Homossexualidade - Boletim ASA nº 88, mai-jun/2004

“Queremos ter a nossa existência reconhecida”

ENTREVISTA / ARI TEPERMAN

            Ari Teperman nem sempre é recebido com cortesia em meios comunitários. Agora em maio, porém, esse paulista de 42 anos, analista de comunicação sênior e analista de sistemas, tem programada uma palestra na Congregação Judaica do Brasil, na Barra da Tijuca. O assunto é algo que o mobiliza desde no mínimo 1999, ano em que fundou o Grupo de Judeus Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transgêneros e Simpatizantes Brasileiros. Segundo ele, dos 320 membros do grupo, 70% são homens e 30%, mulheres. Sessenta por cento vivem na cidade de São Paulo, 35% no Rio de Janeiro e 5% em Porto Alegre e Curitiba. O grupo debate, entre outros, temas como direitos humanos, cidadania, união civil, judaísmo, sionismo e homossexualidade x religião.

            Ari estudou no I.L.Peretz e durante dez anos seguiu a linha ortodoxa. Hoje, é voluntário de uma instituição judaica que fornece alimentos a pessoas carentes. De São Paulo, por e-mail, ele respondeu as seguintes perguntas do Boletim:

ASA – Em quê o grupo difere de organizações do movimento gay atuantes na sociedade maior?

Ari -  O Grupo JGBR foi o primeiro  que se preocupou com a questão da identidade religiosa interligada com a identidade sexual, além de ser pioneiro em reunir todos os gêneros sexuais e de integrar uma organização estrangeira de apoio a homossexuais judeus. Apesar de não existirmos perante a lei, temos nossa organização administrativa. No momento não somos um grupo político. Procuramos fazer com que a comunidade judaica reconheça a nossa existência, quebre o silêncio sobre o assunto e nos permita participar da vida comunitária. Estamos numa situação mais primitiva que os outros gays, pois a comunidade judaica no Brasil se dá ao luxo  de propagar  que não existem judeus gays.

ASAUma pesquisa recentemente realizada pela Unesco com cerca de 16 mil jovens entre 10 e 24 anos em 14 capitais brasileiras concluiu que 27% não gostariam de ter um colega homossexual. A mesma carga de preconceito também pode ser sentida na comunidade judaica?

Ari – Sim, e com muito mais intensidade. O preconceito nessa faixa etária entre os judeus é muito forte. Fui expulso de um grupo virtual de jovens do Bnei Akiva do Rio de Janeiro quando minha homossexualidade foi descoberta. Além de expulso, fui humilhado publicamente na virtualidade. E isso é proibido pela Torá.

ASAQuais são as principais reivindicações, vitórias e fracassos do grupo?

Ari – A nossa primeira reivindicação é termos nossa existência reconhecida pela comunidade judaica para que possamos ocupar e partilhar nosso lugar dentro dela. Entre as vitórias cito nosso site (www.jgbr.com.br), que transmite conhecimento e representa alento a  gays não só judeus como de outros credos, além de ser um canal com os familiares dos judeus gays. Somos filiados ao World Congress of Gay, Lesbian, Bissexual and Transgender Jews: Keshet Ga’avah (http://www.glbtjews.org/) e estamos negociando nossa filiação à Federação Israelita do Estado de São Paulo-Fisesp. Estamos trazendo de volta para o judaísmo judeus que se sentiam excluídos. Conseguimos um espaço dentro de grupos universitários judaicos e mantemos um diálogo que permitiu a troca de conhecimentos. Somos colunistas em três portais judaicos. Estamos, aos poucos,  abrindo espaços dentro de algumas sinagogas. Em maio daremos uma palestra em uma sinagoga do Rio de Janeiro. Fomos convidados, em virtude da nossa experiência positiva, a dar uma palestra no congresso de judeus gays de todo o mundo que se realizará em junho, no México. O grupo possui um telefone para prestar auxílio moral a gays judeus e de outros credos e formou uma parceria com um Grupo de Mães de Homossexuais, o que é inédito no Brasil. Já desenvolvemos trabalho voluntário de forma não identificada em algumas instituições judaicas. Estamos fazendo com que a comunidade judaica perceba os seus próprios preconceitos, pois dentro dela existem outros grupos de excluídos, além dos homossexuais, como pobres, idosos, deficientes físicos e mentais, drogados, alcoólatras etc. Não há propriamente fracassos, e sim fatos causados por inexperiência, já que somos pioneiros. Pelo que sabemos, somos o primeiro grupo de judeus gays, organizados administrativamente e com identidade reconhecida, na história do povo judeu no Brasil.

ASA – Como o grupo vê a batalha pela legalização do casamento entre homossexuais no mundo?

Ari – Vemos de uma forma muito positiva, já que a união civil abrirá portas para conquistas de outros direitos. Esperamos que em breve no Brasil também seja legalizado.


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