EDITORIAL - Boletim ASA nº 90, set-out/2004

Nossa voz

Em agosto de 1989, um grupo de diretores e simpatizantes da ASA lançou a primeira edição do Boletim ASA. Em escala bastante modesta e com alcance limitado, nascia ali o embrião do que hoje pode ser considerado o principal porta-voz do judaísmo progressista em nosso país.

Em quinze anos, ganhamos musculatura. Artigos publicados em ASA já foram referência em inúmeros trabalhos acadêmicos. A série de crônicas de Abraham Josef Schneider transformou-se em livro (Histórias da BIBSA), citado com freqüência em textos sobre a história dos judeus no Rio de Janeiro. Alcançamos cerca de 2 mil endereços, alguns fora do Brasil. A periodicidade, bimestral, jamais foi quebrada. As equipes de colaboradores sempre tiveram forte presença das gerações mais jovens.

Orgulhamo-nos de manter aberta a porta para dialogar com outras correntes judaicas. O espaço exclusivo da instituição é o editorial. Fora dele, articulistas sustentaram muitas vezes posições antagônicas às da ASA. Os textos nunca sofreram censura. Este fato parece incomodar gente que não sabe conviver com idéias diferentes (ver a seção Cartas desta edição). Joseph Göebells, o todo-poderoso ministro da Propaganda do Terceiro Reich, costumava dizer que uma mentira repetida seguidamente transforma-se em verdade. Os difamadores são assim: criam mantras fantasiosos, pescam ingênuos em águas turvas.

Há grandes desafios e dificuldades pela frente. A comunicação com os leitores ainda é insuficiente. Sabemos de muita gente que comenta os artigos de ASA mas não transforma o comentário em carta à redação. Nem sempre conseguimos articulistas que desenvolvam os temas que nos interessam. 

Com a sensibilidade e o apoio material das diretorias da ASA, o Boletim pretende manter uma linha aberturista, lançando à reflexão e ao debate as grandes questões que interessam aos judeus e à sociedade em geral. De preferência, e parodiando Lennon e McCartney, com uma ajudinha dos nossos amigos.

Saliva desastrosa

A recente exortação de Ariel Sharon para que os judeus franceses emigrassem imediatamente para Israel provocou um grande mal-estar na comunidade judaica francesa, cujas principais lideranças fizeram questão de assinalar sua desaprovação a esse catastrofismo irresponsável.

Sharon também relacionou mecanicamente os incidentes anti-semitas na França com a população muçulmana local. Demonizou, nesta cruzada apocalíptica, toda uma comunidade, repetindo o clichê racista que fascina a direita européia e chancelando a farsa da "guerra de civilizações". A melhor resposta veio da Liga Internacional Contra o Racismo e o Anti-Semitismo, que lembrou que "é indecente considerar o conjunto dos nossos compatriotas muçulmanos como sendo coletivamente responsáveis pelos atos de agressão anti-semitas praticados por imbecis que nos desonram".

Faz tempo que a imigração para Israel deixou de ser ideológica. Em cenário de normalidade institucional, os judeus de todo o mundo optam ou não por morar em Israel levados por critérios como mercado de trabalho, segurança, qualidade de vida. É residual o movimento migratório motivado por religião e/ou identidade nacional. Tonificar a idéia sionista hoje ultrapassa o terreno ideológico e passa a depender de ameaças físicas ao povo judeu. Aí entra o discurso sharoniano, que enxerga no crescimento de incidentes anti-semitas a ante-sala de uma nova Noite dos Cristais. Injeta tensão, colhe imigrantes apavorados e apoio material/político para a usurpação contínua de território palestino.

Ao agitar levianamente o fantasma do Holocausto, Sharon tenta forjar apoio unitário e irrestrito a Israel. Afinal, se os judeus estão ameaçados e o oásis é Israel, é necessário cerrar fileiras em torno do governo de plantão. Criticar equivale, neste contexto, a traição. É uma mentalidade espartana, antidemocrática, com discípulos em muitos ishuvim.

O cineasta francês Claude Lanzmann foge deste modelito. Mesmo reconhecendo que o anti-semitismo tem crescido em seu país e precisa ser combatido, não capitula aos apelos paranóides. Começou a visitar escolas nos subúrbios de Paris, exibindo seu documentário Shoah, debatendo com os estudantes e mostrando um pouco da alma judaica. A primeira visita foi na área de St. Dennis, maciçamente habitada por imigrantes norte-africanos e com elevados níveis de criminalidade. Diz Lanzmann: "Expliquei que o filme não era sobre sobrevivência ou sobreviventes, mas sobre morte e mortos. Sobre extermínio de pessoas com gás. Houve um silêncio paralisante e, após a exibição, os estudantes fizeram perguntas inteligentes."

Nada de provocações baratas, desrespeito. Uma ponte foi criada e esta é a grande dica: mergulhar no problema, construir alianças estratégicas com forças sociais que buscam uma sociedade mais equilibrada e tolerante, aprofundar o sentimento democrático para, a partir daí, isolar as discriminações. A tarefa é árdua, mas traz resultados muito mais duradouros do que fazer as malas e abandonar o barco.

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