| Especial - Boletim ASA nº 98, jan-fev/2006 |
Carlos Acselrad / Especial para ASA
Avraham,
o primeiro judeu, não tocava violino, pela simples razão de que
sua mãe não era ídish. O patriarca carregou a frustração pelo
resto da vida, mas conseguiu se gratificar: determinou que todas as
mães ídish, pelos milênios afora, obrigassem seus filhos a
estudar violino. Por isso somos um povo tão musical.
Rádio Nacional, anos 40.
As duplas caipiras tinham nomes de caipira (Jararaca,
Ranchinho, Tonico), o sotaque também; as letras eram sátira política,
crítica de costumes ou algum humor de temática rural; o ritmo era
o das danças nordestinas (baião, xote, todos filhos do antigo
maxixe);
a música, propriamente,
se resumia a duas melodias paralelas (por isso eram duplas),
o que resultava em alguma harmonia, primária e rudimentar. Passados
60 anos, as duplas não são mais caipiras, mas sertanejas; o ritmo
é... chamemos rock-balada; as letras
alegam-se “românticas”(eu vou te ensinar a não me amar
etc); a música, propriamente,
se resume a duas melodias paralelas , o que resulta em alguma
harmonia, primária e rudimentar.
Tradução: nomes, sotaques, ritmos e letras
“modernizaram-se”, mas a música continuou a mesma. Dedução: a
música não tem a menor importância. É bastante que Leonardos e
Camargos surjam nos palcos e telinhas sustentando seus violões
coloridos – tocar mesmo é supérfluo. Generalização:
além dos acessórios visuais e promocionais, o que é
popular na música popular não é a música e sim a letra.
Corroboração: a verdadeira caricatura de música popular são
o rap, o hip
hop e arredores − palavra rimada e percussão ritmada, som
na caixa e estamos conversados .
Pensamos muito sobre a nossa querida cultura judaica, nossas
responsabilidades quanto a sua preservação
e conseqüentes problemas e desafios impostos pela língua e
outras peculiaridades de uma cultura de diáspora. Não bastasse a
própria História, o
século 20
despejou uma avalanche, sem precedentes, de perplexidades
sobre identidade, cultura e respectivos conceitos. Ao lidar com
eles, portanto, é facil – e razoável – incorrer na auto-indulgência.
Chega-se aqui à música.
Este termo tem lá suas exigências. Para simplificar
conversas – e descartar discussões eventualmente tediosas – vá
lá que se chame música a certas manifestações que envolvem ritmo
ou até dança... mas de música mesmo, estão longe.
A música é uma conquista da espécie, que dominou o fenômeno
natural do som a ponto de reproduzi-lo e organizá-lo criando uma
linguagem; como tal ela foi destinada a determinadas funções
sociais: rezar e cantar (veiculando assim textos litúrgicos ou
poesia) e dançar (dispensando, assim, texto ou poesia). A arte
produzida pelos diversos povos, de algum modo, integrou as três funções
– reza, canto e dança – numa categoria que se diz folclore.
São rituais dramático-musicais de conteúdo vinculado
à história regional, à memória
dos episódios vividos pelo povo do lugar. Não cabe aqui o
termo popular: alguém aí
conhece e cantarola ou assovia as melodias de um Bumba
meu boi do
Ceará ou de uma Folia de São
Benedito do
Estado do Rio?
Pois bem: e o folclore judaico?
Dificil aceitar que o povo do livro não tenha folclore, a
menos que se identifique esta boa causa: faltou-nos
territorialidade, com licença da palavra. Aqui, finalmente, se
coloca a questão: já que não temos folclórico,
teremos, pelo menos, popular?
Para simplificar a conversa poderíamos aceitar a expressão música
popular como definitiva e suficiente para a matéria. Para
entender o fenômeno é preciso um olhar mais isento e algo técnico.
Essencialmente chamamos assim uma categoria de produção e
consumo que junta duas artes: música e literatura (considerando
que, sem literatura, a música − puramente instrumental – não
é nada popular). É possível, no caso da música judaica e de
qualquer outra, investigar origens e caminhos desde as eras mais
remotas.
Assim fica evidente a presença quase intocada dos modos
gregos nos nossos cantos sinagogais. Assim também identificam-se
ornamentos e arabescos na música judaica originada antes do século
16 na velha Sefarad (com versos cantados em ladino).
No entanto, a nossa canção popular foi forjada ao longo dos
três séculos seguintes, enfrentando sucessivas diásporas,
perseguições e discriminações,
respectivas assimilações regionais ,
tudo isso resultando em sucessivas migrações e emigrações.
Conclusão: a culinária musical da nossa canção só não
leva guefilte fish e
pepino azedo na receita: é feita de valsas vienenses e marchas
militares russas, polcas da Bohemia e ópera italiana, danças folclóricas
romenas e até hinos sacros alheios.
Estas meras constatações não podem ser taxadas de
depreciativas nem discriminatórias – esta, mais ou menos, é a
história de todas as canções populares de qualquer cultura. Quem
ouviu alguma das canções cantadas pela própria mãe
desconsiderará todas as teorias e pedirá licença para
chorar junto com a poesia de um Avrum Reisin ou de um Katcherguinski
(herói da Resistência na Polônia ocupada).
Podemos, portanto, abstrair-nos do olhar técnico e afirmar
que música popular judaica é coisa para ser guardada e –
não sem certo orgulho − exibida. Carlos Acselrad é médico. |
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