Entrevista - Boletim ASA nº 96, set-out/2005


"Agimos sempre sob provocação"

Jair Krischike / Entrevista para o Boletim ASA

Foi rápido o desfecho do caso dos quatro jovens de quipá agredidos por neonazistas em maio último, em Porto Alegre. Papel fundamental, por ter fornecido à Polícia os nomes e as fotos dos agressores, coube ao movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), que tem se destacado na defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos. Fundada em 1979, a entidade esteve na vanguarda da defesa de perseguidos políticos e, mais recentemente, da luta pela condenação de Siegfried Ellwanger, autor de livros nazistas. Um dos fundadores, ex-presidente e atualmente conselheiro secretário do MJDH, Jair Krischke, é de uma família originária de Hamburgo, Alemanha, neto do pastor que trouxe a Igreja Anglicana para o Brasil, no fim do século 19. É anglicano? “Eu pertenço à Humanidade”, diz ele. E completa: “Não sou negro, não sou judeu, mas detesto racistas.” Jair Krischke deu a entrevista abaixo para ASA por telefone, da sede do MJDH, em Porto Alegre.

 

ASA – O que o MJDH sabe a respeito dos grupos de skinheads e assemelhados que atuam na sociedade brasileira?

Krischke – Eles têm ramificações em todo o país. Em São Paulo, são mais fortes na capital e na região do ABCD. Em Santa Catarina, atuam principalmente em Joinville. No Rio Grande do Sul,  têm destaque na região metropolitana de Porto Alegre, onde há quatro ou cinco grupos, com algumas dissidências. Os membros de uma dessas dissidências, chamada Sharp,  dizem-se comunistas e toleram negros e drogas. Em Caxias do Sul, cidade gaúcha de colonização majoritariamente italiana, a polícia está  investigando um homicídio com faca relacionado a um grupo skin. Facas são as armas que eles geralmente usam. No Rio de Janeiro,  sabemos que existem, mas são para nós uma incógnita. Na internet, esses grupos passaram muito tempo abrigados no site argentino Libre Opinión. Retirados do ar, migraram para os Estados Unidos, onde mantêm uma página contra os judeus. Os skins têm vínculos com o movimento integralista, que se organizou em Porto Alegre, em 28 de junho. Em SP e no RJ, eles se juntaram ao Prona. Existe no sul uma outra vertente forte e preocupante: organizações separatistas que almejam constituir um outro país formado do RS, SC e PR, mas que aceitariam a inclusão de SP, desde que sem nordestinos, negros e judeus. O movimento O Sul é o Meu País é mais forte em SC e no PR. No RS, o  República do Pampa, cujo mentor se chama Irton Marx, tem um livreto com as propostas do movimento separatista em cuja capa aparece uma bandeira de inspiração nazi. Quando fui fazer uma palestra na universidade de Santa Cruz do Sul, cidade de grande importância econômica do RS e origem do República do Pampa, fiquei impressionado com a quantidade de seguranças deslocados para me dar proteção. Mesmo assim, quando saí, um grupo de pessoas tentou me atacar. A palestra era sobre racismo e anti-semitismo.

 

ASA – Como esses grupos atraem os jovens e como se financiam?

Krischke - Uma das formas que os grupos de skinheads têm de atrair jovens são as bandas de rock. A banda que tem o sugestivo nome de Zurzir, que significa açoitar,  gravou um CD com  músicas absolutamente anti-semitas. Uma delas se chama 88 – 8 equivalendo à oitava letra do nosso alfabeto, H, portanto HH, ou Heil Hitler. Já abrimos inquérito policial por conta disto. Esses grupos são bancados por nazistas, inclusive bandas de rock, da Europa. Novos grupos de skins continuam surgindo, muito mais por modismo e sem qualquer vínculo ideológico com os grupos originais. Isso tem a ver com o momento do país. A falta de perspectivas para o jovem é o caldo de cultura em que essas idéias prosperam. As escolas e -  depois que as famílias falharam -  as universidades têm que se dar conta de que falta no ensino um cuidado com estas questões.

 

 ASA - Como o MJDH procede em caso de suspeita ou constatação de atividades racistas, anti-semitas etc.?

Krischke – Nós agimos sempre sob provocação. A vítima tem que assumir o seu papel e nos procurar. O problema do racismo sempre foi uma preocupação. Em 1989, criamos o Movimento Popular Anti-Racismo - MOPAR, que funciona junto à sede do MJDH e é composto também de negros e judeus. Na ocasião, a editora Revisão, de Siegfried Ellwanger, publicava livros neonazistas e com cunho abertamente anti-semita. Nesse caso, não houve provocação, houve um escândalo. A  luta foi grande porque ainda não havia nenhum episódio de reprimenda a publicações dessa natureza. Mas conseguimos a condenação de Ellwanger duas vezes. Em 2003, quando um jovem punk foi espancado por skinheads, os nossos policiais sequer conheciam a lei. Nós estamos investigamos muito e, a partir dos casos que se apresentam, abastecemos a Polícia com documentos e fotos. Hoje, o doutor Paulo César Jardim, diretor do Departamento de Polícia Metropolitana de Porto Alegre, sabe decodificar cada uma das tatuagens usadas pelos skins e é o delegado de polícia no Brasil que mais conhece o tema skinheads. Ele tem estudado e viajado pelo interior do Rio Grande do Sul e também por Santa Catarina para qualificar outros delegados.

 

ASA – Qual foi o papel do MJDH no episódio dos skinheads que atacaram um grupo de jovens judeus em Porto Alegre, em maio?

Krischke – No episódio do espancamento do jovem punk em 2003, oito skins foram condenados a 126 dias de trabalhos comunitários. As fotos que colhemos naquela ocasião ajudaram a descobrir os agressores de maio. No processo de identificação, que eu acompanhei, descobriu-se  que quatro dos agressores dos jovens judeus tinham participado do ataque de 2003. A forma como foi organizada a agressão e a data escolhida, 8 de maio – 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial – não deixam dúvida quanto à intenção deles de matar. Agora, os quatro estão presos por tentativa de homicídio e irão a júri popular. Sabemos que a Justiça no Brasil é lenta, mas acredito que o julgamento ocorra ainda este ano.

 

ASA – Na recente Bienal do Livro no RJ, a editora Centauro, de SP, expôs exemplares dos Protocolos dos sábios de Sion  e do Minha luta . Em reação a um protesto da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, a editora alegou que os livros passam informações relevantes, sem fazer apologia de qualquer tipo de discriminação. O que o senhor tem a comentar a respeito?

Krischke – Os protocolos dos sábios de Sion estão proibidos em todo o Brasil por decisão do Tribunal de Justiça do RS referendada pelo Supremo Tribunal Federal. Em relação ao Minha luta, não há decisão judicial. O nosso procedimento é conversar amigavelmente com as livrarias. Temos conseguido, desta forma, retirar esse título de circulação.

 

ASA -   A Argentina  deu refúgio a centenas de criminosos nazistas durante e após a Segunda Guerra Mundial. Isso explicaria a força dos movimentos neonazistas  no sul do Brasil?

Krischke – Não tivemos o mesmo fenômeno da Argentina. Aqui no sul, há uma forte colonização alemã e italiana. O movimento fascista recebeu boa acolhida da colônia italiana, ao passo que o nazismo teve grande número de simpatizantes na colônia alemã. De acordo com relatórios da Polícia do início dos anos 1940, a sede do Partido Nazista no RS  funcionava com bandeira na porta.  Ainda hoje, a 100 Km de Porto Alegre, existe uma comunidade em que não se fala português. O Estado alemão tem uma postura de reconhecimento de sua culpa, mas a comunidade alemã aqui não reflete essa atitude.

 

ASA – E a Tríplice Fronteira, pode ser uma explicação?

Krischke – Em Uruguaiana, fronteira com a Argentina, e no Chuí, fronteira com o Uruguai, existe concentração de população árabe. O surgimento de terrorismo é uma possibilidade, mas estão maximizando muito.

 

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