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EDITORIAL - Boletim ASA nº 93, mar-abr/2005 Memória viva Sob um frio glacial, a passagem do 60o aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho foi lembrada numa cerimônia ecumênica, na área onde existiu o campo de extermínio. A homenagem aos torturados e assassinados pelos nazistas trouxe mais do que uma emoção provisória. A memória do suplício ressurgiu, dolorosa e questionadora. Perguntas incômodas retornaram à consciência. Por que o mundo assistiu impassível ao massacre ? Por que a tragédia atingiu proporção colossal, com apenas reações isoladas das vítimas ? É possível acreditar em Deus após Auschwitz (dúvida levantada por Primo Levi, sobrevivente do campo) ? Há muitas formas de apropriação da memória do sofrimento. Ela pode ser, por exemplo, um pretexto para vingança. Pode, também, virar um veículo de clausura, quando a recordação é tão terrível que o mundo externo se transforma, indistintamente, em ameaça. O diálogo só se sustenta com os parceiros da dor. Pode-se, porém, usar a lembrança sombria como chave para construir o presente. A consciência das causas da tragédia traz no ventre um sentimento de solidariedade com os vivos que ainda guardam disposição de luta para que os horrores antigos e suas variantes não sejam vitoriosos. No Brasil, forças obscurantistas tentam impedir que a sociedade tenha pleno acesso a documentos da época da ditadura militar (ler na página ao lado o artigo da historiadora e colaboradora deste Boletim Esther Kuperman). Este segredo perpetua o vácuo na memória de muitas famílias e é indigno da história dos que ajudaram a superar o período ditatorial e agora defendem o sigilo. Não será com omissão que os brasileiros se reconciliarão com sua história recente. A ignorância é mãe da violência e as novas gerações precisam conhecer as entranhas da ditadura militar para se vacinarem contra as tentações autoritárias. É a memória como parceira da democracia. Recomeço ? O cessar-fogo acertado entre o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abas, deve ser saudado. Quebrou-se, ao menos por ora, o ciclo infernal de mísseis, tiros e homens-bomba. Enquanto se conversa, o dedo sai do gatilho. É preciso, entretanto, dar passos concretos para que este gesto se transforme em caminho para uma paz justa e duradoura. O desmantelamento dos assentamentos na faixa de Gaza deve ser acompanhado por um cronograma claro de etapas que levem à criação de um Estado palestino viável. Sem isto, não se cria um clima de confiança, o fracasso de Oslo se repete e os fundamentalistas de ambos os lados se fortalecem. Homens-bomba sempre foram os melhores aliados da direita israelense supremacista. Foi em Sharm el-Sheik que Sharon e Abas apertaram as mãos. Este nome quer dizer “baía do idoso”. Que a sabedoria comumente associada aos idosos ilumine os políticos. Que os povos israelense e palestino tenham direito à paz e à convivência.
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