EDITORIAL - Boletim ASA nº 92, jan-fev/2005

          Alianças

As pichações anti-semitas recentemente descobertas num banheiro da PUC/RJ levantam questões que ultrapassam os limites da comunidade judaica. A vigorosa reação liderada pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, apoiada por segmentos da sociedade maior, foi importante para demonstrar repúdio contra o preconceito. É preciso, sempre, lutar contra a impunidade de tais atos. Ocorre que a ação judicial ou meramente repressiva não dá conta da dimensão política do problema.

A sociedade brasileira convive com formas abertas e veladas de discriminação. Dois casos recentes ilustram como a cordialidade verde-e-amarela não passa de lorota. Um: a Cia. Étnica de Dança e Teatro, composta por bailarinos negros e mulatos oriundos de favelas do Rio e patrocinada pela Petrobrás, foi barrada na porta da frente de um hotel de luxo na zona sul carioca onde ia se apresentar. Depois, no coquetel de encerramento, seus integrantes não foram servidos pelos garçons. Dois: o pastor evangélico e deputado estadual carioca Edino Fonseca (PSC) apresentou um projeto de lei que destinava recursos públicos à “cura” de homossexuais, isto é, ao apoio aos homossexuais que quisessem mudar de orientação sexual. Mesmo derrotado, o projeto expôs a máscara triste da homofobia, num momento em que se ampliam os direitos civis dos gays em países como Canadá e Israel.

O grande desafio para os democratas é criar um espaço político unificado de combate ao ódio racial e aos preconceitos. Não há que reinventar a roda. A criação de um fórum permanente, composto por ONGs, sindicatos e movimentos associativos, por exemplo, e focalizado na reação solidária contra toda forma de discriminação, poderia ser um bom princípio. Além de possibilitar melhor circulação das informações a respeito dos grupos alvejados por preconceitos, suplantaria a etapa de mobilizações apressadas e isoladas.

Visitas regulares a escolas e universidades, apresentando a diversidade étnica, religiosa e cultural como bem a ser preservado, poderiam ser um método preventivo. A presença dos corpos docente e discente nestas visitas, através de suas representações coletivas, será indispensável para dar respaldo à iniciativa e diluir a cultura das soluções pelas cúpulas. Todos sabemos do peso que a informação tem para desarmar o ódio e a discriminação.

Anti-semitismo, tal como o tráfico de drogas, não é somente uma questão policial. Ambos exigem uma resposta integrada, uma articulação profunda e não circunstancial dos segmentos atingidos com as forças vivas da sociedade. Com ousadia e pela base.

 

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