| HOMENAGEM/PAULO AFONSO GRISOLLI - Boletim ASA nº 94, mai-jun/2005 |
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Hilário Stanislaw / Especial para ASA O Teatro da BIBSA foi criado em 1959, a partir do grupo de teatro ídish dirigido pelo saudoso Hersch Blank. Logo em seus primórdios, viu-se frente a uma grave crise: o diretor, Hélio Thys, por incompatibilidade de gênio com a maior parte do elenco, renunciou irrevogavelmente. Estávamos, portanto, num mato sem cachorro... Ou, mais propriamente, num palco sem diretor. Foi quando Moysés Ajchenblat teve a idéia de irmos todos ao Arena de São Paulo, que estava em temporada no Rio, no local que posteriormente abrigou o Grupo Opinião. Tínhamos afinidades com o Arena: queríamos nada mais nada menos que traduzir o Brasil e o mundo num palco! Terminado o espetáculo se não me engano, Revolução na América do Sul , fomos recebidos por quase todos os componentes do Arena: Vianinha, Nelson Xavier, Milton Gonçalves, entre outros. A reação a nosso pedido para que um deles nos dirigisse foi imediata: Milton lembrou que um dos integrantes da companhia, o administrador do grupo (também jornalista do Diário da Noite), estava louco para ter uma primeira experiência de direção. No dia seguinte, reunimo-nos com ele na BIBSA, Rua Álvaro Alvim, 48, primeiro andar, Cinelândia. E ele disse: “Vamos aprender juntos.” Assim, Paulo Afonso Grisolli tornou-se diretor de um grupo de teatro amador com reais pretensões artísticas, que parece-nos foram alcançadas. Grisolli dirigiu na BIBSA três espetáculos: a peça de sua autoria A mesa, juntamente com A ocasião desfaz o ladrão, de Flávio Migliaccio, teve resultados ainda modestos. Com Histórias para serem contadas, de Osvaldo Dragún, ganhamos o prêmio de “Melhor Espetáculo” em dois festivais, o da Guanabara (1961), organizado por Maria Clara Machado, e o 4 Festival Nacional de Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, em Porto Alegre (1962). Premiado nos dois festivais com a “Melhor Direção”, Grisolli ganhou uma bolsa de estudos com Roger Planchon, em Lyon (França), e com Jean Villar, no Theatre National Populaire de Paris. Antes de partir para a Europa, Grisolli realizou sua terceira e última direção no Teatro da BIBSA: Quatro séculos de maus costumes, espetáculo composto de Uma mulher de gravata, de Leonardo Fróes, e O auto da barca do inferno, de Gil Vicente, com adaptação para o português moderno do poeta Walmyr Ayala, ainda em 1962. Ao voltar da Europa, em1963, Grisolli considerou que o Teatro da BIBSA já se tornara pequeno para ele, e empreendeu seu vitorioso vôo para novas paragens. Mas nós, que continuamos na BIBSA, ficamos felizes, pela certeza de se ter revelado um dos maiores diretores de teatro e televisão de toda a história da arte cênica no Brasil. Grisolli tornou-se um dos diretores mais requisitados de que temos notícia. Mas seu rigor estético irredutível granjeou-lhe inúmeros conflitos. O mundo exterior não era a BIBSA, onde sua palavra sempre foi tudo. Mesmo assim, sucederam-se os momentos brilhantes, dos quais podemos citar Onde canta o sabiá (1965), redescoberta de um obscuro texto de Gastão Tojeiro, com Marília Pêra, Gracindo Júnior e Afonso Stuart, entre outros. Marco estético do teatro brasileiro, pode ter assombrado a muitos, mas não a nós, da BIBSA, pois tal linguagem nos lembrava a da magnífica direção de Histórias para serem contadas. Logo depois, a televisão o consagrou definitivamente com trabalhos também pioneiros, como Malu mulher, Lampião e A grande família, que levou Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa para a televisão, em plena vigência da ditadura fascista. Cumpre também ressaltar Grisolli na direção do Departamento de Cultura do Estado do Rio de Janeiro (1975 / 79), embrião da futura Secretaria de Cultura, onde se destacou na difícil tarefa de disseminar atividades culturais por todo o Estado do Rio de Janeiro e dar apoio a manifestações de cultura popular. Personalidade sempre irrequieta, em busca permanente do novo, eternamente insatisfeito com tudo a sua volta, Grisolli desliga-se no início da década de 1990 da TV Globo. Vai morar em Portugal, levando em sua bagagem o característico toque de novidade onde quer que pusesse as mãos e a excepcional inteligência, além, é claro, do seu famoso temperamento. Lamentavelmente, não foi feliz em Portugal. E, em plena luta pela realização de seus projetos em terras lusas, faleceu subitamente em 23 de dezembro de 2004. Mas a lembrança de suas inigualáveis realizações jamais se apagará da memória daqueles que com ele conviveram e trabalharam. Hilário Stanislaw |
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