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ISRAEL
- Boletim ASA nº 91, nov-dez/2004
Mikis, um presente de grego
“A
falsa interpretação do que eu disse em novembro de 2003
feriu profundamente um povo inteiro - o povo judeu.” Assim o compositor
Mikis Theodorakis, 79 anos, encerra horas de entrevista para Ari Shavit,
do Haáretz, a primeira que aceitou dar a um representante da mídia
israelense desde que declarou que “os judeus são a raiz do mal.
Nós, gregos, não nos tornamos agressivos como eles porque
temos mais História”. A declaração do festejado compositor
do tema do filme Zorba, o grego (1964), causou revolta, especialmente
em Israel, onde ainda ressoa nos ouvidos de muitos a voz aveludada de
Iafa Iarkoni interpretando, do mesmo autor, a versão hebraica do
tema de Z (Costa-Gavras, 1969). O mito da música grega sempre foi
considerado um amigo de Israel e especialmente do movimento pacifista.
Na entrevista para o Haáretz ele fala com carinho de Moshé
Dayan e de Yael Dayan , e conta que foi portador de uma mensagem de paz
de Igal Alon [ministro em diversos governos, falecido em 1980] para Iasser
Arafat. Depois que se identificou com a luta dos palestinos, de cujo hino
é compositor, seus concertos em Israel, que atraíam multidões,
não se repetiram. E ele diz sentir falta desse público.
Na entrevista, contudo, Theodorakis desfila uma coleção
de velhos chavões e preconceitos anti-semitas. A seguir, o que
pensa Mikis e os comentários do intelectual Paulo Geiger
Haáretz – Em 4 de novembro de 2003, o senhor causou choque em judeus e não-judeus mundo afora ao afirmar que o povo judeu encontra-se na raiz do mal. O que o senhor quis dizer com isso?
M. T. – Para mim a raiz do mal hoje é a política do presidente Bush. É uma política fascista. Não consigo entender como o povo judeu, que foi vítima do nazismo, pode apoiar tal política. Nenhum outro povo no mundo apóia essas políticas, exceto Israel! Esta situação me entristece. Sou amigo de Israel. Sou amigo do povo judeu. Mas a política de Sharon e o apoio à política de Bush obscurecem a imagem de Israel. Temo que Sharon conduza os judeus - assim como Hitler conduziu os alemães- à raiz do mal.
Haáretz– Mesmo hoje, dez meses depois, o senhor não
considera que cometeu um erro ao fazer essa afirmação?
M. T. – Não, mas é importante enfatizar que eu nunca
disse que os judeus são a raiz do mal. Eu disse que estão na raiz do mal.
Haáretz – Então o senhor não está arrependido?
M. T. – Não. Recebi centenas e centenas de e-mails venenosos de judeus de todo o mundo. Não consegui entender este ódio em relação a mim.Combati o racismo toda a minha vida. Eu era a favor de Israel. Escrevi “Mauthausen”. Como poderia tornar-me de um dia para o outro um anti-semita?
Haáretz – Muitos judeus temem que esteja havendo um novo tipo de anti-semitismo na Europa. O senhor criou o sentimento de “até tu, Brutus”. O sentimento de que até o nosso velho amigo Theodorakis voltou-se contra nós.
M. T. – Penso que é artificial achar que há um novo anti-semitismo. É uma desculpa. É uma maneira de evitar autocrítica. Há uma reação contra a política de Sharon e de
Bush. Em vez de se perguntarem o que está errado com a política de Israel, os judeus dizem que “os europeus estão contra nós por causa do novo anti-semitismo. Porque eles não nos amam. E até Theodorakis diz que nós estamos na raiz do mal”. É uma reação doentia.
Haáretz - Por que doentia ?
M. T. – Eles querem sentir-se vítimas. Querem confortar-se com este sentimento. Nós estamos do lado certo, nós novamente somos vítimas. Vamos criar outro gueto. É uma reação masoquista.
Haáretz – Os judeus são masoquistas?
M. T. – Existe masoquismo psicológico na tradição judaica.
Haáretz – Existe sadismo também?
M. T. – Tenho certeza de que agora que estão tão perto da maior potência do mundo, os judeus da Diáspora pensam que ninguém pode fazer nada conosco. Nós podemos fazer o que queremos. Por isso a alegação de anti-semitismo é uma reação não só doentia como também hipócrita.
Haáretz – Hipócrita, como?
M. T. – Porque realmente permite aos judeus fazer tudo o que quiserem. Não só psicologicamente, mas também politicamente, dá aos judeus uma desculpa, o sentimento de serem vítimas. Dá-lhes uma licença para ocultar a verdade. Não existe um problema judeu na Europa. Não existe anti-semitismo.
Haáretz – Quando criança, antes do Holocausto, qual era a sua impressão dos judeus?
M. T. – Os judeus da Grécia eram inteiramente gregos. Amavam o seu trabalho e a sua família. Na escola, eram os melhores. Bons amigos, bons vizinhos. Sem problemas.
Haáretz - Mas devia haver também algo problemático. Eles eram o outro. Eles eram diferentes.
M. T. – Os judeus eram pitorescos. Lembro que, para as mulheres idosas, os judeus eram aqueles que crucificaram Cristo! Em 1932, havia em Ioanina uma comunidade judaica muito grande. Eu sempre brincava com os meninos judeus. Minha avó era muito religiosa, tinha um quarto cheio de ícones e cantava salmos. Muito da minha música foi influenciado pelos seus cantos religiosos. E lembro uma primavera em que ela me disse: “Agora que é Páscoa, não vá ao bairro judeu, porque durante a Páscoa os judeus colocam meninos cristãos num barril com facas dentro. Depois, bebem o sangue.
Haáretz – Esta história ficou gravada na sua mente?
M. T. – Era uma imagem muito poderosa. Anos mais tarde, antes de me tornar comunista, fui membro de um movimento de juventude fascista patrocinado pelo Estado durante a ditadura de Ioanis Metaxas. Subíamos e descíamos as ruas uniformizados e fazendo a saudação [fascista]. Mais ou menos como a Juventude Hitlerista, só que cômico. Um dia, me incumbiram de falar sobre comunismo. Perguntei à minha mãe o que era comunismo. Ela disse que não sabia, mas que devia ser algo “do mal”. “Que tipo de mal”, perguntei. “Mal como os judeus”, disse ela. Então perguntei se os comunistas também punham menininhos em barris com facas para beber o sangue deles. O que quero dizer com isso? Essas coisas existem. Eu não tinha consciência disso na época, mas agora, diante de suas perguntas, percebo que estão aí.
Haáretz – O senhor concorda comigo que para a Europa cristã o povo judeu não é apenas mais um povo, que os judeus têm um papel singular no teatro da mente européia?
M. T. – Sobre a Europa, não sei. Da Grécia, é diferente. Religião diferente, cultura diferente. Nós não temos dogmas religiosos. Não somos fanáticos.
Haáretz - O senhor considera os judeus fanáticos?
vM. T. – Algo que é muito negativo também pode ser positivo. Se os judeus não tivessem fanatismo, não existiriam. Não há mal sem o bem. Os judeus precisam deste fanatismo. O que chamaríamos de fanatismo tem mais a ver com autodefesa. Foi por meio de sua religião que os judeus se interligaram e se mantiveram juntos.
Haáretz – O senhor parece fascinado pelos judeus. Por quê?
M. T. – Uma comunidade que despreza todos os perigos e permanece fiel às suas origens, isso é um mistério. Na França, onde existe uma grande civilização, há uma enorme comunidade de judeus. Mas os judeus se tornam franceses? Não. Eles falam perfeitamente o francês. São bem-sucedidos no trabalho. Mas não são franceses. Eles sempre pensam em voltar para Jerusalém.
Haáretz – Na sua opinião, o que nos mantém a nós, judeus, unidos?
M. T. – É o sentimento de que vocês são filhos de Deus. De que vocês são eleitos.
Haáretz – O senhor acha que os judeus têm um sentimento de superioridade por causa dessa relação íntima com Deus?
M. T. – Existe este elemento também. Não em todos os judeus. Mas existe nos judeus religiosos.
Haáretz – Os judeus têm qualquer coisa de arrogante e agressivo?
M. T. – Sim.
Haáretz - O senhor vê no Israel de Sharon uma expressão desse elemento da psique judaica?
M. T. – Não, eu não diria isso. Mas esta questão da superioridade não é apenas uma sensação. Porque na batalha pela autodefesa, os judeus se destacaram. Duzentos judeus ganharam prêmios Nobel. Cristo, Marx e Einstein eram judeus. Os judeus ofereceram tanto para a ciência, as artes e a música. Eles têm nas mãos as finanças do mundo. É natural, portanto, que se considerem fortes. Isso lhes dá um sentimento de superioridade.
Haáretz – Os judeus têm as finanças internacionais nas mãos?
M. T. - Eles controlam grande parte das finanças do mundo.
Haáretz – Então, o capitalismo globalizado hoje é controlado pelos judeus?
M. T. – Já que estamos falando francamente, vou lhe dizer uma coisa. O povo judeu controla a maioria das grandes orquestras sinfônicas do mundo. Quando escrevi o hino nacional palestino, a Sinfônica de Boston, que é controlada por judeus, não autorizou o concerto. Desde então não posso trabalhar em nenhuma grande orquestra. As orquestras controladas por judeus boicotam o meu trabalho.
Haáretz - O senhor realmente tem a sensação de que os judeus controlam grande parte da música mundial?
M. T. – Sim.
Haáretz – E o mesmo se aplica às finanças do mundo?
M. T. – Nos Estados Unidos a comunidade judaica é muito forte, controla grande parte da economia. A mídia de massas, certamente. Permita-me esclarecer: quando o Estado de Israel foi estabelecido, nós ficamos do lado de Israel. Havia grande simpatia pelo sionismo por causa do que eles sofreram na guerra. Este é um lado dos judeus. Mas a comunidade judaica internacional também é um fenômeno negativo. O povo judeu agora parece controlar os grandes bancos. E, com freqüência, os governos. Assim, tudo o que vier de mau dos governos, é natural que as pessoas comuns associem com o povo judeu.
Haáretz – O senhor mesmo pensa que os judeus, a comunidade judaica internacional, controlam os bancos, Wall Street, os meios de comunicação de massas?
M. T. Sim.
Haáretz – E o senhor diz que agora, por meio de sua influência sobre Bush, controlam os assuntos mundiais?
M. T. – Sim.
Haáretz – Qual é a influência judaica sobre a política de Bush?
M. T. – Creio que a guerra no Iraque e a atitude agressiva em relação ao Irã são grandemente influenciadas pelos serviços secretos israelenses.
Haáretz – Os judeus têm tanto poder que podem dirigir a política da única superpotência mundial?
M. T. – Há um grupo de judeus que cerca Bush e controla a política dos Estados Unidos.
Haáretz - Então os judeus mexem os pauzinhos por trás de Bush?
M. T. – Não, eles estão à frente.
Haáretz – Os Estados Unidos, a grande superpotência, são de fato controlados hoje pelos judeus?
M. T. – Sim.
Haáretz – Quais são as intenções dos judeus que controlam o presidente Bush?
M. T. – A principal frente são os árabes. Eles acreditam que golpeando os árabes podem ajudar Israel a sobreviver. Eles dão uma solução militar ao problema do futuro de Israel.
Haáretz – Mas a atual política americana é uma reação ao 11 de Setembro. É uma resposta à ameaça de Bin Laden.
M. T. – Primeiro você tem que perguntar quem é Bin Laden. Aqui há coisas estranhas. No passado, ele trabalhou para os americanos. Mesmo quando aconteceu o 11 de Setembro, ele poderia estar trabalhando para os serviços secretos dos Estados Unidos. No 11 de Setembro foi utilizada tecnologia americana.
Haáretz – É possível que tenha sido uma provocação?
M. T. – Nos Estados Unidos há muitas forças, há superpatriotas. Penso que a participação de Bin Laden é suspeita.
Haáretz - O senhor está dizendo que houve algum tipo de conspiração americana?
M. T. – Não acredito que tenham sido esses homens descalços do Afeganistão. Isto é uma piada. Nem a tecnologia japonesa poderia fazê-lo. Nem mesmo a tecnologia alemã.
Haáretz – É possível que o Mossad tenha tido participação no 11 de Setembro?
M. T. – O Mossad tem a tecnologia. Mas mesmo eles não são uma superpotência. Os americanos controlam tudo.
Haáretz – Em diversas ocasiões, ao criticar a política de Israel, o senhor fez analogia com o nazismo. Israel erra na Margem Ocidental e em Gaza. Mas por que não compará-lo com os franceses na Argélia ou os holandeses na Indonésia. Parece uma incapacidade de aceitar os judeus como cinzas. Se não forem brancos, são o mais escuro preto. Se não forem vítimas, são assassinos.
M. T. - Até o Holocausto, o povo judeu era vítima. Um dia, eles disseram “não quero mais ser vítima, vou criar um Estado, vou mostrar que sou forte”. Após a Primeira Guerra Mundial, os alemães sentiam-se vítimas. Essa foi a semente de Hitler.
Haáretz – Os judeus de hoje são como os alemães dos anos 1920 e 1930?
M. T. – Também Hitler dizia não seremos vítimas nunca mais. Vamos nos armar e vamos à revanche. Veja no que deu. Isso poderia acontecer com Israel.
Haáretz – O senhor nos quer como carneiros. Até nos ama como carneiros. Mas não admite a idéia de que possamos usar a força como qualquer outra nação.
M. T. – Os judeus escaparam das garras dos lobos. Entraram em barcos e rumaram para a terra de seus ancestrais. Quem não estava com Israel então? Eu estava. Todos estávamos. Vocês tornaram verde uma terra árida. Criaram o kibutz, que é o único exemplo bem-sucedido de comunismo democrático. Criaram uma nação civilizada. E quando os vimos se defendendo, depois que metade de vocês ficou nas câmaras de gás, estivemos ao seu lado. Vocês eram Davi e nós os apoiamos. Mas isto mudou. Israel tornou-se uma superpotência. Tem armas nucleares. É muito forte. E quem vocês estão combatendo? Um milhão de mulheres e crianças e palestinos pobremente treinados. Portanto, agora vocês são Golias, a Palestina é Davi. E eu estou com Davi.
Haáretz – O senhor considera que os judeus se transformaram de vítimas do nazismo em novos nazistas.
M. T. - Foi um processo gradual. Os judeus se perturbaram profundamente com o fato de terem sido conduzidos às câmaras de gás pacificamente, quase como carneiros. Eles queriam mostrar que não são carneiros, que podem se tornar lobos. Acho que há aí um elemento de racismo. Vocês, israelenses, começam a pensar que são superiores aos árabes só porque têm poder financeiro, um exército forte e aliança com uma superpotência.
Haáretz – Do que o senhor não gosta em nós, judeus?
M. T. – O que eu não aceito no povo judeu é o que não aceito nos maçons. A loja maçônica é um grupo de pessoas que se ajudam mutuamente só porque são membros desta loja. O mesmo ocorre com os judeus, especialmente em áreas sensíveis como arte e música. Eu não aceito isto.
Haáretz – Como o senhor explica o medo que sua avó tinha dos judeus?
M. T. – Penso que se originou na religião, nos padres. Creio que a atitude dos gregos em relação aos judeus deve-se ao modo como os judeus se comportavam. Eles queriam ser diferentes, manter-se separados. É uma autodefesa. Mas esse fechamento e segredo são uma provocação. Eu tinha amigos judeus que vinham para a minha casa. Mas eu nunca fui convidado à casa deles. Então ficava imaginando por quê. O que acontecia lá dentro? Os judeus pagaram um preço alto por tentarem manter o seu judaísmo, a sua sociedade fechada.
Haáretz – Havia outras razões para a atitude especial em relação aos judeus?
M. T. – Sim. Quando um judeu progredia, provocava inveja. O entendimento era o de que ele se tornara rico não pelo talento, mas por ser judeu. E os judeus se ajudavam uns aos outros para progredir.
Haáretz – Mas o papel dos judeus na história de Jesus é problemático. Não é agradável.
M. T. – É muito estranho. Cristo era judeu. Mas o povo judeu é contra um judeu que todos os demais amam.
Haáretz – O mundo está como está porque os judeus não quiseram ouvir no momento certo. É difícil [de se entender].
M. T. – Sim, é difícil. Este é o drama do povo judeu neste mundo. Vocês são contra vocês mesmos. Não sei por que vocês são contra a mensagem de amor de Jesus.
Veja
aqui artigo de Paulo Geiger sobre a entrevista.
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* Publicado na edição de 27 de agosto. O título é nosso.
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