| Beco da Mãe - Boletim ASA nº 95, jul-ago/2005 |
Henrique Veltman / Especial para ASA “A inscrição ainda está lá, à direita de quem entra naquela vila de casas operárias de São Cristóvão. Foi feita com piche, material extremamente raro naquele bairro de ruas sem asfalto, quando muito, calçadas com paralelepípedos. Pois é, assim começam as minhas memórias, que estou escrevendo há mais de trinta anos – e não sei se um dia vou terminar. Vez por outra, eu acrescento um capítulo. Pode ser que agora, escrevendo pro boletim da ASA, eu adiante o projeto. Vão acabar com a Praça Onze... “Vão acabar, com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai...chora, tamborim. Chora, o morro inteiro. Favela, Salgueiro,Mangueira Estação Primeira...guardai os vossos pandeiros, guardai, porque este ano a escola não sai...” Da sacada do sobrado da Rua Visconde de Itaúna, em 1940, 1941, eu assisti ao fim da Praça Onze, ao nascimento da Avenida Presidente Vargas. Aliás, daquela sacada, meu irmão e eu assistimos a muitas coisas importantes – só que, na época, não sabíamos o quanto eram importantes. Por exemplo, Getúlio Vargas falando ao povo, no coreto da praça: “Trabalhadores do Brasil! Neste momento de crise nacional...” A Praça Onze de Junho, data que comemora a vitória do Brasil na batalha do Riachuelo, no Paraguai, era um local privilegiado, na primeira década do século. Ficava ao lado da Cidade Nova, bairro criado por Pereira Passos, após a derrubada de centenas de cortiços. Assim, os aluguéis das casas e sobrados eram mais baratos que em outros bairros mais tradicionais. Depois, estava próxima à estação principal da Estrada de Ferro Central do Brasil, a gare D.Pedro II, porta de acesso ao subúrbio carioca. E era lá, no subúrbio, que os mascates, os clientéltchiks, ganhavam a vida. A praça, em si, pode ser imaginada como um quadrilátero. As duas principais ruas, paralelas, eram a Senador Euzébio e a Visconde de Itaúna. Do lado do canal do Mangue, as duas ruas seguiam até a ponte dos Marinheiros. Perpendiculares, eram as ruas Marquês de Sapucaí (essa mesmo, a do Sambódromo), Marquês de Pombal, Santana e General Caldwell. Paralelas à Visconde de Itaúna, as ruas Benedito Hipólito e Júlio do Carmo. Atrás da Senador Euzébio, a General Pedra. Do outro lado do jardim da praça, tudo terminava no campo de Santana, a Praça da República. Nesse cenário, quando os primeiros imigrantes judeus chegaram, em 1903, 1904, o Rio de Janeiro conhecia as picaretas do prefeito Pereira Passos, com o seu “Bota abaixo”. Decidido a fazer da capital da República uma cidade moderna, européia, o presidente Rodrigues Alves deu todos os poderes ao prefeito Pereira Passos.Ele derrubou mais de 600 prédios que abrigavam cortiços e outras habitações que favoreciam os surtos freqüentes de febre amarela, cólera e peste bubônica. Mirando-se na experiência parisiense do Barão Haussman, Pereira Passos provocou uma revolução urbana sem precedentes no continente, abrindo grandes avenidas, ruas largas e praças arborizadas. A maioria dos desalojados acabou subindo os morros, engrossando a fileira de veteranos de Canudos, e dando origem às favelas. Os prédios, com raras exceções, tinham os andares térreos ocupados pelo comércio e pequenas oficinas, lojas de móveis, alfaiatarias etc. Nos andares de cima, o povo morava – e bem. Alguns dos primeiros apartamentos do Rio, “com porteiro e elevador”, ficavam justamente aí. O jardim da praça, como relembra Samuel Malamud no seu livro Recordando a Praça Onze, tinha árvores frondosas e banquetas floridas. Nas veredas, havia bancos. Num canto, o coreto onde, aos domingos, a banda da PM executava músicas clássicas e populares. No centro, um repuxo (que ainda existe, está no Alto da Boa Vista). A praça começou a perder seus encantos em 1927, quando a prefeitura retirou as árvores e os antigos bancos e afastou o coreto, para facilitar o trânsito. No início dos anos 40, quase tudo veio abaixo, inclusive o histórico teatro São Pedro, para a abertura da Avenida Presidente Vargas. A Praça Onze teve um papel muito importante na história do Carnaval carioca (foi na casa de tia Ciata, na Visconde de Itaúna, que o samba urbano nasceu) e também na vida judaica. Por volta de 1942, com a abertura da avenida, terminava o período de ouro da praça Onze – e o judaísmo carioca, que já iniciara timidamente a sua debandada rumo às zonas norte e sul, deixou para trás uma página importante de sua história. * Henrique Veltman, carioca, 68 anos, é casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América Futebol Clube. |
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