eleitoral abre algumas indagações. A campanha não foi um referendo para saber se os palestinos querem varrer Israel do mapa. Pesquisas recentes mostram que 70% deles apóiam um acordo de paz com o Estado judeu. Na verdade, tudo indica que os eleitores demonstraram sua insatisfação com as gestões do Fatah, que não melhoraram as condições de vida nos territórios ocupados e foram pródigas em burocratismo e desvio de recursos públicos para bolsos privados. Como em qualquer parte onde um governo se torna impopular, a população deu uma oportunidade à oposição. No poder, esta assume as tarefas da rotina de qualquer governo. É aí que se prova quem tem garrafas vazias para vender.

            A maioria dos cidadãos palestinos vai cobrar dos recém-eleitos iniciativas que levem à normalização da vida nos territórios ocupados e a uma negociação firme com vistas à criação de um Estado nacional palestino. É possível que os setores mais beligerantes do Hamas  insistam na via armada para alcançar estes objetivos. Há discretos indícios, porém, de que o movimento pode caminhar na mesma direção, por exemplo, do Exército Republicano Irlandês e do Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros), que acabaram optando pelo espaço político para lutar por suas reivindicações.

            Dois elementos delicados completam as perspectivas de negociações de paz no Oriente Médio: as eleições de março em Israel e o comportamento da comunidade internacional face à nova situação nos territórios palestinos. Uma vitória da direita fundamentalista em Israel será o pior cenário., com a inevitável  escalada da violência. Se a comunidade internacional isolar liminarmente o Hamas, sem dar oportunidade para que se conheça sua prática no governo e ignorando a voz das urnas, estará abençoando o caos.  

 

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            As pressões para que o Irã desista de seu programa nuclear escondem a questão de fundo: a urgência de se fiscalizar e desarmar os países que, provadamente, já dispõem de arsenais nucleares. Exigir que o Irã respeite o Tratado de Não-Proliferação e não produza bombas atômicas é legítimo. No entanto, concentrar a atenção num único país, esquecendo a monumental capacidade de destruição armazenada em outros lugares do planeta, cheira a hipocrisia.

            As exigências de desarmamento devem valer para todos.

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