EDITORIAL - Boletim ASA nº 88, mai-jul/2004

Ladeira abaixo

            A desastrada “guerra contra o terror” levada a cabo pela administração Bush trouxe, desde o início, graves conseqüências para os direitos civis dentro dos Estados Unidos. Em nome da segurança nacional, as autoridades policiais podem prender suspeitos por tempo indeterminado, sem que estes tenham acesso a advogados. Suspeitos de terrorismo são apontados sem qualquer base consistente. A situação dos presos isolados na base de Guantánamo tem sido denunciada em vários foros internacionais, com nenhuma conseqüência prática.

            Bush agora avaliza a ocupação de terras palestinas pelos assentamentos da Cisjordânia, defendida, desde sempre, por Sharon.  Juntos, escarnecem da Corte Internacional de Haia e das resoluções da ONU.

            Há quase 37 anos Israel ocupa militarmente territórios onde vivem 3 milhões e 500 mil palestinos, gerando valores peculiares, que dilaceram a sociedade israelense. Intolerância crescente com a população árabe, sedução pela lógica militar e desrespeito a normas, convenções e instituições  internacionais viraram rotina. O que diriam os pioneiros sionistas, que imaginavam construir um estado democrático, diante de uma tal degradação moral e ética?

            A construção de um muro nas proximidades da fronteira com a Cisjordânia é mais um passo ladeira abaixo. Sob o onipresente pretexto da segurança, os buldôzeres do governo israelense promovem a destruição de poços artesianos e estufas essenciais para a agricultura palestina e arrancam dezenas de milhares de oliveiras de terras onde são cultivadas há séculos. Além disso, o muro invade terras palestinas, desrespeitando todas as resoluções internacionais a respeito.

Conforme acentuou a jornalista Amira Hass, do Haaretz, não é preciso ser um gênio para prever as conseqüências catastróficas  do muro  sobre os habitantes dos 81 enclaves que surgirão de seu traçado: famílias e povoados inteiros separados por cercas duplas de arame farpado, torres de vigilância e paredes de concreto, o direito de ir e vir submetido a critérios burocráticos e ao arbítrio de soldados. Os simples atos de ir à escola, visitar um amigo ou ser atendido numa emergência médica passam a ser expedições rumo ao desconhecido, onde a sorte não é elemento menor.

            O movimento de pacífica resistência civil dos aldeões palestinos é ignorado na imprensa, a qual continuamente associa a  imagem deles à de terroristas.  Ainda assim, parte substancial do establishment judaico se queixa de que o noticiário internacional é parcial e contrário a Israel.

            Há ainda outros muros. O do racismo, por exemplo. Zeev Boim, vice-ministro da Defesa, declarou que os palestinos devem ter um “defeito genético” que os leva ao terrorismo - uma bofetada no povo judeu, que também já foi atacado por ter uma “genética deficiente”. O segregacionismo é outro obstáculo. Pesquisa recente indicou que 32% dos israelenses negariam aos árabes, se pudessem, o direito de votar. A maioria apóia a transferência e o estímulo à emigração dos cidadãos árabes israelenses.

            A continuidade da ocupação e a construção do muro  corroem a nossa herança humanista, expõem ao inexplicável as comunidades judaicas de todo o mundo e abastecem o anti-semitismo.

 

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