EDITORIAL - Boletim ASA nº 95, jul-ago/2005


Bola quadrada

Política e esporte são velhos parceiros. Os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, e as Copas do Mundo do Brasil, em 1950, e da Argentina, em 1978, por exemplo, foram muito mais do que grandes eventos esportivos. Na arena, atletas e torcidas em estado de excitação nacionalista. Nos bastidores, elites dirigentes procurando manipular os acontecimentos em seu próprio benefício. Os estádios, como acontece com freqüência, são uma representação das relações sociais, dos jogos de interesse, das tensões e frustrações das massas.

Quando, em jogo recente, o zagueiro argentino Desábato insultou o atacante Grafite, do São Paulo, acabou involuntariamente incendiando um debate que, no Brasil, é tratado com indolência: o racismo. Fosse um raio em céu azul, o assunto não teria mobilizado, como o fez, a imprensa e a opinião pública. O campo de futebol sacudiu uma questão social e política.

Na Europa, as manifestações racistas nos estádios, especialmente na Espanha e na Itália, deixaram de ser fatos isolados. No campeonato italiano de futebol, pelo menos cinco times têm torcidas ligadas à extrema-direita. Usam uniformes e estandartes fascistas e hostilizam negros e estrangeiros em geral. Na Espanha, a situação é tão grave que o chanceler Miguel Angel de Moratinos foi obrigado a pedir desculpas formais pelas ofensas dirigidas por torcedores espanhóis a jogadores negros da seleção inglesa, num amistoso realizado no ano passado. 

Em Israel, repete-se comportamento semelhante. Um editorialista do jornal Haaretz chegou a dizer que parte da sociedade israelense está “gravemente doente”. Torcedores do Betar Jerusalém entoaram cantos racistas contra Abas Suan, meio-de-campo do Bnei Sakhnin, formado por árabes israelenses. Baruch Dago, jogador do Macabi Tel Aviv, foi ofendido ano passado pela torcida de seu próprio time, que o mandou “voltar para a selva”. Dago é judeu etíope e chegou a Israel há 14 anos.

Há, é verdade, algum esforço institucional para banir o preconceito do meio esportivo. Em certos lugares, clubes são punidos com o fechamento de estádios onde ocorreram episódios racistas. Entretanto, tratar o fascismo e o racismo apenas com medidas repressivas não funciona. O discurso fascista, messiânico e salvacionista, é alimentado na Europa pela convergência de dois elementos reais: desemprego estrutural e emigração. A tensão resultante acaba explodindo em raiva xenófoba nas ruas e nos campos de futebol. O racismo mascara, muitas vezes, o preconceito de classe e a alergia aos diferentes. A solução não virá em sociedades tolerantes com a exclusão econômica, a marginalização social e a supremacia étnica. 

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