| EDITORIAL - Boletim ASA nº 96, set-out/2005 |
Israel e Brasil respondem, com sinais trocados, a um desafio comum: valorizar a política como instância mediadora de conflitos. Em Israel, a retirada da faixa de Gaza foi uma derrota para a facção messiânica do sionismo, que defende a prevalência das leis religiosas (Halachá) sobre as decisões do Parlamento. O barulho dos colonos não conseguiu abafar a voz da maioria da população, que é a favor da troca de terras por paz. Ponto para a democracia. No Brasil, os escândalos de corrupção são uma tragédia simbólica para partidos e políticos de esquerda. A população, atônita, joga na mesma vala todos os atores deste campo, minando a esperança de uma alternativa popular para o país. Está aberto um espaço fértil para aventuras populistas, que, marginalizando a política, nunca terminam bem. ********* Se ação terrorista é aquela em que a violência contra populações civis é usada para alcançar objetivos políticos, os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, foram os maiores atos terroristas da História. Duas cidades sem importância militar destruídas e cerca de 340 mil pessoas chacinadas simbolizaram a tragédia inaugural da Guerra Fria. A carnificina, que equivaleu a cem atentados às Torres Gêmeas, serviu de alerta aos soviéticos, que avançavam rumo à Manchúria e ao leste da Europa. Há, hoje, cerca de 30 mil bombas atômicas, mas a corrida armamentista concentra-se nas armas convencionais. Estima-se que os gastos militares mundiais em 2004 ultrapassaram 1 trilhão de dólares, com os Estados Unidos responsáveis por quase metade desta soma astronômica. Estes recursos significam o dobro dos custos que a fome provoca no planeta em queda de produtividade, gastos médico-hospitalares etc. Enquanto os complexos industriais-militares entopem o mundo de armas, 852 milhões de pessoas sofrem de desnutrição aguda. A cada cinco segundos morre uma criança de fome, sem que isso sensibilize os países ricos ou abra manchetes nos jornais. Estudo patrocinado pela Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), da ONU, mostrou que bastariam 25 milhões de dólares para reduzir substancialmente os indicadores de desnutrição na América Latina e salvar 900 mil crianças da morte certa. É no mínimo grotesco falar-se em democracia num mundo onde perambula uma legião de famintos lado a lado com uma cultura militarista, cínica e excludente. Não existe guerra de civilizações, mas de prioridades. É absolutamente insuficiente vetar-se a entrada de novos membros no fechado clube nuclear (Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Paquistão, Índia e Israel). Sem uma redução drástica na produção de armamentos, recursos preciosos continuarão desviados para a indústria da morte, liquidando a esperança da redução das desigualdades.
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