EDITORIAL - Boletim ASA nº 87, mar-abr/2004

Apelo à razão

Esta edição do Boletim aborda, em três matérias, a intolerância. Não é à toa. Episódios de preconceitos têm se multiplicado por toda parte, acompanhados com freqüência por discursos fascistas. Na Europa, que abriga cerca de 56 milhões de imigrantes, políticos de extrema-direita ganham espaço pregando tratamento implacável aos que buscam reconstruir seus lares fugindo da miséria, do desemprego e das guerras. Na França, por exemplo, Jean-Marie Le Pen chegou ao segundo turno das eleições presidenciais declarando que "as Nações Unidas dizem que a Europa precisa de 29 milhões de imigrantes para manter a economia caminhando. Eu prefiro comer pão seco a ter imigrantes". Na Inglaterra, há pelo menos três partidos políticos abertamente anti-imigrantes.

O interminável conflito no Oriente Médio tem resvalado para terras européias. Nelas, registros de incidentes anti-semitas se intensificaram em período recente, paralelos ao recrudescimento da violência entre israelenses e palestinos. Apesar da posição conciliadora de suas principais lideranças comunitárias, alguns jovens muçulmanos têm confundido a legítima solidariedade à luta do povo palestino com uma inaceitável responsabilidade coletiva judaica pelo drama da Palestina. O resultado é violência, que, no entanto, não atinge a proporção de escalada que setores alarmistas andam divulgando e não guarda a menor semelhança com os acontecimentos da década de 1930.

A discriminação antijudaica está longe de representar um comportamento generalizado. Os judeus estão bem integrados nos países onde vivem. Há, por outro lado, muitos casos de alianças entre judeus e muçulmanos no combate ao preconceito. Três exemplos singelos. O imã da Comunidade Islâmica Italiana, Abdul Hadi Palazzi, mantém contato permanente com a comunidade judaica italiana e divulga freqüentes apelos à moderação. Na França, que concentra grandes comunidades judaica e muçulmana, campanhas educativas entre grupos islâmicos com temas como "queimar uma sinagoga é como queimar uma mesquita", têm aumentado o contato e a solidariedade entre as comunidades. No subúrbio de Aubervilliers, no norte de Paris, uma entidade muçulmana local emprestou seu ônibus a uma escola judaica cujos ônibus haviam sido destruídos durante um atentado. Na Alemanha, a Associação Turca Berlim-Brandenburg, a Associação da Comunidade Turca Alemã e o Conselho Central Muçulmano criticaram duramente declarações anti-semitas de um político local. Num comunicado conjunto, lembraram que "criar um clima anti-semita deve ser um tabu para todos nós". 

Judeus de todos os lugares que não comungam da fé cega no Estado de Israel e muçulmanos que apostam no diálogo político como caminho único para encerrar décadas de guerras e sofrimento precisam ter um compromisso unitário com a razão. A pressão deles sobre os principais atores do conflito árabe-palestino-israelense é fundamental para que se ampliem as chances da paz. Enquanto vigorar a lógica de bombas e muros, de fanáticos e desesperados, estaremos sempre próximos da barbárie. Se o contrário prevalecer, o anti-semitismo desmaiará.

O diálogo deve ultrapassar os factóides. Não se avançará um milímetro se a conciliação e o respeito à diferença dependerem apenas de rega-bofes em torno de mesas guarnecidas por quibes e varêniques. Apetite saciado nada tem a ver com entendimento. A ação eficaz virá somente com estratégias políticas que envolvam lideranças e comunidades, num permanente esforço de respeito pelo outro. Estamos, infelizmente, longe disso, como prova a reação destemperada de algumas pessoas ao curso sobre a civilização islâmica que a ASA promoveu no segundo semestre de 2003. Este tipo de gente ainda está num estágio de irracionalidade que veda o conhecimento e idolatra a censura. 

Quarenta e quinze

Ali funcionou um sanatório. Maldosos e gozadores chegaram a dizer que os roite idn só podiam mesmo instalar-se naquele velho casarão em Botafogo, por onde circularam napoleões, neros e malucos beleza. Só mesmo loucos, diziam, ainda acreditavam naquela ideologia exótica e num judaísmo laico. Em 1964, ano de melancólica lembrança para a democracia brasileira, os judeus progressistas do Rio espantavam os fantasmas dos antigos ocupantes e inauguravam no simpático casarão da rua São Clemente a Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação.

Completando quarenta anos de estrada, a ASA já passou por momentos apoteóticos e de crise. Enriquecemos a memória coletiva do judaísmo progressista e oferecemos nosso melhor fruto: a inquietação. Refletida em todo o cardápio cultural que organizamos e também no boletim ASA, que, em agosto, comemora quinze anos de edições ininterruptas, ela sacode a poeira de uma identidade judaica saudavelmente gelatinosa nestes tempos de globalização.

Este ano vamos soprar as quarenta e quinze velinhas com tudo. Acompanhe de perto nossas atividades e comprove a vitalidade da tradição progressista. 

*
*  *

[topo]