Brasil - Boletim ASA nº 86, jan-fev/2004

Iara: uma batalha vencida

Samuel Iavelberg / Especial para ASA

Iara Iavelberg morreu aos 27 anos, na Bahia, durante um cerco policial em 20 de agosto de 1971. Minha irmã era militante do MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro] e lutava contra a ditadura militar que existia no Brasil. Segundo a versão oficial, Iara se suicidou com um tiro no peito. Foi enterrada como suicida, apesar dos protestos da família. A Chevra Kadisha aceitou a versão dos militares, que não permitiram que o enterro fosse feito de acordo com as leis judaicas.

Nessa ocasião, a comunidade judaica não se pronunciou. Em 1973, quando eu morava na Alemanha exilado e protegido pela Anistia Internacional, esta organização me ajudou a conseguir uma bolsa de estudos. A primeira tentativa havia sido com a comunidade judaica alemã, que consultou a comunidade brasileira. A resposta foi que não havia motivos para um judeu brasileiro ser exilado, pois a comunidade não tinha nenhum problema com as autoridades brasileiras. 

Desde que voltei ao Brasil, em 1979, procuro resolver as dúvidas que existem com relação à morte de minha irmã. Jornais e revistas da época não ajudaram em nada, pois a censura era total. Artigos e livros publicados depois da anistia sempre confirmavam a versão oficial de suicídio. Em 1996, o jornal O Globo publicou uma reportagem em que o contra-almirante reformado Lamartine A. Lima revela que Iara foi morta com uma rajada de metralhadora disparada por Rubem Otero, do corpo de Fuzileiros Navais. "Procurado pela Folha de S. Paulo, Lima, que mora em Salvador, negou-se a dar entrevista, mas não desmentiu o depoimento anterior" (Folha de S. Paulo, 31/8/97).

Cada reportagem que saía na imprensa confirmava nossa desconfiança da versão de suicídio. Então nossa família começou uma luta pela verdade sobre a morte de Iara. Procuramos o rabino Henry Sobel e contamos que pretendíamos rever o caso, realizar uma exumação e fazer uma perícia com o objetivo de verificar se ela realmente cometera suicídio, pois não podíamos mais aceitar a versão oficial. O rabino Sobel prontificou-se a falar com a Chevra Kadisha, levar nosso pedido e defender o ponto de vista da família.

Como é de conhecimento público, a Chevra Kadisha vetou nosso pedido, pois a exumação é proibida pelo judaísmo - " Os corpos dos mortos devem ser deixados em paz". Os senhores da Chevra Kadisha não levaram em consideração que no caso de Iara vários preceitos religiosos não haviam sido respeitados. Ela foi enterrada em um caixão fechado e com um vidro na altura do rosto para ser reconhecida pelos meus pais. Essa abertura contraria a tradição judaica. Além disso, não foi feita a lavagem do corpo (tahará), e também de nada adiantou o protesto de meus pais, que poderiam no futuro ser enterrados ao lado da filha em outra parte do cemitério.

A Chevra Kadisha, reconhecendo o erro cometido, nos propôs que Iara deixaria de ser considerada suicida, uma cerimônia junto ao túmulo seria celebrada para pedir perdão pelo erro e o local seria dignificado com a leitura de Salmos. Nossa família não viu nenhum sentido nessa "solução meia-boca" e o próprio rabino Sobel declarou na época que a proposta era um band-aid, que aparentava ser uma solução mas não era. Só nos restou a via judicial para resolver o caso. Contatamos o advogado Luis Eduardo Greenhalg, que passou a representar a família. Durante anos a Chevra Kadisha travou uma batalha judicial contra a exumação de Iara, o que, na prática, era uma tentativa de preservar a versão oficial dos militares. Perdeu em todas as instâncias e a exumação acabou sendo feita. Estamos esperando o resultado da perícia.

Nossa família jamais esquecerá a atitude ignóbil dos senhores da Chevra Kadisha. No dia da exumação, fizeram uma última tentativa de impedir que a ordem judicial fosse cumprida. Alegando que o cemitério estava fechado por ser feriado judaico e que a exumação violava os preceitos religiosos, obtiveram uma liminar suspendendo a exumação, que horas depois foi cassada pelo próprio juiz que a havia emitido, ao constatar que a alegação era uma mentira. 

Durante nossa batalha contra a Chevra Kadisha recebemos várias manifestações individuais de apoio de judeus de São Paulo, das quais cito um comovente fax, "A exumação de um erro", enviado por Maurício Mindrsz, e um abaixo-assinado de intelectuais organizado pelo doutor Jacob Pinheiro Goldberg.

Quanto à comunidade judaica (através de suas entidades), continua muda, apesar de não perder nenhuma oportunidade de se posicionar politicamente em questões nacionais e internacionais, quando acha necessário.

Estamos aguardando o resultado da perícia para dar a Iara uma sepultura digna e não aquela que a ditadura determinou e a Chevra Kadisha tanto defendeu.


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* Samuel Iavelberg é jornalista e fotógrafo. Como militante da Var (Vanguarda Armada Revolucionária) Palmares viveu na clandestinidade até decidir exilar-se. Alguns meses depois foi condenado. Voltou ao Brasil com a anistia.

 

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