EDITORIAL - Boletim ASA nº 97, nov-dez/2005


Sem perdão

            Em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog apresentou-se nas dependências do DOI-CODI, a sinistra polícia política da ditadura militar (1964/1985), para “prestar esclarecimentos”. Antes do dia terminar, Vlado estava morto. A versão oficial, de suicídio, rapidamente provou-se mentirosa.

            O assassinato desencadeou protestos, que culminaram num grande ato ecumênico na Catedral da Sé. A sociedade, mesmo sob repressão e censura, mobilizava-se contra a tortura e o arbítrio. O cardeal d. Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel tiveram papel destacado nos protestos.

            Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho, que, como Vlado, era militante do Partido Comunista Brasileiro, foi morto sob tortura no DOI-CODI. Foi a gota d´água. Setores moderados das Forças Armadas, insatisfeitos com o desgaste trazido pela prática generalizada da tortura, ganharam ímpeto e reforçaram o processo de abertura política do regime. Em 1979, com a anistia, a ditadura começa a refluir.

            Vlado e Fiel foram dignos representantes de uma geração inquieta, inconformada, que não acreditava no impossível. Seus assassinos jamais foram punidos. Também não o foram os criminosos que mataram Carlos Marighella, David Capistrano da Costa, João Massena, Pedro Pomar, Mário Alves, Iara Iavelberg e tantos outros que lutaram por um Brasil socialista. A anistia, arranjo político que permitiu a volta dos exilados, não apaga nem faz perdoar os crimes cometidos pelo Estado com requintes de crueldade e sadismo. Eles são imprescritíveis na memória nacional. A justiça ficou manca.

            Foi a sede de justiça que moveu Simon Wiesenthal, falecido em setembro passado. Arquiteto de profissão, prisioneiro durante quatro anos em doze campos de concentração, sobreviveu milagrosamente ao Holocausto, sorte que não tiveram 89 membros de sua família, mortos pelos nazistas.

            Convencido de que a batalha contra o nazismo não estaria completa até que se condenassem os criminosos de guerra, dedicou-se em tempo integral a levar aos tribunais os colaboradores e cúmplices do Terceiro Reich. Localizou mais de mil deles. Certa vez, Wiesenthal comentou que “a impunidade é a morte da esperança”. Para ele, justiça não era vingança.

            Em certos países latino-americanos que preferiram colocar uma pedra sobre os horrores de inúmeras quarteladas, Wiesenthal, por seu compromisso visceral com a justiça, seria considerado, no mínimo, persona non grata. Memória ativa incomoda.         

 

 

            Em 4 de novembro de 1995 o primeiro-ministro de Israel Itzhak Rabin era assassinado por um judeu de extrema-direita. Passados dez anos, permanecem as fraturas que o crime expôs. Parte da sociedade israelense apóia, como Rabin, concessões territoriais em troca da paz. Parcela significativa, porém, reivindica atitudes violentas contra os palestinos, negando-lhes qualquer direito. Pesquisa do Centro Jaffee de Estudos Estratégicos acaba de indicar que quase metade dos israelenses vê com bons olhos a deportação de todos os palestinos dos territórios ocupados. Para onde, não se sabe

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