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MEMÓRIA - Boletim ASA nº 93, mar-abr/2005 Revelações * Esther Kuperman / Especial para ASA
O passado, mais do que simples situação pretérita, permite-nos entender o presente. Não se trata de uma relação meramente descritiva: ele ecoa sobre nós, serve de guia, referência, e muitas vezes nos oprime. Diz o velho Marx: “Os homens fazem sua própria História, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.” Mas a memória tende a ser seletiva e muitas vezes omite ou fabrica versões destinadas a minimizar acontecimentos ou produzir versões comprometidas com interesses. Vidal-Naquet fala sobre o compromisso de se evitar as distorções da memória. Um exemplo destas distorções: as investigações sobre a atuação de Josef Mengele nos campos de concentração nazistas tiveram, por parte dos alemães, tratamento radicalmente diferente do recebido pelo médico japonês Shiro Ishii. Este, durante a Segunda Guerra Mundial, utilizou prisioneiros chineses como cobaias em experiências biológicas. Mais de 3 mil prisioneiros morreram em virtude de seus ensaios com microorganismos em um centro de pesquisas denominado Unidade 731, além das incontáveis vítimas de testes realizados em campo aberto na região próxima à Unidade. Apesar de comprovada sua responsabilidade, Shiro Ishii jamais foi julgado e o episódio caiu no esquecimento. A discussão ressurgiu com notícias sobre documentos produzidos pelos órgãos de repressão durante os anos de chumbo no Brasil, gerando debates sobre a pertinência de sua divulgação. Neste mesmo momento, o Memorial Iad Vashém abre para consulta, pela internet, sua central de dados sobre as vítimas do Holocausto. Agora, qualquer cidadão pode obter informações sobre seus ancestrais a partir da identificação do local de origem, filiação, idade, estado civil, profissão e local onde morreram. Não se trata de autocomiseração, como gostam de acusar os que procuram minimizar o alcance desta tragédia, mas de democratizar informações sobre fatos ainda presentes na memória individual, que não podem ser apagados da História e nos remetem a indagar como a espécie humana foi capaz de produzir tanta desumanização e degradação. Embora seja doloroso saber detalhes sobre o destino de cada vítima, pois tornam tudo mais palpável, é preciso defender o acesso aos vestígios do passado. Só assim será possível transformar a memória em História e torná-la um bem de todos, sem distinção de classe social, etnia ou nacionalidade. Não se trata de promover um mea-culpa coletivo, mas de encarar situações que precisam ser julgadas a partir de referenciais éticos e morais comuns a todos os povos. Também não se pretende reviver o passado, mas reconstituí-lo para entender o que se passou. O acesso ao passado é um direito coletivo. Cabe ao Estado garantir à sociedade o trato com a memória histórica. Somente o exame dos fatos e a preservação da memória nos resguardam de novas aberrações e nos tornam mais humanos. A sonegação de informações ou a utilização de estratégias que influenciem a interpretação da História constituem um diagnóstico das relações entre o Estado e a sociedade e seu controle é uma das expressões da hegemonia de uma classe. No caso dos documentos do período da ditadura militar em poder das Forças Armadas, temos uma interdição ao passado: sua existência ora é negada, ora é confirmada, e mesmo quando confirmada, o acesso não é permitido. No que diz respeito aos testemunhos sobre o Holocausto, sua consulta tem sido garantida a todos os interessados. Esta desigualdade no tratamento da memória pode ser compreendida quando constatamos que, felizmente, o nazismo se encontra no rol dos regimes eliminados, o que garante a exposição dos seus crimes. O mesmo não se pode afirmar em relação às ditaduras na América Latina, cujos modelos políticos e econômicos deixaram resquícios no interior da nossa sociedade. A relação entre vencedores e vencidos influencia a forma como a sociedade e conseqüentemente a historiografia se posicionam frente a este dilema. * Esther Kuperman, historiadora, é colaboradora do boletim ASA.
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