Brasil - Boletim ASA nº 86, jan-fev/2004

28 anos sem Vlado Herzog

Henry I. Sobel / Especial para ASA

Faz 28 anos que o Brasil perdeu Vladimir Herzog. Vlado era um jornalista de destaque, professor da Universidade de São Paulo e diretor do Departamento de Jornalismo da TV Cultura. Era também um judeu. Não praticante, mas um judeu - um judeu dotado de grande capacidade intelectual, universal em sua visão e profundamente comprometido com as causas humanitárias no Brasil e no exterior. Eu o conhecia superficialmente. Conheço muito bem sua mãe, que é sócia da Congregação Israelita Paulista-CIP.

Na segunda-feira dia 27 de outubro de 1975, os jornais noticiaram a morte de Herzog, aos 38 anos, depois de ter sido submetido a intensos interrogatórios nas dependências do Departamento de Operações Internas do 2º Exército, em São Paulo. Estávamos então no auge da repressão neste país. Herzog foi encontrado morto em sua cela no DOI-CODI. A explicação oficial divulgada pelas Forças Armadas foi que ele havia se suicidado.

O enterro de Herzog, que se realizou nessa mesma segunda-feira no Cemitério Israelita do Butantã, teve ampla repercussão na imprensa local e internacional, não somente devido às circunstâncias trágicas em que ocorrera sua morte, mas também porque muitas das pessoas presentes ao sepultamento tiveram a impressão de que a cerimônia não havia sido celebrada de acordo com os rituais tradicionais judaicos. Entre os fatos destacados pela imprensa, noticiou-se com ênfase a ausência de um rabino no cemitério e a suposta rapidez com que se realizou o enterro. Como representantes da fé judaica, estavam presentes apenas um cantor litúrgico e os membros da Chevra Kadisha, o comitê funerário da CIP.

Em entrevista que concedi à imprensa no dia seguinte, esclareci que os rituais de sepultamento haviam sido cumpridos rigorosamente de acordo com a lei judaica. E expliquei que o único motivo da minha ausência tinha sido um compromisso profissional inadiável, no Rio de Janeiro, no dia do enterro.

Ressaltei ainda que a comunidade judaica estava chocada diante da violação dos direitos fundamentais de Herzog e que ele havia sido vítima da ditadura. Declarei categoricamente à imprensa que Herzog tinha sido sepultado com todas as honras que lhe eram devidas como judeu, como brasileiro, como ser humano. De acordo com a lei judaica, um suicida é enterrado na periferia do cemitério, como forma de condenar visivelmente o pecado cometido por aquele que destrói sua própria vida. Não foi esse o caso de Vlado; ele foi sepultado no centro do campo-santo.

Preocupou-me imensamente não só a barbaridade do crime que havia sido cometido, mas também a imagem negativa de passividade que foi atribuída à comunidade judaica. Fiz questão de declarar à imprensa que a Sinagoga defendia os Direitos Humanos com o mesmo fervor que a Igreja e que os judeus estavam tão revoltados com a morte de Herzog quanto todos os outros brasileiros.
Quando me perguntaram sobre "um certo apressamento da cerimônia do enterro", expliquei (depois de consultar nosso pessoal da Chevra Kadisha) que, de fato, houve um apressamento, motivado por respeito ao falecido. Dado o grande número de pessoas presentes, a intenção tinha sido evitar que o funeral se transformasse num ato público de caráter político. Quanto voltei do Rio a São Paulo, assegurei à família, tanto pessoalmente como publicamente, que todas as orações haviam sido devidamente recitadas.

Alguns dias depois da morte de Herzog, a pedido da família e do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, foi realizado um culto ecumênico na Catedral da Sé, co-celebrado pelo cardeal d.Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo Jaime Wright e por mim. Cerca de oito mil pessoas compareceram à Catedral para render tributo a Vlado, entre as quais inúmeros parlamentares, professores, estudantes e representantes dos centros acadêmicos de quase todas as faculdades paulistas.

O culto foi conduzido com a maior solenidade e dignidade. O cardeal Arns foi magnífico! Ele se referiu ao governo como "assassinos" e citou o mandamento do Decálogo: "Não matarás!" "Ninguém mata um homem e fica impune", disse o cardeal.

Os presentes ouviram atentamente as palavras dos oradores e o canto do El Malé Rahamim, a tradicional oração judaica em tributo aos falecidos. Foi recitado então o Kadish, a prece dos enlutados. Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas, concluiu o serviço religioso dizendo: "Em nome de todos os jornalistas, em nome de Deus e em nome dos homens, pedimos a paz e nos comprometemos a lutar pela paz."

Imediatamente após a morte de Herzog, milhares e milhares de universitários, jornalistas, intelectuais e líderes religiosos de todos os credos organizaram passeatas, greves e atos públicos, em conseqüência dos quais o comandante ultra-radical do 2º Exército foi substituído por outro mais moderado.

A morte de Vladimir Herzog mudou o rumo do país. Foi o catalisador da abertura política e do processo de redemocratização do Brasil. Seu nome será para sempre uma recordação dolorosa de um sombrio período de repressão na História brasileira. Será também o eco eterno da voz da liberdade, que não cala jamais.


ASA - O que lhe deu a certeza de que Herzog não havia se suicidado?
Sobel - Eu me baseei nas informações que recebi confidencialmente dos membros da Chevra Kadisha (a sociedade funerária) da Congregação Israelita Paulista, que haviam visto o corpo durante a lavagem ritual antes do enterro.

ASA - Que apoio o senhor recebeu (ou deixou de receber) da comunidade para enfrentar a posição oficial?
Sobel - Recebi apoio de alguns indivíduos que ocupavam na época posições de liderança dentro da comunidade judaica. Não recebi, porém, o aval oficial de nenhuma entidade representativa.

ASA - Que atitude a Chevra Kadisha teve na ocasião?
Sobel - A Chevra Kadisha cumpriu a função religiosa que lhe cabia, no sentido de preparar o corpo para o sepultamento, de acordo com a lei judaica.

ASA - É possível fazer um paralelo entre os casos Herzog e Iara?
Sobel - Sim, certamente. Ambos foram qualificados como "suicídio" pelas autoridades governamentais, sem que fosse dado à família o direito de averiguar se Vlado e Iara se mataram ou foram assassinados.
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* O rabino Henry I. Sobel é presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista.

 

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