CULTURA - Boletim ASA nº 91, nov-dez/2004

Ecos persistentes das vozes de Viena

Heliete Vaitsman / Especial para ASA

Há épocas e lugares que, ao marcarem definitivamente o imaginário coletivo, legam-nos também heróis de um “panteão” pessoal. Tal é o caso de Viena, que entre a segunda metade do século XIX e meados da década de 1930 foi um centro cultural transformador, com vasta e fecunda presença judaica. Tão fecunda a ponto de alterar a face do mundo ocidental – e basta mencionar, nesse ponto, Theodor Herzl e Sigmund Freud. Esse judaísmo pode ser revisitado agora por meio da edição revista e ampliada do livro Morte no Paraíso (editora Rocco), em que o jornalista e escritor Alberto Dines relata a trajetória de Stefan Zweig, o mais popular autor de língua alemã entre as duas guerras mundiais e que, juntamente com a mulher/secretária Lotte, se suicidou em Petrópolis em 1942, quando parecia que os nazistas chegariam à costa brasileira. 
A história de Zweig, por muito tempo esnobado como “escritor menor” e hoje objeto de estudos acadêmicos na Europa e nos Estados Unidos, remete-nos tanto à tragédia maior - a tentativa de aniquilação do judaísmo europeu - quanto ao drama particular dos intelectuais judeus seculares e mais ou menos assimilados, igualados pelo nazismo às massas judaicas do leste europeu e das áreas asiáticas. No império austro-húngaro, centro da haskalá [o iluminismo judaico], os judeus tinham garantidos seus direitos religiosos desde 1848. Sob o manto do império Habsburgo, que mesclava autoritarismo e liberalismo e cairia em 1919, Viena tornara-se uma capital fervilhante, onde competiam movimentos sociais, políticos e ideológicos. Ao eclodir a Primeira Guerra, estava consolidada uma burguesia judaica que, sem acesso à política nem a cargos públicos importantes, se concentrara e se destacara nos negócios, nas artes e nas ciências (mais da metade dos médicos vienenses entre as duas guerras eram judeus). 

As estatísticas não são precisas, mas estima-se que a Áustria abrigava, em 1938, cerca de 190 mil judeus, quase 4% do total de habitantes do país; a maioria vivia em Viena, onde eram 9% da população. Milhares haviam chegado dos países vizinhos e adotado, com entusiasmo, a língua e a cultura. Sem o público judeu, dizia-se, as salas de concerto não funcionariam (foram judeus alguns dos compositores revolucionários da época, como Gustav Mahler e Arnold Schönberg). Antes de idealizar o Estado judeu como solução para o anti-semitismo europeu, Theodor Herzl, por exemplo, era o burguês austríaco por excelência, que ganhava a vida como jornalista e editor do Neue Freie Presse – onde, aliás, publicou os primeiros trabalhos do jovem Zweig – enquanto sonhava com o sucesso de suas peças no Burgtheater. Numa época de conversões freqüentes, Herzl chegou a advogar a conversão coletiva dos judeus para pôr fim às perseguições: como bom dramaturgo, imaginou a cena do com a mesma criatividade que depois usaria para detalhar o sonho sionista. Era tão laico que seu filho, ao nascer, não foi submetido ao brit milá, cerimônia de circuncisão. 

Quisessem ou não os judeus, a sociedade vienense jamais lhes permitiu esquecer a judeidade. Em1898, Freud aderiu à organização B'nai B'rith e, mais tarde, após a morte do pai, tornou-se um colecionador de histórias judaicas. Herzl e Freud nunca se encontraram, embora fossem quase vizinhos. Zweig, ao contrário, era visita constante de Freud - a quem tratava com filial reverência - primeiro em sua casa vienense, depois no exílio londrino. O escritor usou as informações da psicanálise para várias de suas biografias e foi um dos dois oradores fúnebres na cerimônia de cremação do corpo de Freud, que morreu em Londres em 1938. Nos anos 20 e 30, a teoria freudiana era um dos temas de debate nos salões vienenses, onde cabiam todos os espectros ideológicos, com detratores e defensores igualmente ferrenhos: o influente satirista judeu Karl Kraus, que apelidara Herzl de “rei de Sião” e se converteria depois ao catolicismo, zombava da psicanálise como a panacéia para judeus nervosos que antes só sofriam de diabetes...

Entre os intelectuais influenciados por Kraus, o mais famoso foi o sefaradita búlgaro Elias Canetti, que a ele se refere extensamente em sua trilogia autobiográfica (editada no Brasil pela Cia. das Letras). Canetti, prêmio Nobel de Literatura de 1981, como Zweig um cultor do idioma alemão, viveu parte da vida adulta em Viena, e é dele uma premonitória descrição: em 1915, aos dez anos, voltando da escola, viu sobre uma ponte ferroviária do Danúbio um trem com fugitivos da Galícia, homens de barbas negras, chapéus e cabelos cacheados. “... Eu nunca tinha visto tantos deles apinhados em vagões... Como gado, apertados uns aos outros...” A visão tirou-lhe o apetite no dia, mas foi depressa esquecida. Nossa família nada tem a ver com essa gente, disse-lhe a mãe. Apenas a ascensão de Hitler – que também vivera em Viena, onde fracassara como pintor -- igualaria de alguma forma, e não para sempre, os judeus. 

* Heliete Vaitsman é jornalista e tradutora.


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