Especial - Boletim ASA nº 97, nov-dez/2005


Sinistras sombras do passado

Renato Mayer / Especial para ASA

 

Alguns ainda se lembrarão do “alemão dos pedalinhos”, que respondia pelo lazer na Lagoa Rodrigo de Freitas, na década de cinqüenta.  Não era alemão e sim, letão.  Um aviador de proezas internacionais e grande reputação em seu país, Herbert Çukurs era também um criminoso de guerra: a partir de 1941, em seguida à invasão alemã, atuou  voluntária e diretamente como integrante do Arajs Kommando, uma unidade policial que massacrou 30 mil judeus de Riga, em Rumbula,  e centenas de outros na vizinha Bielo-Rússia.  A União Soviética buscou sua extradição do Brasil, mas esta foi recusada sob a alegação de que Çukurs só poderia ser devolvido à Letônia, país que  não mais existia como estado independente.

Anos mais tarde, estabelecido em São Paulo em um negócio de hidroaviões, Çukurs conheceu um investidor austríaco que, com promessas de grande lucro, o atraiu para uma viagem ao Uruguai.  Em fevereiro de 1965, em Montevidéu, agentes do Mossad, comandados pelo tal investidor, codinome Anton Kuenzle, o liquidaram a tiros.  Israel decidira por sua execução ante uma iminente prescrição dos crimes de guerra.

Agora, nacionalistas de direita estão propondo a reabilitação de Çukurs na Letônia.  Sua família solicitou formalmente ao procurador geral que o declare inocente dos crimes de guerra.  Em sua cidade natal, Liepaja, uma grande exposição sobre sua vida foi inaugurada em junho, atraindo um público considerável.  Ao mesmo tempo, os meios de comunicação se abriram a conhecidos historiadores que intentam diminuir ou questionar a culpa de Çukurs, contrapondo-a à sua glória como herói nacional. 

Diante dos protestos da comunidade  judaica local, de 15 mil membros, contra a exposição, o deputado presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento revidou, lembrando aos judeus “que não repetissem o seu pérfido comportamento de 1940”, quando teriam saudado a primeira ocupação, a soviética, uma acusação muito comum nos círculos nacionalistas.   Embora tenha sido destituído do cargo e até expulso do seu Partido do Povo, a exposição permaneceu aberta.

O mesmo caldo de cultura permite que circule um livro-texto de História nas escolas da Letônia, glorificando Çukurs como o bravo e patriótico piloto que, num avião construído por suas próprias mãos,  voou até Gâmbia, na África, e ao Japão.  Não há qualquer menção a sua atuação como notório colaborador dos nazistas.   Pior, o mesmo livro contém passagens absolutamente insultuosas em relação às minorias que habitam a Letônia, como os russos, os poloneses e os judeus.  Esses últimos são referidos como jids, um termo  muito pejorativo.  Entre outras sugestões, o autor, um imigrante letão nos Estados Unidos, já falecido, sugere que os escolares cantem a canção Três jids, na qual os personagens do título morrem, são enterrados e seus corpos exalam terrível fedor.

Não é a primeira vez que tal acontece.  Em 1995, o presidente Ulmanis (ainda no poder) fez a apresentação de um livro, escrito por Adolph Shilde, colaborador nazista e nacionalista letão, a uma escola.  Posteriormente, expressou seu arrependimento.  Parece que não durou muito, porém.

Os horrores da guerra, anos e anos de socialismo real e a recente adesão formal a uma União Européia que consagra a democracia e o liberalismo não mudaram a essência do preconceito e do anti-semitismo no Leste Europeu.  Na verdade, os fatores que alimentam sua intertemporalidade permanecem como um grande desafio, tanto para a geração de hoje como para as próximas.  Eles continuam projetando suas sombras sinistras na vida cotidiana dos povos.

 

Renato Mayer, economista, é colaborador de ASA.

 

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