HOMENAGEM/PAULO AFONSO GRISOLLI - Boletim ASA nº 94, mai-jun/2005


O Teatro da BIBSA e Paulo Afonso Grisolli

Isaac Schneider / Especial para ASA

Estação Carioca do metrô. Caminho em direção à Avenida Rio Branco e meus olhos encontram a imponente fachada do Teatro Glauce Rocha. O tempo volta a 1961, quando o Teatro da BIBSA, Biblioteca Israelita Brasileira Scholem Aleichem, iria apresentar a peça Histórias para serem contadas, do jovem autor argentino Osvaldo Dragun. Naquela noite, o nosso grupo, dirigido por Paulo Afonso Grisolli, iria participar do 1 Festival de Teatro Amador do Estado da Guanabara. Ainda era cedo, o teatro estava vazio e o palco, quase às escuras. Lentamente, caminhei, relembrando falas e marcações. O nó na garganta traduzia um misto de medo e ansiedade que em meus 21 anos não aprendera a domar. Em algumas horas, o resultado da apresentação poderia mudar as nossas vidas. Os outros grupos tinham qualidade, elencos afiados, talvez bem mais experientes do que nós. Das comissões selecionadora e julgadora participavam os maiores nomes ligados ao teatro brasileiro, como Bárbara Heliodora, Gianni Ratto, Maria Clara Machado, Dulcina de Moraes, Paschoal Carlos Magno, Walmir Ayala, Zora Seljam e Edmundo Muniz, este último diretor do Serviço Nacional de Teatro. Grisolli, até então, só havia dirigido duas peças: A mesa, de sua autoria, e A ocasião desfaz o ladrão, de Flávio Migliacio, em 1960. Na época, reconhecia tratar-se de um espetáculo-tentativa, a começar dos textos encenados, que eram, a rigor, a primeira experiência dos dois autores. Tentativa, também, de atores novos e heterogêneos, com quase nenhuma experiência de palco, que repartiram tarefas, multiplicaram esforços, uma construção coletiva que resultou naquele espetáculo. Grisolli assegurava, então, tratar-se de uma tentativa, principalmente de um sujeito que, desejando escrever teatro, resolveu sentir mais de perto os problemas de encenação e interpretação, permitindo-se, pelo menos uma vez, ser diretor.

Ele observava os atores que brigavam com o seu texto. As personagens que criara, subitamente as via encarnadas e limitadas a um espaço cênico apresentando vozes, vendo-as devassadas pelos atores, tendo, de saída, de lutar com as dificuldades nunca experimentadas da mise-en-scène, percebendo melhor, segundo seu entendimento, as fraquezas da peça que escrevera. Modestamente, acreditava que, naquele momento, começara a aprender, confessando que, se tivesse que recomeçar tudo, faria um espetáculo diferente. Tinha convicção de que o lucro não fora apenas dele. Percebia que todos nós, seus novos companheiros do Teatro da BIBSA, lucramos com aquela aproximação. O futuro diria que ele estava certo. Agora, com Histórias para serem contadas, seu inegável talento e indiscutível capacidade criadora iriam emergir, apesar do texto ingênuo de Osvaldo Dragun, do qual conseguiria extrair emoções talvez desconhecidas pelo próprio autor. Grisolli rompia barreiras à procura de uma linguagem inovadora, reinterpretando o texto, atingindo plenamente uma visão progressista à procura de uma sociedade justa, fraterna e igualitária, onde a exploração do ser humano se transformasse em coisa do passado. E mais. Tudo isso sem perder a ternura (quase sempre...). Era ousado, sim. Entrávamos pela platéia cantando, tocando tambores, tamborins, reco-recos, panelas, numa algazarra muito bem organizada, sorrindo, brindados pelas palmas generosas do público. No fundo do palco, letras invertidas alertavam: “Está tudo errado.” Era preciso mudar o mundo. E quem nos assistisse teria que sair do teatro pensando nisso.

Eram quatro pequenas histórias para serem contadas. Ah! Pobre vendedor de balões, um camelô quase enlouquecido de dor devido a um abscesso.Para tratar-se teria que parar de trabalhar. Não trabalhando, como pagar o tratamento? E o outro, que aceitaria qualquer trabalho para sobreviver, até mesmo abrindo mão da própria dignidade, conseguindo, afinal, um emprego de cachorro, ganindo sua revolta!! E o Tonico Soares, envolvido por patrões de empresas estrangeiras, que acabou considerando-se responsável pela epidemia de peste bubônica em Botsuana, na África? Contávamos, também, a história de um amor socialmente desajustado; ele, pobre operário, ela, bela e rica; amor impossível. Afinal, concluem que o importante é erguer a cabeça e enfrentar os problemas. A solução será sempre pela coragem, luta e consciência. Ah, em tempo: o nosso Teatro da BIBSA ganhou o Festival!

O céu ainda era azul e não víamos as nuvens de chumbo no horizonte...

Isaac Schneider

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