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YAEL DAYAN NO RIO - Boletim ASA nº 89, jul-ago/2004 "Deixamos
de ser vítimas" "Minha ambição é que Israel seja um Estado melhor, e para isso é necessário que assine a paz entre iguais", afirmou a vice-prefeita de Tel Aviv/Iafo, Yael Dayan, em palestra para cerca de quatrocentas pessoas no Colégio Brasileiro de Cirurgiões, no domingo dia 20 de junho. Ela veio ao Rio sob o patrocínio conjunto da ASA, da Congregação Judaica do Brasil, do Hashomer Hatzair e dos Amigos Brasileiros do Paz Agora. Antes, participou do congresso internacional de cidades Urbis/2004, em São Paulo, onde deu quatro palestras, dentro e fora da comunidade judaica. Chegou acompanhada de Moisés Storch, dos Amigos Brasileiros do Paz Agora. Yael, que deixou o Méretz para fundar o novo partido social-democrata de Israel, o Iahad, é expoente do campo israelense da paz e militante nas lutas pelos direitos das mulheres e das minorias. Nas 24 horas em que permaneceu no Rio, cidade que a deslumbra mesmo já tendo estado aqui outras vezes, a ex-membro da Knesset gravou depoimento para um documentário que está sendo preparado pelo cineasta Sílvio Tendler. Ainda encontrou tempo para procurar na Feira de Artesanato de Ipanema lembranças para a neta de três anos (que na creche, de propriedade de uma brasileira, aprendeu a cantar "Comer comer, comer comer, é o melhor para poder crescer", na hora da refeição). Antes da palestra, o Coral da ASA deu boas-vindas à visitante interpretando Heveinu Shalom Aleihem e Ossé Shalom, e o representante do Hashomer, Michel Schoor, ofereceu um buquê de flores. O rabino Nilton Bonder fez uma intervenção no encerramento do programa, que foi mediado pelo diretor da ASA Jacques Gruman e teve tradução consecutiva de Érica Saubermann. Com respostas afiadas e grande poder de síntese, Yael Dayan dedicou a maior parte do tempo às perguntas da platéia, que abrangeram o retorno dos refugiados, o estado da economia, o interlocutor do lado palestino e o terror, entre outros temas. A seguir, os principais pontos de sua exposição. Não se encontrará ninguém em Israel, de direita ou de esquerda, homem, mulher ou criança, que diga que não deseja a paz. A única solução possível - dois estados, Israel e Palestina, lado a lado, em coexistência pacífica - será resultado da retirada de todas as colônias e do retorno às fronteiras de 1967. O governo afirma, com freqüência, que é preciso primeiro parar o terror e criar confiança mútua e só depois começar as conversações. Após 37 anos de ocupação, não podemos construir nada, a menos que o façamos unilateralmente. O resto será resultado da paz e não pré-condição para a paz. O terror cessará como resultado da paz e não como pré-condição. Cessará não por causa de um muro ou de uma cerca, mas quando cooperarmos com os palestinos para anular a motivação do terror. Não podemos construir confiança quando o cotidiano sob a ocupação é a privação de cada direito humano, quando a população israelense é motivada pelo medo do terror e a população palestina vive em total desesperança. O ódio que se ensina às crianças palestinas também é incutido nas crianças israelenses por meio de generalizações do tipo 'eles são todos terroristas`. Portanto, educar para a coexistência também será resultado e não pré-condição. Israel é forte o suficiente para ser generoso com um povo que vive do nosso lado e que não possui nada do que nós possuímos. Militarmente, nunca fomos tão fortes quanto somos hoje. Ainda assim, e mesmo tendo capacidade de usar armas nucleares, não podemos enfrentar crianças que atiram pedras nem negar o direito de que tenham a sua pátria. O perigo que Israel enfrenta diz respeito não à sobrevivência, mas à qualidade de vida e à qualidade de nossos valores. Nós temos uma memória coletiva de grandes tragédias, mas não é possível usá-la como álibi para o que fazemos ou deixamos de fazer hoje só porque em outras épocas fomos vítimas. Devemos nos rejubilar porque deixamos de ser vítimas. Três semanas atrás, 250 mil pessoas reuniram-se na Praça Itzhak Rabin, em Tel Aviv, para dizer sim à desocupação e às negociações diretas com os palestinos, sim ao plano do primeiro ministro Ariel Sharon de se retirar da Faixa de Gaza. O terror não merece explicação nem desculpa. Mas lembremo-nos todos os dias do que dizia Rabin: devemos combater o terror como se não houvesse paz e continuar o processo de paz como se não houvesse terror. Temer a paz por temor aos atentados suicidas significará que eles venceram. Com a aprovação dos governos, muitos colonos foram viver em terras que não são nossas. Será traumático retirá-los e vê-los voltando para casa. Mas eles receberão indenização e novas casas para que os palestinos possam construir a sua própria entidade. Também não seremos reféns dos colonos extremistas que falam em guerra civil e fazem ameaças de sangue contra os nossos soldados, nossos filhos, em caso de retirada. Hoje, não somos or lagoím, luz para os povos, como deveríamos; quase nem somos luz para nós mesmos, mas vamos retomar a nossa missão de difundir bons valores, sociais e humanos, juntamente com nossos vizinhos, em coexistência pacífica.
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