Discriminação racial - Boletim ASA nº 95, jul-ago/2005


Nós e as minorias

David Somberg / Especial para ASA


Em março deste ano, a ASA recebeu convite do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (CONDEDINE) para participar da Comissão Organizadora da Primeira Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial da cidade do Rio de Janeiro (COMPPIR/Rio). O CONDEDINE é um órgão do controle popular que funciona na Secretaria Municipal de Assistência Social e é composto por diversas entidades ligadas às questões não apenas do movimento negro, mas também de outras minorias étnicas e religiosas. 

Esta conferência foi convocada pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR, onde a CONIB tem assento) e pelo Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), ambos ligados ao Ministério da Justiça, como etapa preparatória para a realização da I Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, a ser realizada em Brasília no final do mês de junho.

Nas reuniões, além da ASA, havia representantes da Sociedade Beneficente Muçulmana, representantes de grupos ciganos e indígenas, e de diversas associações de cultura e afirmação política dos afro-descendentes. Alguns destes grupos têm buscado formas de aproximação. Já recebemos na ASA o xeque Abdul Osman, da Sociedade Beneficente Muçulmana, numa palestra sobre o islamismo, e no nosso último seder laico um dos membros do CONDEDINE, o senhor Hélio dos Santos, a nosso convite, discursou durante a leitura da Hagadá, lembrando que a escravidão e a diáspora dos judeus e dos negros são exemplos da mesmas injustiças, e que exigem a mesma luta.

A abertura da conferência se deu no Palácio Tiradentes, sede da Assembléia Legislativa, no dia 29 de abril. A ASA foi representada pela diretora Gitel Bucaresky, que se pronunciou em nome da Associação. Dos trabalhos da conferência, realizados nos dias 14 e 15 de maio, e participamos eu e Jacques Gruman. Foram discutidos temas como saúde, educação, desenvolvimento social e econômico, cultura, entre outros.

O entendimento da diretoria da ASA ao aceitar o convite é o de que a discriminação não pode ser vista como um problema isolado do grupo vitimado. Ela é um problema de toda a sociedade, e deve ser enfrentada pelo conjunto de suas entidades. Um exemplo de articulação está neste número do boletim. O MOPAR em Porto Alegre há muito vem desenvolvendo ações como a que culminou na prisão dos neonazistas que atentaram contra a vida de um grupo de jovens judeus.

Acreditamos que a ASA, como herdeira direta das lutas dos judeus progressistas por uma sociedade justa, igualitária e baseada nos princípios da justiça e da solidariedade, não deva se furtar a este debate. Podemos exercer um papel fundamental na criação desta ampla aliança, para além das desconfianças e dos particularismos, e ajudar a criar um Brasil onde não seja mais necessário discutir o preconceito ou a discriminação. Com esse espírito participamos da conferência e com esse espírito seguiremos apoiando iniciativas que visem a unidade, a integração e a inclusão de todas as caras e jeitos que compõem o nosso país. 

As reuniões preparatórias e a I COMPPIR/Rio foram um passo inicial que não pode esgotar-se em si mesmo. Feito o primeiro movimento de aproximação, precisamos agora buscar convergências, estreitar alianças, apontar enfim para um futuro em que qualquer ato de cunho racista ou correlato contra um indivíduo seja visto como um ato contra toda a sociedade. 

 

* David Somberg, médico, é diretor da ASA e colabora neste Boletim.

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