Intolerância - Boletim ASA nº 87, mar-abr/2004

O tal do anti-semitismo

Jacques Gruman / Especial para ASA

Os cerca de 400 delegados presentes ao encontro que celebrou em Nova Iorque o nonagésimo aniversário da Liga Anti-Difamação da B`nai B`rith, em fins de 2003, ouviram de Abraham Foxman, presidente da instituição, um alerta de extrema gravidade. Segundo ele, as ameaças à segurança do povo judeu são hoje "tão grandes - se não maiores - quanto as dos anos 30." Assustou uma platéia composta, em sua maioria, por pessoas idosas, que viveram os horrores do nazismo.

Foxman não está sozinho nesta análise. Vários livros têm surgido, especialmente nos Estados Unidos, apontando a vigência de uma espécie de guerra contra os judeus. Phyllis Chesler, por exemplo, escreve em The New Anti-Semitism (citado por Brian Klug no artigo "The Myth of the New Anti-Semitism", The Nation, 02/02/04): "Serei clara: a guerra contra os judeus está sendo travada em muitas frentes - militar, política, econômica, propagandística - e em todos os continentes." Estende esta ameaça para toda a civilização ocidental. Avi Becker, secretário geral do Congresso Judaico Mundial, já dissera, em 2002: "Estamos vivendo os piores momentos de anti-semitismo na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial."

Também no Brasil repercutem as advertências. Em carta recentemente enviada ao jornal O Pasquim 21, o presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, Osias Wurman, refere-se a uma "onda de anti-semitismo que temos presenciado em todo o mundo."

Há, realmente, uma ressurgência generalizada do ódio anti-semita? Em caso positivo, que circunstâncias teriam levado a isso? Em caso negativo, por que estaria semeada esta impressão em muitos formadores de opinião? 

Antes de mergulhar nos temas, um esclarecimento. O anti-semitismo é velho conhecido dos judeus e tem demonstrado enorme resistência ao longo da História. Camaleônico, vestiu roupagens diferentes e mesmo antagônicas. Seria tolice ignorar ou escamotear estas evidências. É um inimigo ardiloso, que precisa ser enfrentado, no mínimo, com inteligência política, persistência pedagógica e conhecimento histórico. Neste artigo, entretanto, não se trata de reconhecer ou rejeitar a existência do anti-semitismo, o que seria uma discussão surrealista. Ele será focalizado como fenômeno social, com raízes localizáveis, e não como uma fatalidade genética. Veremos, com base em pesquisas e análises de diversas fontes, se está em curso um surto agudo de perseguição aos judeus, diferente e/ou mais intenso dos que aconteceram em outros períodos.

O documento mais completo que já se produziu sobre o assunto veio à luz em março de 2003 ("Manifestations of Anti-Semitism in the European Union", Viena). Foi uma extensa pesquisa conduzida pelo Centro Europeu de Monitoração do Racismo e da Xenofobia em quinze países, recolhendo dados referentes ao primeiro semestre de 2002. As principais conclusões foram as seguintes:

1. Desde a eclosão da chamada Intifada de al-Aksa, em outubro de 2000, houve um incremento acentuado de incidentes anti-semitas em alguns países europeus. Eles se intensificaram na esteira dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, após os quais espalhou-se também uma histeria antiislâmica. Os pesquisadores ressaltaram a pouca credibilidade estatística de muitas fontes de informação, na medida em que, por exemplo, muitos casos de críticas legítimas e respeitosas às políticas dos governos israelenses acabavam rotuladas como anti-semitismo. Também não há, entre os países pesquisados, uma definição homogênea de anti-semitismo, o que dificulta uma análise criteriosa dos dados levantados.

2. É historicamente impróprio considerar a recente escalada de incidentes anti-semitas como a pior desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Anthony Lerman, ex-diretor executivo do Institute for Jewish Policy Research, de Londres, pondera que "é um erro pensar que um aumento de incidentes implica necessariamente numa piora geral do clima de anti-semitismo". Os pesquisadores alertam que se, além do número de incidentes, outros indicadores forem considerados, como atitudes antijudaicas, sucesso eleitoral de grupos de extrema-direita, discriminação social e legal dos judeus etc., o resultado não indica um aumento geral do anti-semitismo e, além disso, mostra claras diferenças entre países pesquisados.

3. O clímax dos incidentes aconteceu entre o fim de março e meados de maio de 2002, paralelo a uma violenta escalada no conflito palestino-israelense. Nos meses posteriores, com poucas exceções, houve um declínio acentuado, aproximando-se dos índices médios observados nos países europeus em outros períodos.

4. Na França, Bélgica, Holanda e Inglaterra os ataques contra judeus e instituições judaicas foram mais graves. Alemanha, Espanha, Áustria, Itália, Grécia, Dinamarca, Suécia, Portugal, Irlanda, Luxemburgo e Finlândia registraram números muito menores. Não existiu, portanto, uma onda, no sentido do encadeamento crescente e contagioso de eventos.

5. Poucas vezes os agressores são identificados. Quando isso ocorreu com algum grau de exatidão, verificou-se que as agressões foram cometidas por militantes da extrema-direita e muçulmanos radicais, a maioria de origem árabe, que, ironicamente, são vítimas potenciais da nunca eliminada xenofobia européia. Na França, por exemplo, depois de interrogar 42 suspeitos (jovens imigrantes do norte da África e da região do Magreb), a polícia concluiu que eles eram "predominantemente delinqüentes sem ideologia, motivados por uma hostilidade difusa contra Israel, exacerbada pela representação do conflito do Oriente Médio na mídia (...), conflito que eles percebem como uma reprodução do quadro de exclusão e fracasso do qual são vítimas".

6. Houve casos em que as posições da extrema-esquerda se aproximaram das da extrema-direita. Isso foi particularmente visível em manifestações pró-palestinas e antiglobalização, quando caricaturas anti-semitas acabavam se confundindo com slogans antiisraelenses. Eis aqui um elemento fundamental: a presença do fator político (ligado à questão do Oriente Médio) como detonador de ranços preconceituosos, que generalizam "culpas" e desconhecem a variedade de posições políticas dos judeus, dentro e fora de Israel.

7. Com muito poucas exceções, a chamada grande imprensa européia não veiculou material anti-semita. Este ficou confinado aos pasquins da extrema-direita e a páginas racistas da Internet. Alguns meios de comunicação ligados às comunidades árabe e muçulmana têm conclamado à luta não apenas contra Israel mas também contra todos os judeus. É importante destacar que isso é repudiado pelas lideranças institucionais destes grupos. Na França, onde a população muçulmana totaliza 5 milhões de pessoas, os principais líderes comunitários advertiram contra a estigmatização do povo judeu, condenaram os ataques contra judeus e pediram moderação nas manifestações de solidariedade aos palestinos. Naser Khader, membro do parlamento dinamarquês, Hanna Ziadeh, presidente do Conselho de Integração de Copenhagen, e Mahmoud Issa, historiador, todos palestinos residentes na Dinamarca, escreveram uma carta aberta no diário Politiken, apelando a seus companheiros palestinos para que não deixassem que "suas críticas justas ao governo israelense se transformem em ódio a todos os judeus". Enfatizaram que "nossa batalha é política e nada tem a ver com religião e etnicidade". O artigo foi impresso em dinamarquês e árabe.

8. As velhas relações carnais entre Israel e EUA respingam sobre os judeus em todas as partes. O ódio à política imperial praticada pelo presidente George W. Bush acaba resvalando para seus aliados israelenses e, por caminhos enviesados, para os judeus. Acrescento: a luta antiimperialista arrasta setores equivocados da esquerda a uma generalização descabida. Estes setores desprezam o fato de que muitos judeus e organizações judaicas se colocam abertamente contra as políticas de governos israelenses e eventualmente até contra os fundamentos do Estado judeu. Com isso, perdem a oportunidade de ampliar as alianças contra os verdadeiros inimigos, quais sejam, a exploração capitalista em todas as suas dimensões, o preconceito e o colonialismo.

9. As populações judaicas são vistas como intimamente associadas ao Estado de Israel e à sua política. Assim, estes judeus acabam se tornando reféns involuntários das decisões e atitudes dos governos israelenses. Os números da tabela abaixo, referentes à proporção dos entrevistados que duvidam da lealdade dos judeus a seus países, são esclarecedores.

Declaração: Os judeus são mais leais a Israel do que ao país onde moram. 

País

% dos que concordam com a declaração

Bélgica

50

Dinamarca

45

França

42

Alemanha

55

Inglaterra

34

Espanha

72

Itália

58

Áustria

54

Holanda

48

De todas estas informações, pode-se concluir claramente que não está havendo uma escalada generalizada de incidentes anti-semitas na Europa. Houve, num curto intervalo e em dimensões variadas, um recrudescimento de atos contra judeus, paralelo à agudização do confronto armado entre israelenses e palestinos. Assim, em vez do tradicional leitmotiv anti-semita (conspiração judaica para dominar o mundo, sovinice, culpa de deicídio etc.), aparece um elemento político externo a países onde os judeus estão social, econômica e culturalmente integrados. Nas palavras de Henri Wajnblum, ex-presidente da União dos Judeus Progressistas, da Bélgica: "É certamente verdade que observamos um aumento de incidentes anti-semitas no passado recente: grafitagens, depredações, que são preocupantes. É, entretanto, errado falar de uma onda de anti-semitismo varrendo a Europa. O que estamos vendo é o crescimento da hostilidade contra Israel, particularmente entre os imigrantes árabes solidários aos palestinos. É a política israelense no Oriente Médio que está provocando, em grande medida, este incêndio e, neste sentido, o governo de Ariel Sharon tem parte da responsabilidade (...). O senhor Sharon quer mais judeus em Israel, ele quer tomar a dianteira na questão demográfica. Acaba explorando, ao menos em parte, os temores dos judeus europeus para persuadi-los a emigrar."("Viewpoints: Anti-Semitism and Europe", www.bbc.co.uk , 03/12/03) 

A hostilidade contra o Estado de Israel é necessariamente uma manifestação de anti-semitismo? A resposta é um redondo não. Dou a palavra ao professor de Ciência Política da Universidade Hebraica de Jerusalém Yaron Ezrahi: "A direita em Israel descreve qualquer crítica ao país como uma forma de anti-semitismo. É muito conveniente para o atual governo - o mais direitista da História israelense e encabeçado por um primeiro-ministro que não tomou a menor iniciativa diplomática em favor do processo de paz - acusar tudo de anti-semitismo(...). Quando Itzhak Rabin liderou o processo de paz, o comportamento popular na Europa foi extremamente positivo. Era muito raro ouvir falar de incidentes anti-semitas naquele período."(do site da BBC citado no parágrafo anterior)

O sionismo não é um mandamento divino. Trata-se de uma doutrina política e como tal deve ser tratado, analisado, apoiado ou rejeitado. Sua versão moderna surgiu no século 19, em resposta ao anti-semitismo dos nacionalismos europeus. Assim, como bem lembra Uri Avnery no boletim do movimento pacifista Gush Shalom de 22/11/03, o preconceito antijudaico está em sua certidão de nascimento e sem ele é muito provável que não existisse o Estado de Israel. Avnery descarta a continuidade histórica do desejo da volta a Sion, lembrando que essa vontade sempre ficou circunscrita às orações. Dá um exemplo clássico: ao serem expulsos da Espanha, há cerca de 500 anos, a grande maioria dos judeus procurou refúgio em países do império otomano, onde foram bem recebidos. Só uns poucos rabinos se dirigiram à então Palestina. Isaac Deutscher (O Judeu Não-Judeu e Outros Ensaios, Civilização Brasileira) observou que a maioria dos judeus europeus foi hostil ao sionismo até a Segunda Guerra Mundial. Cairíamos, aí, numa situação esquizofrênica se igualássemos anti-semitismo a anti-sionismo: a maior parte do povo judeu teria sido anti-semita. Por fim, creio ser absolutamente legítimo questionar a viabilidade de um Estado democrático fundado numa supremacia demográfico-étnica perpétua. 

Muitas lideranças comunitárias judaicas, e o Brasil não é exceção, tratam de montar blindagens em torno de Israel, evitando qualquer tipo de crítica e criando uma imagem idealizada do país. Ajudam a satanizar inimigos, reais ou imaginários, e comportam-se como ministros da propaganda de todos os governos israelenses, com os quais mantêm relações privilegiadas e aos quais atribuem todas as virtudes. Constatando este tipo de afinidade incondicional, o público tem a impressão de que as comunidades judaicas são indiferenciadas, abrindo caminho para distorções graves e preconceitos. A falta de isenção torna essas lideranças, ironicamente, cúmplices indiretas da animosidade anti-semita.

Alguém há de perguntar onde está a idealização. Vou me ater a um exemplo: a tão difundida idéia de que Israel é a única sociedade democrática do Oriente Médio. Democrática para quem, cara-pálida? Não para os árabes israelenses, um milhão e 300 mil, discriminados em quase todos os aspectos da cidadania: dotação orçamentária inferior à da população judaica (implicando em pior atendimento nas áreas de habitação, educação, saúde e cultura), restrições severas ao direito de adquirir terras e morar em locais de livre escolha e banimento de todas as esferas administrativas (ver editorial do jornal Haaretz de 18/12/03). Também não para os 3 milhões e 500 mil palestinos que vivem sob brutal ocupação militar e cujas condições de vida são catastróficas. O que dizer da situação dos quase 400 mil trabalhadores estrangeiros, muitos deles clandestinos, que são extorquidos por patrões inescrupulosos e vivem a permanente insegurança da deportação ? Resumo da ópera: direitos apenas para a população comprovadamente judaica, ou seja, aquela que teve o nihil obstat do establishment religioso. Em nosso ishuv o assunto é sonegado e o debate em torno dele simplesmente inexiste.

A miopia patrioteira leva a erros monumentais. Entre nós, um caso tristemente conhecido foi o do escritor Luiz Fernando Veríssimo. Este doce gaúcho ousou criticar o governo Sharon, na mesma linha elegante que usa em seus textos. Foi o suficiente para ser taxado de anti-semita por judeus raivosos. Respondeu numa crônica admirável ("Heranças dilapidadas", O Globo, 06/4/03), acusando seus detratores de desonestidade intelectual, opondo-a à boa tradição humanista de uma parte do povo judeu. Felizmente, Veríssimo não foi na onda dos provocadores.

Estamos longe do isolamento e da indiferença que facilitaram, nos anos 1930, o trabalho sujo dos nazistas. Também não há hordas destruindo propriedades e vidas judaicas na proporção que pregam, oportunisticamente, os alarmistas. A violência deve ser enfrentada se e onde ocorrer, mas suas causas imediatas devem ser identificadas para que a estratégia de combate seja eficiente. Hoje, o foco do mal-estar antijudaico está no Oriente Médio e é claramente político. Quanto mais se caminhar na direção de uma solução justa para o conflito palestino-árabe-israelense, menor será a fogueira anti-semita.


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* Jacques Gruman é diretor da ASA e colaborador deste Boletim.

 

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