ESTADO NOVO - Boletim ASA nº 91, nov-dez/2004

A imprensa e os judeus no regime Vargas

Orlando de Barros / Especial para ASA

Na passagem do cinqüentenário de morte de Getúlio Vargas não foram poucas as oportunidades de discutir se houve ou não anti-semitismo no Brasil durante o período político do chefe de Estado desaparecido. O que serviu de ilustração para muitos debates foi a deportação de Olga Benário, pouco mais de um ano antes da instauração da ditadura do Estado Novo. Mas, indo além do deplorável episódio, a literatura histórica tem produzido muitos trabalhos que se dividem entre as opiniões que ora levam em conta ter havido anti-semitismo, ora que não houve de modo algum.

Ao longo do governo Vargas, as manifestações de anti-semitismo foram sendo manipuladas em conformidade com os interesses do próprio governo, sobretudo no que tange à pendulação internacional brasileira. Até 1938, por exemplo, os periódicos eram mais ou menos livres para atacar os judeus, conforme suas índoles ideológicas, e isso não era inconveniente para as boas relações econômicas com a Alemanha. Daí em diante, intensificando-se as relações com os Estados Unidos, as manifestações anti-semitas diminuem de freqüência, embora em meados de 1941 ainda houvesse outro surto muito virulento. Manifestando solidariedade aos norte-americanos depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em janeiro de 1942 realizou-se a Conferência dos Chanceles dos países americanos no Brasil, advindo daí o rompimento de Vargas com o Eixo e a subseqüente declaração de guerra. Nesse mesmo mês, deu-se o último ataque anti-semita em periódico. A polícia política foi imediatamente acionada contra o autor, que teve de fugir para não ser preso. As matérias que tratam dos judeus passaram a ser escritas com cuidado, embora muitas revelassem nas entrelinhas os preconceitos correntes no período anterior. Ao se aproximar o fim da guerra, e já divulgados os sofrimentos dos judeus sob o jugo nazista, o mais comum foi um tratamento simpático e, às vezes, francamente solidário. Mesmo assim, algumas matérias não deixavam de revelar fragmentos do velho preconceito. 

Por exemplo, em setembro de 1944, noticiando que seriam enviados ao Brasil 500 órfãos de guerra cujos lares haviam sido destruídos pelas tropas nazistas, um jornal carioca dava conta de que a Cruz Vermelha Brasileira se aprestava para recebê-las e que as autoridades brasileiras tomavam todas as providências para “cercar os pequenos hóspedes de um ambiente de tranqüilidade e confiança”, que lhes fizesse “esquecer os horrores passados”. Ressalvava, entretanto, estranhar muito que o Comitê Israelita só se interessasse pelos órfãos de origem judaica. “E os outros? Quando aqui não distinguimos nós os israelitas dos não israelitas, como fazer esta distinção entre crianças igualmente desgraçadas?”, finalizava a matéria. 

Dias depois, Werner Hasenberg escreveu ao jornal dando as explicações necessárias e destacando a questão das religiões dos pequenos refugiados de guerra. O jornal foi muito cauteloso na resposta. Declarou compreender as razões do Comitê Israelita, mas manteve o principal do que havia dito na semana anterior. Fez questão de afirmar que não tinha nenhum preconceito anti-semita, mas revelava então uma velha acusação aos judeus, uma certa falta de pertencimento à terra adotada como pátria: “Não sendo xenófobos, nem nacionalistas, mas simplesmente nativistas, colocamos a nossa terra acima de todas e reconhecemos ao estrangeiro, que aqui seja feliz, o direito de também amá-la e servi-la, principalmente dando-lhe, na pessoa de seus filhos, cidadãos para engrandecê-la e soldados para defendê-la.”

Depois da derrota alemã, com a participação do Brasil na guerra, até mesmo a imprensa semi-oficial passa a defender os projetos do movimento sionista. Em agosto de 1945, um número de A Noite (então sob controle do governo), trata do Congresso Sionista Mundial, que acabava de se dar em Londres, destacando ali a presença de Aron Neumann, do Brasil, único delegado latino-americano ao Congresso, de cuja comissão organizadora era membro. A Noite mostra-se simpático à reivindicação principal discutida em Londres, a criação de um Estado Judeu na Palestina, e aproveita para reproduzir algumas das opiniões de Neumann, entre as quais a de que não havia o menor vestígio de anti-semitismo nos círculos católicos brasileiros. 

Neumann aproveitou para fazer outra declaração: “O povo do Brasil é um magnífico exemplo da ausência de preconceitos raciais. Os brasileiros têm uma tendência natural a se aproximar dos estrangeiros, aos quais dão uma hospitalidade cavalheiresca, profundamente humana, uma hospitalidade aristocrática, como nunca vi igual fora da América Latina. Se países como o Brasil não importarem muitos dos vícios e preconceitos do Velho Mundo, acredito sinceramente que concorrerão para criar uma nova concepção de fraternidade entre as nações.” Estas palavras de bonomia não deixam de conter uma mensagem de perdão diante das matérias abusadamente anti-semitas que se viam algumas vezes nos periódicos poucos anos antes, sem contar as restrições do regime de Vargas à entrada de refugiados judeus em tempo de perseguição nazista, que contribuíram para que muitas vidas não fossem poupadas.

* Orlando de Barros, professor de História do Brasil na UERJ, pesquisa e escreve sobre o regime de Vargas.


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