EDITORIAL - Boletim ASA nº 89, jul-ago/2004

Fantasmas

Dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade que a verdade é vista sempre conforme nossos caprichos, ilusões e miopias. A imagem que formamos do mundo, das pessoas e instituições é, muitas vezes, filtrada por opiniões e informações com data de validade vencida.

Recentemente, num debate em instituição da nossa comunidade, o presidente da ASA, Horácio Schechter, foi alvejado por um velho rótulo. Alguém da platéia disse ter ouvido falar que a ASA é reduto dos comunistas, dos roite. O tom era óbvio: vocês são sectários, uns ETs dentro da comunidade, não raro resvalam para o antijudaísmo.

Examinemos o assunto de perto, à luz não de preconceitos mas da história concreta. Antes de mais nada, é importante reconhecer aí um dos fantasmas herdados da ditadura militar. A pluralidade de posições políticas, vital para a democracia mas execrada por todos os ditadores, é usada como acusação. Ninguém, da esquerda à direita, precisa se defender por ter uma ideologia, uma visão social, uma estratégia de conservação ou transformação da sociedade. Ninguém está mais bem qualificado, a priori, no campo das idéias.

Durante muitos anos, a hegemonia política dentro da esquerda foi dos partidos comunistas. Natural, portanto, que os judeus revolucionários tivessem forte influência doutrinária desta corrente. Valorosos ativistas dedicaram suas vidas à causa do proletariado, vibrando e sofrendo com as oscilações da História. Trouxeram o ímpeto mudancista para dentro das entidades judaicas progressistas e lá contribuíram para o debate, que está longe de acabar, sobre a relação entre as identidades judaica e política.

As revelações, em 1956, sobre os crimes stalinistas e a posterior crise do socialismo real mudaram profundamente a situação. O neoliberalismo triunfante criou a ilusão de que a História terminou, que os sonhos revolucionários foram arquivados de vez. As idéias progressistas entraram em recesso temporário e estão fecundando em terreno fértil, já que a injustiça, a violência e a miséria nunca foram tão globalizadas. Muitos assimilaram a crise como naufrágio e abandonaram definitivamente o barco. Do campo revolucionário transitaram para o reformismo e lá estão muito à vontade. 

A ASA acompanha de perto esta conjuntura. Está muito longe da imagem bizarra de covil de ranzinzas e judeus exóticos. Refletindo os matizes do progressismo, abriga em sua diretoria ativistas com posições diferenciadas. Sem a rigidez de outras épocas, mantém, por exemplo, a base laica de sua identidade. Costura unidade com pessoas e instituições em torno de objetivos consensuais. Foi o caso do importante debate com a líder pacifista israelense Yael Dayan, dona de um discurso aglutinador, respeitoso com as diferenças e pouco ouvido dentro da nossa comunidade.

Não somos apenas uma referência longínqua ou um apêndice inerte do passado. Temos memória, mas não somos prisioneiros dela. A ASA é um organismo em construção e nenhum clichê mofado será capaz de interpretá-la.

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