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ISRAEL - Boletim ASA nº 90, set-out/2004 O muro dos significados Mariana Mainenti / Especial para ASA Israel possui o maior número de jornalistas por habitante do mundo. Tão grande atenção da mídia é explicada pelo fato de que nenhum outro conflito apresenta hoje tantos desafios à cobertura como o que acontece entre israelenses e palestinos. Ao contrário de casos como as guerras contra o Afeganistão e o Iraque, em que se podem identificar os conceitos de "país invasor" e "país invadido", na disputa israelo-palestina estão envolvidas diferenças de significados que compõem um quadro muito mais complexo. "O que Israel vive hoje é uma guerra contra o terror", disse em entrevista a jornalistas latino-americanos o ministro da Diáspora e dos Assuntos de Jerusalém, Natan Sharansky. A mesma preocupação demonstra F.K., um palestino de 16 anos que trabalha em um café de Ramala. "Eu não gosto do terrorismo", diz ele. Mas o jovem estava se referindo a algo diferente. "Os soldados israelenses têm de parar com o terrorismo contra o povo palestino", acrescenta. Estes antagonismos levaram os meios de comunicação a estabelecerem regras para o uso da palavra. "Um ataque suicida contra soldados não é terrorismo, porque estamos numa guerra. Mas contra civis é", diz o diretor da agência de notícias espanhola EFE, em Israel, Elias Benarroch. A BBC de Londres foi mais longe. "Nós fomos proibidos de usar a palavra terrorista", diz a israelense Jana Beris, correspondente da emissora londrina. Para prevenir os ataques suicidas, o governo israelense construiu um muro, separando fisicamente os dois povos. Mas, enquanto Israel o denomina "cerca de segurança", a Autoridade Palestina o chama de "muro de segregação". Outro instrumento de combate ao "terrorismo" são os "assassinatos seletivos" contra chefes de organizações armadas. "Mas os meios de comunicação em Israel chamam a estes atos apenas 'assassinatos'", explica o jornalista israelense Efraim Davidi. Para o governo de Israel, são "ações de autodefesa" - uma concepção incorporada desde muito cedo às mentalidades de ambos os povos. "Quero participar de operações de combate porque sinto que tenho de defender o meu povo", disse em uma rua de Netânia uma israelense de 20 anos que está servindo o Exército de seu país. Consultado sobre o que pensa dos homens-bomba, um palestino de 14 anos que vive no campo de refugiados de Kalandya, na entrada de Ramala, diz que é agradecido a eles. "Porque defendem o nosso povo e a nossa terra", explica. Diante da pergunta de se poderia converter-se em homem-bomba quando crescer, ele responde sem dúvidas: "Sim". Por trás de tão distintos significados para as mesmas expressões, estão visões cada vez mais polarizadas do conflito. A lógica que predomina no caso israelo-palestino é a de que "se você não está a meu favor, é porque está contra mim". Neste contexto, qualquer cobertura que a mídia faça, por mais isenta que se proponha a ser, continuará sendo vista com ressalvas. O diretor do Departamento de Imprensa do governo de Israel, Daniel Seaman, diz que há uma "guerra da informação" entre israelenses e palestinos. "E nós consideramos que estamos perdendo esta guerra", afirma. Por outro lado, a assessora de imprensa da Autoridade Palestina, Nida Younis, afirma que os jornalistas também contribuíram para construir consensos na opinião pública contra a AP. "Na tentativa de acordo de Camp David, os israelenses montaram um circo de mídia que estava só esperando o presidente Iasser Arafat assinar o acordo e, como ele não assinou, saímos como os vilões", diz ela. Apesar de ter a figura do censor militar presente em cada veículo - para que não sejam publicadas notícias e imagens consideradas perigosas para o "interesse estratégico" do Exército - e de não haver censura oficial na Autoridade Palestina, a mídia israelense é mundialmente vista como crítica, o que muitas vezes lhe rende antipatias internas. "A imprensa estrangeira é mais profunda. A israelense é esquerdista, apóia os palestinos", diz o porta-voz do Conselho de Colonos de Judéia, Samaria e Gaza, Iehoshua Mor-Gossef. Mas há quem acuse a imprensa estrangeira de ser tendenciosa também - especialmente, a norte-americana, de ser pró-israelense, e a européia, pró-palestina. No noticiário de Oriente Médio, os meios de comunicação no Brasil são pautados pelas agências de notícia internacionais e a imprensa israelense. E, assim como toda a mídia no mundo, são acusados por ambos os lados de ser pró-inimigo. Isto porque se há atentado contra judeus, é noticiado com destaque; mas se há incursão do Exército israelense em Gaza, também. Em tão delicado conflito, o princípio que norteia a cobertura é o de que não se pode brigar com os fatos. E este continuará sendo o mote do noticiário até que israelenses e palestinos cheguem a um mesmo significado para a palavra paz. * Mariana Mainenti é repórter do Correio Braziliense e viajou em junho para Israel, a convite do Ministério das Relações Exteriores israelense, para fazer o curso "Meios de Comunicação em Áreas de Conflito". A jornalista também já trabalhou nos jornais O Globo e Gazeta Mercantil.
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