Ética e Ciência - Boletim ASA nº 93, mar-abr/2005

A parceria

* Paulo Blank / Especial para ASA

Exigir da religião que ela valide atitudes que se encontram fora de seus limites é um equívoco freqüente. Daria no mesmo pedir que a tecno-ciência pare com suas pesquisas turbinadas por grandes lucros e pelo impulso humano de se sobrepor ao destino mortal da existência e aceitar o mundo vindouro como referências do trabalho de pesquisa. São percepções diferentes sobre o lugar do humano no mundo. No fundo, o que se exige da razão mística é que se modernize e deixe de ser o que é, adotando uma identidade imposta pela razão científica.

Desejar que as pesquisas sobre o uso das células tronco tenham o aval da religião é buscar a legitimação de uma tradição que nada tem a ver com a direção que a tecno-ciência onipresente tomou no último século. Agora não é D’s quem promete a vida eterna, é a ciência que garante que todos nós chegaremos lá se deixarmos que ela atue livre de limitações. O que a razão mística nos legou é uma visão bem diferente do humano e de seu destino no mundo.

Iossef Iben Chiquitilla, um pensador da Cabalá filosófica, morador de Segóvia no século 13, diz que D’s e o casal se transformam em sócios (shutafim) de uma criatura gerada na relação sexual. Quando o casal realiza a “adição” (hibur) de corpos e almas, D’s e o Humano se associam num projeto único. Neste encontro, o divino se faz presente através de sua manifestação feminina, a Chekiná, e o seu canto acompanha o ato de “adição” de corpos e almas, reconstruindo a Sua unidade e a do cosmo. Ou, como diz Charles Mopsik, o casal faz do humano um acontecimento divino.

Para mestre Chiquitilla a intenção da associação é clara. A tarefa do homem, criado à imagem de D’s, é terminar a criação divina realizando o acerto do mundo. Na concepção da Cabalá houve uma ruptura inicial no processo de criação do mundo e ele nasceu dentro de uma catástrofe primordial que atinge até mesmo o nome de D’s. Esta ruptura desloca o paraíso para o futuro e coloca o ser humano como artífice desse tempo a ser criado. Os filhos, para Chiquitilla, são fundamentais nessa estratégia da redenção.

Desde o momento em que o casal se forma, a tarefa da construção do futuro começa a se realizar, pois, para o Mestre, só a vida vivida com justiça cria condições para o encontro. O Tsadik, o Justo, encontra o seu par, refaz a unidade do Nome rompido, reconecta os canais partidos da Árvore da Vida e, ao gerar filhos, prepara o caminho para que mais justos engrossem as fileiras na batalha contra o mal através da prática diuturna da justiça, que, na concepção judaica, relaciona-se com a descoberta do outro e com a responsabilidade pelo próximo.

Multiplicando a imagem de um D’s revelado que se apresenta dizendo “Sou santo e santos sereis”, e tendo entre os atributos de Sua santidade o Tsedek, a Justiça, o homem se associa a um projeto que atravessa a História e transforma a Biologia em genealogia divina. Seres divinos estão além da ciência. Os desígnios do homem moderno, que, junto com a morte de D’s, decreta o fim do humanismo e com a mesma facilidade que descobre os antibióticos constrói Auschwitz, nada têm a ver com a sabedoria perene. Esta foi que criou o conceito do outro e a responsabilidade pelo próximo, apostando no amor como cimento da vida em sociedade. Convenhamos, a tecno-ciência não se preocupa com esses detalhes.

A alma da tecno-ciência é a eficácia, o seu destino é buscar cada vez mais longe e maravilhar-se com o poderio e a liberdade do homem, e as suas preocupações não dizem respeito aos milhões de famintos que povoam este mundo. É até salutar, dialeticamente salutar, que outra razão se contra ponha ao poderio de uma razão científica que, enquanto conquista o cosmo, fecha os olhos para a destruição do planeta.

Como tudo na vida, trata-se de uma questão de opção e do tipo de parceiros que se escolhe para o empreendimento.

* Paulo Blank é psicanalista, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e autor de O mistério dos casais, a sair em abril pela Ed. Relume Dumará.


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