| Especial - Boletim ASA nº 98, jan-fev/2006 |
Guillermo Waksman, Brecha
A figura de Simon Wiesenthal, falecido em 22 de setembro de 2005,
recebeu muito merecidas homenagens em quase todo o mundo. Nascido em
1908 em Buczaz, território hoje pertencente à Ucrânia, foi
sobrevivente de campos de concentração nazistas, nos quais passou
quatro anos e onde morreram dezenas de membros de sua família.
Antes de ser libertado, em maio de 1945, ao findar a Segunda Guerra
Mundial, prometeu a si
mesmo descobrir os dirigentes e chefes do nazismo para que fossem
presos e julgados. A esse objetivo ele dedicou o resto de sua vida.
Ao longo de pouco mais de meio século, o “caçador de
nazistas”, como era conhecido, identificou e denunciou perante
diferentes governos mais de mil responsáveis pelo Holocausto, desta
forma facilitando a sua captura, julgamento e castigo.
Wiesenthal trabalhou primeiro no Departamento de Crimes de
Guerra, do Exército dos Estados Unidos, com sede em Viena. Depois
fundou, nessa mesma cidade, o Centro Judaico de Documentação Histórica.
Sua presa mais importante foi Adolf Eichmann, que, radicado nos
arredores de Buenos Aires, trabalhava na fábrica da Mercedes Benz
sob a falsa identidade de Ricardo Klement. Em 11 de maio de 1960,
Eichmann foi seqüestrado por um comando do Mossad, o serviço
secreto israelense. Dez dias depois, foi dopado e transportado em um
avião de carreira da El Al para Tel Aviv. Julgado e condenado à
morte como autor de crimes de lesa-humanidade, morreu na forca dois
anos depois.
A operação foi questionada por sua ilegalidade −
sobretudo pela flagrante violação da soberania Argentina − e
também pela aplicação da pena de morte, por mais indiscutível
que tenha sido para um caso como esse e um país cuja legislação a
admite. O que ninguém pôde pôr em dúvida é que com Eichmann se
fizera justiça.
“Justiça, não vingança”, foi o lema de Wiesenthal e o
título de seu livro mais famoso. Em suas páginas, Wiesenthal
proclamou a necessidade de manter viva a memória para que nela
vivam os mortos pela barbárie, sustentando, ainda, que havia que
lidar sempre com o passado porque era necessário aprender com ele.
Comprometeu-se também a procurar os assassinos de todas as vítimas
do Holocausto, e não só das vítimas judias, e afirmou que seu
trabalho era antes de tudo uma advertência aos assassinos do futuro
de que nunca terão descanso.
Sua vida e suas definições têm uma impressionante vigência
no Uruguai pós-ditadura. Explicam também o silêncio mantido, a
propósito de sua morte, por muitos dirigentes políticos de
primeira linha habitualmente tendentes a render homenagens póstumas
às grandes personalidades do mundo. Para quem, expressa ou
tacitamente, vem sustentando desde 1985 que não se deve ter os
olhos na nuca, não é fácil recordar Wiesenthal. Ainda que
tivessem optado por manter um perfil muito baixo, as instituições
da comunidade judaica no Uruguai não podiam silenciar, pelo menos
para o exterior. O problema é que se viram diante de uma enorme
contradição.
Dói dizê-lo, mas a maior parte dos dirigentes da comunidade
judaica aceitou com submissão a política de impunidade que
prevalece no Uruguai desde a restauração institucional. Com menos
direito que ninguém, porque
os acontecimentos que envolveram o povo judeu ao longo de sua História,
e especialmente a partir do Holocausto, impunham-lhes adotar outra
atitude e seguir o rumo traçado precisamente por gente como
Wiesenthal.
Na comunidade judaica da Argentina também predominou o
respaldo à impunidade imposta pelos governos de Raúl Alfonsín e
Carlos Menem, mas houve um setor importante da comunidade que exigiu
justiça − não vingança − para os responsáveis pelos
crimes de lesa-humanidade da ditadura.
Aqui, em compensação, houve apenas exceções. E a reação
a elas foi implacável. O episódio mais notório foi protagonizado
por Pedro Sclofsky, em dezembro de 1977, quando ocupava pela
terceira vez a presidência do Comitê Central Israelita (CCI). Em
um ato público na presença das mais altas autoridades civis e
militares, ele terminou seu discurso citando uma passagem do Velho
Testamento em que se reivindica o direito a sepultar os mortos e
expressando a solidariedade do CCI com os familiares dos
desaparecidos uruguaios. Falou dos “esforços e preocupações do
nosso patriarca Abraão para conseguir um lugar digno para guardar
os restos de sua esposa, Sara. Um lugar onde a pudesse prantear,
recordar, honrar. Os sábios do Talmud
dizem que os atos dos patriarcas são guias para seus filhos.
Entendemos a mensagem. Hoje, quando esta preocupação afeta
numerosas famílias de nossa sociedade que sofreram e sofrem pelo
desaparecimento de entes queridos, reafirmamos nossa identificação
com os princípios éticos da tradição judaica, que consagra o
respeito pelos direitos inerentes ao ser humano. Conhecer o local de
sepultura dos entes queridos é um destes direitos ineludíveis”.
O discurso provocou uma grande comoção no governo e na
comunidade judaica. Três meses depois, sem maiores explicações,
Sclofsky renunciou. Três anos depois, em entrevista a Brecha, explicou o que o levara a evocar a história de Abraão e
Sara: foi “a convicção de que a comunidade judaica devia ser
fiel a e conseqüente com os princípios de ética e moral que fazem
a sua tradição. Como judeus, não podemos esquecer que nossa História
está cheia de episódios muito tristes, terríveis. Essa História
nos obriga a estar sempre na vanguarda da luta pela democracia e
pela defesa dos direitos humanos. Sem nos prendermos a nenhum prazo,
temos exigido e continuaremos exigindo em todo o mundo solidariedade
com as aberrações que sofremos. Como poderíamos deixar de nos
unir à exigência dos familiares dos desaparecidos uruguaios de
encontrar o lugar de sepultura dos restos de seus entes queridos?”
E acrescentou: “Um dirigente deve atuar em função dos princípios
de sua organização e não segundo suas opiniões pessoais. E se
isso incomoda a autoridade, azar. Se os dirigentes, em todos os
ramos de atividade, fossem conseqüentes com os
princípios que devem defender, as pessoas confiariam neles
muito mais.”
A maioria dos dirigentes da comunidade judaica no Uruguai
preferiu não se indispor com os governos em vez de assumir a obrigação,
imposta pela História de seu povo, de estar sempre na vanguarda da
defesa dos direitos humanos. Explica-se, então, que a vida −
e agora a morte − de Simon Wiesenthal tenha deixado desconfortável
a comunidade judaica no Uruguai.
O legado do “caçador de nazistas” é que os autores de
crimes de lesa-humanidade devem ser procurados e julgados. Não
importa que tenham passado 50, 60 anos ou mais, porque seus crimes não
prescrevem nem podem ser anistiados, e porque o que está em jogo não
é o passado, mas o futuro. Para honrar a memória de homens do
talhe de Wiesenthal, é preciso, antes de tudo, seguir o seu
caminho. Não basta elogiá-los nos discursos. Guillermo Waksman participa, juntamente com Eduardo Galeano e outros
intelectuais uruguaios, do
grupo original de editores da revista semanal Marcha, publicada em Montevidéu desde a década de 1960 (exceto durante a
ditadura). Após a redemocratização, a pressão dos meios
militares impediu o uso do nome
Marcha, que foi substituído por
Brecha. Tradução de S.M.G. |
| * * * [topo] |