| Especial - Boletim ASA nº 97, nov-dez/2005 |
Israel Beloch / Especial para ASA Em 10 de novembro de 1975, o Brasil votou favoravelmente a uma resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas equiparando o sionismo ao racismo e à discriminação racial. No continente americano, apenas Cuba, Guiana e México adotaram semelhante posição, patrocinada pelo bloco socialista e os países árabes. O texto dizia que “o regime racista de ocupação da Palestina e os regimes racistas no Zimbábue e na África do Sul têm uma origem imperialista comum (...) possuindo a mesma estrutura racista e sendo organicamente vinculados em sua política voltada para a repressão da dignidade e da integridade do ser humano”. Foram 72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções, entre estas últimas a maioria dos países sul-americanos. Era
uma tomada de posição escandalosamente equivocada, que levaria
dezesseis anos para ser corrigida – só em 1991 o organismo
internacional revogaria o documento. O que teria levado o governo
brasileiro a esta atitude? Garantir o suprimento de petróleo pelos
países árabes, num momento em que a crise no mercado mundial do
produto era ameaçadora e a nossa dependência das importações
ainda muito grande? Ou uma visão ideológico-estratégica de
“Brasil Grande Potência”, e portanto de afirmação de
autonomia perante os Estados Unidos, visto como maior esteio de
Israel no plano global? O
voto brasileiro contrário ao sionismo se insere no chamado
“pragmatismo responsável”, ampla mudança de rumo da política
externa do país, iniciada no governo Médici (1969-1974) e que
alcançou o apogeu no período seguinte, de Ernesto Geisel
(1974-1979). Essa guinada buscou romper com a concepção das
“fronteiras ideológicas” e o alinhamento automático às posições
norte-americanas no mundo, que vigorou desde a Segunda Guerra
Mundial e nos dois primeiros governos militares. No
governo Geisel, ela foi uma altiva política de afirmação, que se
distanciou de suas alianças tradicionais e acenou em direção a
parceiros alternativos, naqueles conturbados anos da fase final da
Guerra Fria. Muitas dessas atitudes, como o reconhecimento da República
Popular da China, em 1974, e dos governos marxistas de Angola e Moçambique,
em 1975, estavam em franca contradição com o implacável combate
ao comunismo no plano interno. Outro
destaque desta política, o Acordo Nuclear assinado com a Alemanha
em 1975, prevendo a construção de oito centrais (apenas duas foram
inauguradas) e outras iniciativas ligadas à energia atômica,
enfrentou O
contencioso com os EUA se agravou com os pronunciamentos de Jimmy
Carter exigindo respeito aos direitos humanos (fim das torturas aos
presos políticos). Em resposta, Geisel revogou em 1977 o já inócuo
mas ainda simbólico Acordo Militar Brasil-EUA, firmado em 1952. Nos
marcos de uma política simpática às posições árabes, já em
1974, ao receber o chanceler da Arábia Saudita,
o governo anunciou uma firme condenação à presença de
Israel nos territórios ocupados
e pediu a garantia dos direitos do povo palestino, posição
que o Brasil reafirmaria nos anos seguintes em inúmeras ocasiões. Ante
a celeuma levantada pela manifestação anti-sionista na ONU, uma
nota do Itamarati, depois de argumentar que “o voto brasileiro não
é (...) hostil aos judeus e ao judaísmo”, afirmava não ter, porém,
o Brasil “compromissos com a doutrina sionista”
e não poder “aceitar a pretendida identificação entre
anti-sionismo e anti-semitismo”. Acrescentava, por fim, uma tese
cara ao antigo preconceito: “Causaria, portanto, desagrado aos
cidadãos brasileiros reconhecer que entre nós poderiam existir
alguns que se sentissem mais ligados à raça (sic)
a que pertencem ou ao país de seus antepassados do que ao próprio
Brasil.” A
motivação econômica ficaria clara na réplica irônica do
chanceler Azeredo da Silveira a Henry Kissinger [secretário de
Estado norte-americano]: “Se vocês tivessem um milhão de barris
de petróleo para nos fornecer diariamente, talvez essa mudança não
fosse tão brusca.” Mais rasa foi a confissão do próprio Geisel
muitos anos depois: “Estou convencido até hoje de que o sionismo
é racista.” Com o fim da ditadura militar, a posição brasileira em relação ao tema foi retomando o equilíbrio e assim se manteve mesmo com a eclosão da Segunda Intifada, em 2000. No atual governo, o Itamarati, declarando-se inspirado na “Política Externa Independente” pré-1964, vem revisitando o “pragmatismo”. No corrente ano, ao excluir Israel da viagem de Lula a cinco países do Oriente Médio e promover a Cúpula América do Sul-Países Árabes, provocou em Israel evidente mal-estar, apenas mitigado pela visita do chanceler Celso Amorim ao país em maio último. De todo modo, agora já praticamente auto-suficiente em petróleo, o Brasil parece ter outras motivações para sua política externa. Se é ela uma política consistente ou apenas pirotécnica, os próximos desdobramentos mostrarão. Israel
Beloch, engenheiro
pela PUC-RJ e mestre em História pela UFF, coordenou o Dicionário
histórico-biográfico brasileiro, do CPDOC/FGV, e dirige a
produtora Memória Brasil. |
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