|
MEMÓRIA - Boletim ASA nº 92, jan-fev/2005 Da Alemanha para o Rio * Diego Terry / Especial para ASA “A Comunidade Judaica Alemã do Rio de Janeiro” é o segundo projeto desenvolvido por uma equipe de estudantes de História e Antropologia para o Departamento de Pesquisa do Museu Judaico do Rio de Janeiro, visando preservar a memória das pequenas coletividades israelitas. Os judeus alemães diferenciam-se dos judeus de origem leste-européia, como os da comunidade judaica da Leopoldina, primeiro projeto do Museu [ler “Os judeus da Leopoldina”, ASA 90]. Essas distinções iniciaram-se ainda na Europa, pois a Alemanha sofreu uma grande mudança social no século 18, quando o Iluminismo desenvolveu as idéias universalistas de igualdade e cidadania, permitindo que grupos étnicos e religiosos minoritários se integrassem à sociedade alemã. As comunidades judaicas puderam, então, ir para as cidades buscar formação educacional e exercer profissões. Diz o historiador Michael Löwy : “Durante o período que vai da metade do século 19 até 1933, a comunidade judaica da Europa central conheceu uma floração cultural extraordinária(...). Essa cultura judaico-alemã, produto de uma síntese espiritual única no gênero, deu ao mundo Heine e Marx, Freud e Kafka, Ernst Bloch e Walter Benjamim.” Porém, na década de 1930, o quadro político da Alemanha começou a mudar com a ascensão do nazismo, seguida de medidas de restrição e perseguição aos judeus, como as leis de Nuremberg, que anulavam os casamentos mistos e proibiam os israelitas de exercerem suas profissões, e a Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938, quando quase trezentas sinagogas e estabelecimentos da comunidade foram apedrejados e destruídos. Tão harmônica era a relação dos judeus com a Alemanha e tanto orgulho tinham de viver e ser cidadãos desse país - cuja excelência na razão e na tolerância ficara demonstrada -, que muitos dos perseguidos se recusavam a sair. Sobre tal assunto recebemos depoimentos como: “Não acreditavam que fossem capazes de fazer uma coisa que um maluco estava pregando” e “Eles achavam que Hitler ficaria pouco tempo”. A chegada de judeus alemães ao Brasil ainda é muito tímida na primeira metade dos anos 30. No começo, as poucas famílias se congregavam para as atividades religiosas num pequeno apartamento de Copacabana. Com o tempo, passaram a alugar salões de clubes e até mesmo cinemas para as grandes festas. Em 1942, fundou-se a Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro (ARI) numa pequena casa, transferida dez anos depois para uma instalação maior. Ao contrário dos judeus da Europa do Leste, os alemães não criaram muitas instituições para a sua vida comunitária, provavelmente porque vinham de uma experiência de maior integração na sociedade, desenvolvendo uma menor necessidade de delimitação étnica. Além da sinagoga da ARI foi fundada somente a União Beneficente Israelita, ou simplesmente União, como forma de auxiliar os recém-chegados. E a escola judaica? Quando perguntados sobre se haviam estudado em um colégio comunitário, a resposta dos filhos de imigrantes era quase que sempre negativa. Uma entrevistada disse com convicção: “Não existia escola judaica naquela época!” Existia, sim, mas, como afirmou outra depoente, “(judeu) alemão não estuda em escola judaica”. Já a sociabilidade dos jovens acontecia na própria ARI, em grupos divididos por faixas etárias, inclusive universitários. As atividades aconteciam normalmente nos sábados à tarde, com jogos, gincanas e passeio. Os namoros e casamentos raramente ocorriam entre alemães. “Eles eram meus irmãozinhos, como eu ia casar com um irmãozinho meu?”, pergunta uma depoente referindo-se à tenra amizade entre os filhos de alemães. Assim incentivou-se, ainda na primeira década de fundação da ARI, a presença de judeus de outras origens, que, entre outras coisas, permitiriam uma melhor sociabilidade da juventude. A difícil tarefa de trazer judeus não alemães para uma sinagoga em que se falava a língua germânica e se desenvolvia o rito liberal – até então uma novidade -, coube ao rabino Henrique Lemle. Nascido em Augsburgo, Alemanha, Lemle formou-se rabino e se doutorou. Vítima do nazismo, esteve no campo de concentração de Buchenwald antes de vir para o Brasil. Seu filho, Alfredo, imagina como deve ter sido a chegada do primeiro rabino não ortodoxo ao Rio de Janeiro, em dezembro de 1940: “Quando chegou ao Rio, sem chapéu, sem peiót, sem barba, sem túnica, não era considerado um rabino. Um homem com aquele aspecto não podia ser judeu.” Assim como a maioria dos judeus alemães, o rabino adaptou-se facilmente ao Brasil, logo aprendendo o português e tornando-se fã de uma das paixões brasileiras, o futebol, assistindo aos jogos no Maracanã. Seu time era o Fluminense, escolhido ao acaso no dia em que, lendo o jornal para treinar a nova língua, estranhou : “O que será um Fla x Flu ?”
* Diego Terry é pesquisador do Museu Judaico do Rio de Janeiro.
[topo] |