| EDITORIAL - Boletim ASA nº 98, jan-fev/2006 |
Merecido repúdio tiveram
as recentes declarações do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad,
que, entre outras pérolas, defendeu “varrer Israel do mapa” e
classificou o Holocausto de “mito”. Esta retórica odiosa,
expressão da hegemonia de correntes extremistas naquela república
islâmica, viola princípios elementares das relações entre nações.
É também uma tolice política, pois isola mais o país no momento
em que seu programa nuclear está na berlinda, suspeito de ser a
ponta de lança de um arsenal atômico.
O regime de Ahmadinejad, eleito sob fortes suspeitas de
fraude, é despótico. Reprime opositores e manipula interpretações
ultra-conservadoras do islamismo para construir políticas de
Estado. No entanto, consideramos inaceitável forçar maior transparência
no manejo e utilização de material nuclear pela via da guerra, da
intervenção estrangeira armada, dos “ataques preventivos”. O
Iraque deve ser lembrado. Invadido com base numa cadeia de mentiras,
foi praticamente destruído (exceto, claro, as valiosas reservas
petrolíferas). Lá vigora o caos político e ganham força nítidas
tendências anti-democráticas. É preciso que a lição tenha sido
aprendida e a comunidade internacional utilize e reforce os
mecanismos multilaterais de consulta e ação, melhor saída para
superar impasses e tensões.
Quanto à ameaça contra Israel, preferimos as ponderações
de Isaac Deutscher à demagogia belicosa de Ahmadinejad. Em
entrevista à New Left Review
pouco antes de sua morte, em 1967, Deutscher disse claramente que o
conflito no Oriente Médio
não se resolveria por meios militares. Ressaltou que “os atalhos
da vingança e da guerra mostraram-se desastrosos” e que os
Estados da região “precisam com muito mais urgência de uma
estratégia social e política e de novos métodos na luta pela
emancipação”. Finalizou assegurando que esta emancipação não
será alcançada com “uma estratégia puramente dominada pela
obsessão anti-israelense”. Quase quarenta anos depois, estas
palavras mantêm impressionante atualidade. -x-x-x-x-x-
As eleições em Israel, marcadas para março de 2006, trarão
um novo protagonista. O trabalhista Amir Perets, cria do movimento
sindical e com discurso recheado de preocupações sociais, pode
mover parcialmente o eixo das agendas das últimas disputas
eleitorais, maciçamente dominadas pelas questões de segurança.
Num país empobrecido pela sangria dos orçamentos militares e pela
aplicação de receituários neoliberais (uma em cada cinco famílias
israelenses vive abaixo da linha de pobreza), esta novidade é
seguramente bem-vinda. Como acentuou Akiva Eldar, do Haaretz, Sharon tentará manter os temas militares no centro dos
debates, pois tem intimidade com esse terreno, que sensibiliza os
eleitores. Afinal de contas, diz Eldar, “os eleitores ansiosos
quando o filho mais uma vez se atrasa na volta de um shopping
esquecerão que há pais desempregados esperando em casa com a
geladeira vazia”. x-x-x-x-x-
A diretoria da ASA e a equipe deste Boletim desejam a todos um feliz 2006. |
| * * * [topo] |