Preconceito - Boletim ASA nº 87, mar-abr/2004

Racismo, a doença infantil do fascismo!

Nei Sroulevich / Especial para ASA

No tempo em que eu participava do Movimento Estudantil, dois Betinhos se sobressaíam: um branco e outro, negro. O branco era o Herbert José de Souza, mineiro, da Juventude Católica, posteriormente Ação Popular. O negro era o baiano apoiado pela Juventude Comunista, que, mais tarde, exatamente para que não os confundissem, passou a ser chamado de Caó, as iniciais de seu nome, Carlos Alberto de Oliveira.

O Movimento Estudantil daqueles tempos era bem diferente do que é hoje. Verdade que os estudantes universitários na década de 1960 não passavam de cem mil; hoje são, parece, mais de três milhões! Todos que fizeram parte daquele movimento ficaram marcados como pessoas íntegras e participativas da vida nacional. Hoje, alguns são ministros no Supremo e nos demais órgãos da nossa Justiça, e no Executivo, outros são senadores e deputados. Betinho trouxe o problema da fome, adotado como bandeira pelo Lula. E Caó, o da discriminação racial, transformando-a em crime inafiançável e imprescritível. Assim é a nossa lei.

Caó, mesmo como deputado federal, sempre foi um homem simples. Jornalista brilhante de hábitos comuns, se não fosse tão conhecido, passaria - pelo belo cavanhaque e o 1,85 m de altura - por professor convidado de uma universidade inglesa em férias no Rio de Janeiro. O mesmo em relação a um outro negro, lamentavelmente já falecido, o extraordinário geógrafo Milton Santos: quando viajava de avião, aqui dentro do país, as aeromoças se dirigiam a ele em... inglês! 

A novela das oito, Celebridade, nos leva a uma reflexão que seria conveniente aprofundar. Quantos de nós acham repugnantes os beijos e transas entre Laura, a formidável atriz Claudia Abreu, e Bruno? Por outro lado, como se trata de uma mulher branca sem-vergonha, que adora ser chamada de cachorrinha e é uma tremenda 171, pode transar até com um negro, por que não? Bruno é o excelente ator Sergio Menezes.

Quem não gostaria de estar com eles numa foto? Afinal, a nossa sociedade batalha, também, por uma "notinha" na coluna do Boechat e do Ancelmo. Tê-los entre os convidados dá prestígio, mesmo se a "cachorrinha" não estiver "latindo" na área! Somente a presença de Bruno já seria um grande destaque em qualquer festa. Inda mais porque seria o único negro entre os convidados presentes, além, evidentemente, dos "serviçais".

Curioso, assisto à TV Justiça e vejo o ministro Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto, nomeado por Lula, lendo o seu voto pelo hábeas corpus do editor nazista Siegfried Ellwanger - aquele gaúcho, lembram? -, que estava sendo julgado no Supremo, há meses. O Supremo, na ocasião, estava julgando não o nazista, mas o racismo no Brasil, tenham certeza.

Entre os onze ministros da mais alta Corte de Justiça do nosso país, Moreira Alves, o último remanescente dos ministros nomeados pela ditadura militar e que tinha uma simpatia explícita, por sua declaração de voto, pelo extremismo da direita, foi favorável ao hábeas corpus antes de ir, aposentado, para casa. Então, apareceu no Supremo, sem nenhuma desfaçatez, defendendo os mesmos princípios, o jurista sergipano Carlos Britto, recém-nomeado pelo Lula. É muito triste e lamentável que tenhamos o Supremo, que deveria ser o órgão da Consciência Nacional, infiltrado por pensamentos alheios à formação democrática do nosso povo. 

Penso em Dayane dos Santos, a estrela negra da nossa ginástica olímpica. Já imaginaram o que a menina padeceu para chegar aonde chegou, num esporte de elite de escandinavos? O patrocinador de Dayane era uma distribuidora de pizzas de Porto Alegre, que lhe dava 200 reais por mês para ser fotografada (pizza na mão) com a camisa da empresa. Uma negra de 1.45 m! Já imaginaram se, além de negra, fosse também uma descendente da rainha de Sabá? Só Sammy Davis Jr conseguiu ser ao mesmo tempo negro e judeu e ter um olho de vidro!

Martin Luther King, Kofi Annan, Ângela Davis, Jessy Jackson e tantos outros negros são exemplos que, juntamente com os judeus Jesus Cristo, Karl Marx, Sigmund Freud e Albert Einstein, tentaram e tentam mudar o mundo e fazê-lo melhor!

Em um artigo recente no Globo, Ali Kamel, diretor dos telejornais da TV Globo, afirmava, com sua generosidade muçulmana, que no Brasil não existe discriminação racial como em outros países. Descrevia uma série de razões por que chegara àquela conclusão. No entanto, com o nome Ali, certamente o chamavam de turquinho, nos tempos da escola. O brasileiro Ali Kamel se chama Ali Ahamad Kamel Ali Harfouche. Eu, que tenho "apenas" o nome Sroulevich e sempre fui considerado "um judeu diferente", penso no Caó, o "preto de alma branca". Kamel, quando viaja para o exterior, cai na "malha fina" da discriminação. E se fosse muçulmano negro? Bem, aí já estaria em Guantánamo.


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* Nei Sroulevich é jornalista e produtor cultural.

 

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