CANTO DA ROSA - Boletim ASA nº 91, nov-dez/2004

Vita-Afib-Kinderland I

Rosa Goldfarb / Especial para ASA

Ao término da Segunda Guerra Mundial, lançou-se uma campanha de ajuda às vítimas do conflito. Foi um trabalho de vulto, dinâmico e organizado, através da Cruz Vermelha. As mulheres tiveram grande participação no esforço de reunir roupas e agasalhos de toda sorte. Essa ação abrangente tinha como endereço apenas o país de destino.

Nos casos de envios pessoais, a Embaixada francesa encabeçou um trabalho de ajuda a quem tivesse parentes na França. A cota, para endereços específicos, era estipulada em peso e objetos, permitindo a remessa de roupas, agasalhos, sabão e mais algumas coisas de que não me lembro, desde que coubessem numa determinada caixa, com taxa paga. Sei disso porque o meu pai, tendo recebido carta de quem lhe restava em Paris, pôde atender o pedido por intermédio da Embaixada da França.

A Kopenhagen também montou um esquema de auxílio, por encomenda, enviando chocolate para a Europa. O chocolate era muito valorizado por causa de suas calorias.

Tão logo se normalizaram as viagens marítimas, Lea Lerner foi à França. O motivo da viagem, não sei qual foi, mas ela tinha olhos de ver. E chamou-lhe a atenção um humano trabalho que estavam fazendo com os órfãos daquela maldita guerra. Uma colônia educativa e prazerosa. Impressionada, Lea trouxe todas as informações, despertando aqui a idéia de se organizar nos mesmos moldes uma colônia de férias para as crianças da coletividade judaica.

Encabeçavam esse grupo Bertha Feferman, Ita Acselrad, Guitel Rotstein, Carlota Lachtermacher, Mania Acselrad, Dora Gutman, Eva (?), Luba (?), Martha Kaplan, Elizabeth Zilberstein e Clara Gorender, sendo as três últimas da ala jovem. O grupo ficou desfalcado logo com a saída de Iente Lerner e a perda das senhoras Sirota e Raquel Albroit, grandes ativistas. Em Niterói, eram ativas a mulher de Moisés Kawa, Zilda Graber e as senhoras da família Wrobel, que eram jovens. Embora muitos nomes me fujam da memória, as fisionomias continuam gravadas no meu pensamento.

Nascia a Colônia de Férias Vita Kempner, em homenagem a uma judia heróica que lutara na Segunda Guerra Mundial. Quando, porém, se fixou em Israel, Vita Kempner solicitou em carta à diretoria da Colônia que seu nome fosse retirado, pois não o queria ligado aos ideais socialistas. Mudou-se o nome para Associação Feminina Israelita Brasileira-AFIB, hoje Kinderland.

Kinderland tinha um setor em diferentes Estados, como São Paulo (Tuba Schor e Elisa Kaufman Abramovicz, excelentes ativistas das primeiras colônias), Minas, Paraná (que nos deu Gitel Bucaresky, ativista incansável até hoje). Não tenho como saber todos os nomes, embora a sociedade lhes deva bastante. Arquivos foram destruídos pelo terror da ditadura militar, em 1964. 

(continua...)

 

Vita-AFIB-Kinderland II

Rosa Goldfarb / Especial para ASA

As mulheres que fundaram a Colônia eram guerreiras de boa estirpe. Seu ideal: construir e organizar um local, sem luxo mas confortável, para que as crianças aprendessem juntas nesse ambiente o significado de companheirismo, humanismo, educação, tudo com liberdade e responsabilidade.

Construir esse patrimônio foi um trabalho dinâmico e altruísta, pois só os operários eram remunerados. Primeiro, a campanha para angariar fundos para a compra do terreno. Aliás, quem se projetou na solução de problemas financeiros foi Fáiguele Zilbersztain. Encontrar o local apropriado para a realização desse sonho e fazer os reparos na casa velha, não fizeram esmorecer a batalha daquela gente de fibra. Recebeu-se de presente da ativista Faiga Paciornik o espaço do refeitório. O pavilhão leva o seu nome. Fez-se o cálculo de quantos meninos e meninas caberiam nos pavilhões improvisados. Um tanque de cimento que havia sido uma caixa dágua virou piscina. A cozinha, durante algum tempo, era um puxado entre a casa velha e o refeitório, que tinha um palco de madeira para as noitadas. Recolhidas as mesas e arrumadas as cadeiras, tornava-se um auditório.

Não foi fácil preparar o funcionamento da Colônia - Maurício Sherman encabeçou a primeira turma: fazer compras, controlar as entregas à distância, administrar a tesouraria e a cozinha. Em época de colônia, Chaika Lustig arregaçava as mangas para o trabalho administrativo. Às vezes, o material humano contratado não correspondia às necessidades e era preciso encontrar imediatamente uma solução. As ativistas eram todas instintivas, sem experiência formal em psicologia ou economia. Orientavam-se, porém, pelo bom-senso. Assim, quando foi preciso, contrataram especialistas para cada função. A cozinha, essa elas não delegavam a nenhum funcionário, como hoje se faz.

Eram seres humanos, não divindades. Às vezes, atritavam-se um pouco, talvez por cansaço, mas nada que prejudicasse o andamento da Colônia. Quando era preciso, ninguém escolhia hora para enfrentar a luta e o trabalho. E só se afastaram quando realmente não tiveram mais condições físicas. Dispuseram-se também para esse trabalho alguns homens de boa cepa. Hoje, um grupo jovem dirige a Colônia e tenho a satisfação de estar entre eles.

Lembro-me de uma noitada na Colônia em que assisti a um júri simulado organizado pelo menino Elio Fischberg (hoje desembargador). O personagem em julgamento era o Tio Patinhas. Comoveu-me o seu desembaraço, segurança e decisão final. Ali ele já definia o futuro que desejava.

Na parte cultural, Doba Zonenschein preparava todos os discursos em ídish. Bertha Feferman, este ano centenária, totalmente lúcida e única remanescente daquele glorioso grupo de pioneiras, era encarregada das atas e dos textos em português. Seu falecido marido, engenheiro, foi um dos que ajudaram no trabalho inicial. Dona Bertha e eu nos telefonamos de vez em quando porque ela gosta de saber “como vai a Colônia”. Sente pena por não poder visitá-la, mas fica sempre contente quando as notícias são boas. Em 2003, por ter completado 50 anos, a Kinderland foi homenageada na Assembléia Legislativa, por iniciativa do ex-colonista deputado Carlos Minc. Dona Bertha representou oficialmente a Colônia e deu um recado atualizadíssimo. Querida dona Bertha, todas as homenagens que lhe fizerem são mais do que merecidas.

Houve também um festejo de confraternização no local da Colônia. Foi comovente esse encontro. Muitas pessoas que se haviam despedido como colonistas encontraram-se como pais da terceira geração que subiria nas férias de verão. Eu mesma encontrei uma moça, cuja beleza singela atraiu-me para uma conversa. Acabei descobrindo que a conhecia desde que seu pai estivera na Colônia, como médico, acompanhado de sua mãe, com a moça ainda no ventre. Propus-lhe um trato e recebi a palavra de que seria cumprido: a minha geração festejava os 50 anos da Kinderland; a dela, fica incumbida de festejar o centenário.

Quem não teve algum tipo de experiência relacionada com a Kinderland, certamente carrega um hiato em sua vida. A Colônia tem magia.

* Rosa Goldfarb é diretora da ASA e colabora neste Boletim.


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