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EDITORIAL
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Boletim ASA nº 91, nov-dez/2004
Saliva
Profanações
Faz
Devo a Deus meu mandato. Por mim não estaria mais na política,
mas Deus estabelece um desígnio. A nossa confiança está
em Deus. Orem para que ele não vença a eleição.
Traremos juntos muitos benefícios à nossa cidade e à
Igreja.
Não, estas frases não foram coletadas em templos. Elas apareceram
em palanques, jornais e panfletos nas recentes eleições
municipais, e são um fiapo na avalanche confessional que soterrou
o debate político. Nunca o apelo à religião como
alternativa às ideologias foi tão explícito, e nesta
armadilha caíram esquerda e direita. Candidatos de todas as colorações
renderam-se ao beija-mão de líderes religiosos, violentando
a laicidade republicana e contribuindo para a confusão dos eleitores.
Afinal, o que estava em jogo? A religião ou as opções
para os problemas municipais?
Púlpitos foram transformados em lóbis a favor de candidatos
e focos de demonização de adversários das correntes
religiosas. A linguagem tornou-se virulenta – rotina quando se cruza fé
com opção ideológica – e Deus foi convocado como
cabo eleitoral. O resultado foi a tribalização do voto,
deixando de lado aspectos essenciais para o fortalecimento dos partidos
e, em conseqüência, da democracia.
Não é apenas a artimanha de certos religiosos que profana
o voto. Também o uso de paixões esportivas e bairristas,
“vantagens” etárias e supostas identidades grupais tapeiam os cidadãos.
O mandato dos vereadores é para servir ao povo e não a comunidades
religiosas, a clubes de futebol ou a jovens sarados. Certos autodenominados
candidatos da comunidade judaica do Rio (quem lhes deu o direito de proclamar
esta representação?) usaram e abusaram de expedientes que
viciam o processo político-eleitoral. Eis alguns deles:
1) A filiação partidária nunca passou de elemento
marginal no material publicitário. A opção por uma
sigla foi elemento menor para convencimento dos eleitores. Uma candidata
chegou a omitir o nome de seu partido no material distribuído aos
judeus, destacando apenas o número sob o qual concorria. O desapego
do vínculo partidário é falta de compromisso com
a construção de uma democracia forte.
2) A mesma candidata “esquecida” divulgou que, como vereadora, atuaria
“na defesa da nossa religião”. Um outro divulgou foto de seu bar-mitsvá
em folheto eleitoral, como se isso o tornasse mais apto para um mandato
legislativo. Novamente a religião usada fora de lugar. O privado
corrompendo o público.
3) Difundiu-se o persistente mito de que o “normal” é judeu votar
em judeu. Corolário: emergiram identidades até então
desconhecidas, caçando votos “comunitários”... Ninguém
trata de fornecer argumentos consistentes para defender essa idéia,
que está longe de ser óbvia.
Estas patologias debilitam o organismo democrático. A representação
política perde vigor e tende à caricatura. De que modo será
possível reverter esse quadro?
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