ISRAEL - Boletim ASA nº 91, nov-dez/2004

A entrevista anti-semita de Theodorakis

Paulo Geiger / Especial para ASA

A entrevista de Mikis Teodorakis (MT) ao Haaretz é um paradigma do que se pode chamar de anti-semitismo “esclarecido”. Tão “esclarecido” que ele declara logo ser amigo de Israel e dos judeus, pretendendo desarmar a priori qualquer atribuição de preconceito à subseqüente demonização de ambos. O anti-semitismo “esclarecido” não se forma a partir do esclarecimento com que detecta e analisa possíveis causas da rejeição aos judeus. É “esclarecido” porque argumenta essa rejeição - que nele é um ponto de partida, e não de chegada - com todas as supostas causas que possa arregimentar no campo da história, da religião, da sociologia, da psicologia e da psicanálise, da política e, às vezes, mais simples e diretamente, dos estereótipos mitológicos de que se alimenta ou que ajuda a criar. O anti-semitismo “esclarecido”, que transparece nas declarações de um MT ou um Saramago, não justifica sua rejeição aos judeus evocando mitologias medievais que literalmente demonizam os judeus. O anti-semita “esclarecido” contemporâneo quer justificar o seu preconceito substituindo a mentirosa atribuição aos judeus de revoltantes atos, típica da Idade Média, por não menos fantasiosas e generalizantes atribuições de caráter político, psicanalítico, e até religioso, não demonstráveis em fatos, para concluir que os judeus se identificam com o mal.
Os Protocolos dos sábios de Sion, adaptação anti-semita de outra obra que não visava aos judeus, e definitivamente reconhecida como falsa, e que atribui aos judeus um complô sinistro para dominar o mundo, ainda consta em catálogos de editoras e nas prateleiras de livrarias. Mas MT não precisa dos Protocolos para alimentar e justificar seu anti-semitismo? “Esclarecido”, ele pretende provar que chegou à condenação de Israel e dos judeus como reação ao próprio comportamento deles.
Esse é o divisor de águas na percepção do anti-semitismo, e de qualquer preconceito. Há duas hipóteses para a rejeição ao grupo:

a) a percepção de que NÃO existe preconceito e de que a rejeição a um grupo é uma justa reação ao comportamento desse grupo; ou seja, tendo atravessado milhares de anos de rejeição e perseguição, os judeus seriam culpados – no campo de supostos fatos – de serem deicidas (assassinos de Jesus), envenenadores de poços (para provocar a Peste Negra, ou bubônica, que dizimou a Europa), profanadores da hóstia (de novo sacrificando Jesus, cravando punhais na hóstia, a carne sacramental de Jesus), assassinos de crianças cristãs para beber-lhes o sangue ou com ele preparar matsot (absurdo que alimentou já na modernidade o caso Beilis, na Rússia tsarista), conspiradores contra a Humanidade (segundo os Protocolos e MT); e – no campo de gratuitas interpretações e teses ideológicas – irrecuperáveis elementos nocivos pela própria origem étnica (segundo Hitler e o nazismo), opressores (os israelenses, e, por extensão, os judeus), gananciosos, elitistas, arrogantes (de dura cerviz, disse De Gaulle), sempre por trás (pela frente, diz MT, referindo-se aos judeus e o governo Bush) dos mais sinistros conluios. 

b) se é falsa a atribuição de tal conjunto de crimes aos judeus (e afirmo como axioma que realmente é – e não há espaço aqui para provar o absurdo de cada acusação), se o anti-semitismo NÃO É o ponto de chegada e convergência de tantas e tão diversas acusações, então ele só pode ser o ponto de partida, um pré-conceito, ou preconceito, que vai buscar em mitologias medievais ou em capciosas generalizações de fatos isolados e em interpretações políticas, psicanalíticas de cunho ideológico (marketing “esclarecido”) uma coonestação e a impressão de credibilidade.
Concentremo-nos nas afirmações de MT. Para demonstrar que não é anti-semita, e para “provar” que os judeus são os culpados por sua mudança de atitude em relação a eles, MT lembra que era (corrigindo a declaração inicial de que é) a favor de Israel e que combateu o racismo. E que o alegado renascimento do anti-semitismo é pura paranóia judaica. Para ele não existe anti-semitismo. O que existe é crítica às posições judaicas e ao apoio judaico à política do governo de Sharon, e ao governo de Bush. Mas sua crítica a Bush e Sharon e ao apoio que muitos judeus e israelenses lhes dão é transformada na demonização de Israel e dos judeus. Essa demonização, pretende MT, é justa, não configura preconceito. E mais: para ele, os judeus querem se fazer de vítimas para, com isso, desclassificar as merecidas críticas que lhes são feitas, chamando-as de anti-semitismo. Tenta emprestar objetividade a sua rejeição com o álibi de que, se um amigo de Israel e dos judeus torna-se seu opositor, é porque tem bons motivos para isso. Essa linha de argumentação fascistóide, que generaliza, adjetiva e estigmatiza posições e atitudes contrárias às próprias, é insustentável e contraditória. Muitíssimos israelenses e muitíssimos judeus não apóiam Bush, ou Sharon, e suas políticas. E os que apóiam (e não são somente judeus e israelenses), certos ou errados, não serão necessariamente demonizáveis só por isso. Ninguém etiquetou ou demonizou os sérvios por causa de Milosevic, os argentinos por causa de Galtieri, os cambodjanos por causa de Pol Pot. Mas, pelo apoio a Bush e Sharon, MT elege Israel e os judeus como parte da raiz do mal. 
E as etiquetas que MT especificamente distribui a Israel e aos judeus, inclusive sem distinguir entre um e outro, são versões “esclarecidas” (políticas, psicanalíticas, sociais) das medievais etiquetas de bebedores de sangue e envenenadores de poços. Na ordem em que aparecem na entrevista:

a) A tradição judaica é psicologicamente masoquista, os judeus querem sentir-se vítimas . Para MT é masoquismo os judeus se sentirem vítimas e serem especificamente sensíveis ao preconceito. Será que ele estudou História e lê jornais?

b) Para ele a percepção de anti-semitismo é hipócrita (ou seja, fruto de intencional distorção) para permitir aos judeus fazerem o que quiserem (como se os judeus pudessem fazer o que querem...). Sua etiqueta é muito simples: se um judeu percebe anti-semitismo em algo ou alguém, é hipocrisia. Os judeus podem ser acusados de preconceituosos (o que ele faz adiante), mas não podem sentir-se vítimas do preconceito;

c) Para sobreviver, os judeus tornaram-se fanáticos. Para MT, preservar a identidade, mesmo quando inserido em sociedades amplas, é fanatismo. Mas isso só vale para os judeus.

d) Os judeus sentem-se superiores por se acharem eleitos por Deus (distorção da noção bíblica de “povo eleito”, que na verdade faz dos judeus servidores da Humanidade, e não seres superiores), são arrogantes e agressivos (entre os judeus, como entre todos os povos, a arrogância é uma característica individual e não estigma coletivo); os judeus controlam as finanças do mundo, a música do mundo, os meios de comunicação, e estão à frente do governo do mal, o governo de Bush. Tudo isso é tão factual quanto o envenenamento dos poços e as matsot feitas com sangue de crianças cristãs. 

e) Os judeus, de vítimas do nazismo (situação em que eram simpáticos a MT) passaram a sentir-se fortes (essa foi a semente de Hitler) e a ser racistas em relação aos árabes (de novo, ele mistura “judeus” com “israelenses”). Associar judeus e Israel ao nazismo, mesmo como capciosa sugestão, é pornográfico. Não há nada no judaísmo, ou na sociedade israelense, sequer parecido com o conceito da negação do “outro” (muito menos sua aniquilação) por causa da diferença. Pelo contrário. Em ambos os casos, o respeito ao próximo é a base da ética. Mesmo porque os judeus, e Israel, precisam que haja respeito ao “outro” como base de sua própria existência. Apesar do conflito, os textos dos livros escolares de Israel, os artigos dos jornais, os programas universitários não tratam árabes ou palestinos como inferiores. O que não quer dizer que não haja quem sinta assim, como sentimento individual. A generalização é que é a estigmatização.

f) Israel é o Golias que combate Davi, representado por um milhão de palestinos (MT se enganou, um milhão são só na Faixa de Gaza) e MT está com Davi. O conflito de Israel com os palestinos é complexo e MT, como faz a mídia, só vê um fotograma de um longo filme, como se o fotograma fosse o filme. Israel enfrenta a decisão árabe e palestina de não admitir um Estado judaico – manifestada em guerras movidas por vários exércitos árabes que tentaram impedi-lo, no terrorismo desde os primeiros dias, na decisão registrada em Carta (em 1964, ANTES da ocupação) de destruir o Estado judaico e matar ou expulsar os judeus de lá – desde o tempo em que nem Estado era, nem forte, nem “potência”. A ocupação, o conflito, o exército contra civis (e contra terroristas), a situação violenta da qual os dois lados são vítimas é o cruel (e real) fotograma. O enredo do filme tem sido a recusa palestina de aceitar o princípio de dois Estados para dois povos. A maioria de israelenses e de judeus aceita esse princípio como base para o fim do conflito e para a convivência pacífica. Não todos, é verdade. Não parte do atual governo. A generalização de MT leva à estigmatização.

Para concluir, a pergunta do Haaretz responde à questão fundamental mais que todas as respostas de MT: para o anti-semita, se o judeu (e Israel) não for 100% puro (e quem o é?) nem vítima, só pode ser sórdido e assassino?

Não quero estigmatizar Theodorakis, como ele faz com os judeus, mas que não se esqueçam as remotas origens de sua visão estigmatizante, reveladas em suas próprias palavras: a avó de MT transmitiu-lhe a percepção do judeu como o ser sanguinário dos mitos medievais acalentados pela Igreja, o que o impressionou bastante. E MT, o comunista, o ‘esclarecido,’ acaba sua entrevista onde tudo começou: não entende por que os judeus são contra a mensagem de amor de Jesus, um judeu, e reacende no puro campo da fé religiosa, da preservação de valores, da aceitação de idéias e crenças diferentes, o antigo argumento, raiz de tanto preconceito, de tanta rejeição, de tanto ódio: se os judeus são contra a mensagem de amor de Jesus é porque eles seriam a encarnação do mal. E a rejeição aos judeus representaria a defesa do bem. Mesmo nos ‘esclarecidos’ o preconceito original é primitivo.

Veja aqui a entrevista de Mikis Theodorakis

 

* * Paulo Geiger, editor, é fundador e consultor-geral do Centro de História e Cultura Judaica e editor de duas enciclopédias judaicas em português.


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