EDITORIAL - Boletim ASA nº 94, mai-jun/2005


Lição aprendida?

Observados a seis décadas de distância, os números da Segunda Guerra Mundial continuam impressionando: sessenta milhões de homens em armas, entre 45 e 50 milhões de mortos e um número incontável de feridos e mutilados. Ao contrário de todos os conflitos anteriores, não se preservou a população civil, com um resultado macabro: cerca de dois terços dos mortos eram civis.

Diferentemente do que prega uma historiografia centrada em personalidades, a Segunda Guerra Mundial não foi produto de uma conspiração de políticos monstruosos, que teriam arrastado populações inocentes. Representou a solução militar para a grave crise social e econômica do capitalismo dos anos 20 e a continuação da tentativa, iniciada ainda em 1917, de sufocar o primeiro Estado operário da História, a União Soviética. Foi, simultaneamente, um conflito interimperialista e contra-revolucionário.

A selvageria não teve limites entre 1939 e 1945. Todos contribuíram com sua cota. O nazi-fascismo, apoiado na maior máquina bélica construída até então, destruiu cidades e vidas em escala industrial. Campos de concentração e extermínio entraram para a História como exemplos definitivos da falta de limites da ação humana. Por sua vez, a coligação anti-Eixo retaliou sem discriminar populações civis (o que só recentemente se voltou a lembrar). Os bombardeios de Tóquio (mais de cem mil mortos civis, numa única noite de 1945), Hiroshima e Nagasaki (atingidas por armas atômicas em 1945; cerca de 140 mil mortos civis instantaneamente e mais 200 mil em menos de cinco anos, por efeito da radiação) revelam passagens nada românticas da atuação aliada.

Para nós, judeus, o período é marcado pelo Holocausto. Cerca de 6 milhões de judeus europeus, quase 55% da população judaica do continente, foram exterminados metodicamente pelos nazistas. Dos 3 milhões e 300 mil judeus na Polônia pré-1939, a maior população judaica da Europa, menos de 10% sobreviveram. Houve, é verdade, reação armada em alguns lugares (a insurreição do gueto de Varsóvia é apenas um dos episódios (ler a matéria sobre os partisans, nas páginas 12 e 13). O massacre é um choque sob qualquer perspectiva, ainda mais quando se sabe que os Estados Unidos e o Vaticano tinham conhecimento, pelo menos desde 1942, do genocídio em curso. Nada fizeram. Por quê? No caso do alto clero da Igreja católica, foi mais um parágrafo num prontuário manchado por perseguições aos judeus. Oxalá ventos de diálogo inspirem o recém-entronizado papa Bento XVI e soprem na direção oposta à tantas vezes repetida intolerância.

Numa ironia dramática da História, o Holocausto acabou sendo elemento central na criação do Estado de Israel, neste mês de maio comemorando 57 anos de fundação. O trauma provocado pela revelação da tragédia do judaísmo europeu, somado ao assédio contra o colonialismo britânico na Palestina, criou o clima que viabilizou a rápida materialização do projeto sionista.

Há herdeiros de Hitler? Criaram-se anticorpos contra o totalitarismo nacional-socialista? Fragmentos da ideologia nazista sobrevivem nas gangues de skinheads, em manifestações xenofóbicas, racistas e anti-semitas, em pequenos partidos de extrema-direita. Não parecem, entretanto, configurar um movimento articulado capaz de empolgar grandes massas e apontar saídas para os enormes desafios deste início de século. De qualquer forma, a permanência de desigualdades abissais entre nações e da hostilidade contra os considerados diferentes, a valorização das armas como meio de resolver disputas e os rugidos imperiais flertam perigosamente com um ambiente que, seis décadas atrás, deixou um rastro de dor e ruína.

Rosa luminosa

A tarefa era difícil. Entre janeiro de 1996 e março de 2000, Abraham Josef Schneider, o rôiter Iossl, havia produzido a deliciosa série de crônicas Histórias da BIBSA, com grande sucesso junto aos leitores. Quando Iossl partiu, como substituí-lo? Como manter acesa a chama memorialística? Ia ser mesmo uma pedreira.

Surgiu então a Rosa Goldfarb, Rosinha para os mais chegados. Integrante de uma geração engajada e lutadora, ela não hesitou em pegar o bastão. Na edição 69 de ASA, março/abril de 2001, com a crônica “Alguém que sorria em silêncio”, Rosinha inaugurava o Canto da Rosa. Em 26 edições contou parte de sua história pessoal, fundindo-a com personagens e situações que nos lembram a formação da comunidade judaica do Rio de Janeiro.

O ciclo agora se encerra. A diretoria da ASA e os colaboradores deste Boletim deixam registrado seu agradecimento à Rosinha pelos momentos de luz e emoção com que nos presenteou.

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