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EDITORIAL - Boletim ASA nº 86, jan-fev/2004 O peru falso do Bush Na esteira da crise que vivem há mais de uma década as formas tradicionais de representação coletiva (sindicatos, partidos políticos), prosperam novos tipos de organização da sociedade civil. Mais do que isso: as pessoas já não se conformam com os aspectos meramente formais da democracia e se organizam também fora dos espaços convencionais. O presidente boliviano Garcia Mesa, por exemplo, ignorou o som da rua. Foi arrastado por uma onda de manifestações populares e acabou deposto. A presença destes novos atores é um dado alentador na crise do Oriente Médio. Ante o fracasso de todas as tentativas de negociação mediadas por governos, israelenses e palestinos estão usando canais alternativos para se comunicar e criar fatos políticos que descongelem o sangrento impasse em que se encontram. Desde 2001, três importantes documentos vieram à luz, todos baseados no princípio de "dois Estados para duas Nações" e com propostas concretas para as questões mais sensíveis (direito de retorno dos palestinos, status de Jerusalém e das colônias judaicas em territórios ocupados, estabelecimento de fronteiras definitivas). O primeiro foi elaborado pela ONG israelense Gush Shalom e o segundo, pelo general da reserva e ex-diretor do Shin Bet, Ami Ayalon, e o professor palestino Sari Nusseibeh. O terceiro, assinado em 1o de dezembro de 2003 na cidade de Genebra, teve grande cobertura da mídia, foi gestado durante dois anos de intensos debates e envolveu nas negociações um grande número de personalidades israelenses e palestinas. Seus protagonistas mais visíveis são Iossi Beilin, ex-ministro da Justiça de Israel, e Iasser Abed Rabbo, ex-ministro da Informação da Autoridade Nacional Palestina. Usando argumento tão falso quanto o peru de plástico que o presidente Bush exibiu no aeroporto de Bagdá na recente viagem eleitoreira que fez ao Iraque ocupado, os porta-vozes do governo Sharon tentaram desqualificar os documentos alegando que os autores não são representantes legais de seus governos. Ignoram, assim, os objetivos daquelas iniciativas e desprezam o grau de saturação a que chegou a sociedade israelense, minada por uma crise de esperança e por um ânimo belicoso e auto-suficiente que gera críticas internacionais e alimenta humores anti-semitas. É um discurso pobre, centralista e autoritário, que chama de "subversivo" um movimento legítimo e flerta com palavras de ordem virulentas, que, em 1995, terminaram no assassinato de Itzhak Rabin. A mão assassina foi lubrificada pelo grito de "traição". De acordo com Iossi Beilin, os Acordos de Genebra nada mais são do que "um ato pedagógico (...), que dará uma oportunidade à opinião pública para pressionar por mudanças nas posições do governo". Rechaçando o diálogo, o governo Sharon prefere apostar em muros e bunkers. Com isso, aumenta o isolamento diplomático de Israel e aquece a demanda por mais violência. Enquanto o couro come, desfila um estrondoso silêncio na comunidade judaica do Rio. Quase nada se informa sobre esses assuntos. Debate, nem pensar. Por que será ? * Em 2004, a ASA completa 40 anos de existência e o Boletim chega aos 15 anos. Marcos importantes na rede judaica progressista em nosso país, serão lembrados em vários eventos. Fique ligado e participe. [topo] |