Israel x Palestinos - Boletim ASA nº 85, nov-dez/2003

A desmoralização da ONU

Márcio Scalercio / Especial para ASA

Em 1945, enquanto os povos do planeta ainda lambiam as feridas, deploravam as milhões de vítimas e varriam para debaixo do tapete os escombros da última guerra mundial, as grandes potências, coadjuvadas pelas demais (embora não tão imponentes), partiram resolutamente para a formação da Organização das Nações Unidas. A sede seria em Nova Iorque, o novo centro do mundo. A grande aposta era que daquela vez, diferentemente do que ocorrera com a Liga das Nações, que fracassara miseravelmente nos idos da década de 30, a nova entidade conseguiria regular as relações internacionais, mediar conflitos regionais, promover o progresso, a educação e, por fim, evitar eficazmente uma nova deflagração bélica mundial. 

A ONU, rendendo-se ao princípio do "realismo político", reconhecia que as nações do mundo não estavam em igualdade entre si, seja em poderio militar, seja em capacidade econômica. Com o intuito de equilibrar as coisas e retratar de algum modo o cenário mundial vigente, institui um Conselho de Segurança, contendo cinco membros permanentes com direito de veto (Estados Unidos, União Soviética, China, Grã-Bretanha e França) e abre vagas em sua composição para integrantes temporários em sistema de rodízio. Até hoje, a arquitetura do Conselho de Segurança espelha a correlação de forças políticas existente no planeta em 1945. Mudar o perfil das entidades internacionais é sempre difícil. Ao que parece, as mesmas, de um modo ou de outro, acabam assumindo uma postura conservadora no que diz respeito à configuração de suas estruturas. O Brasil e a Índia esperam até hoje vagas como membros permanentes do Conselho de Segurança. Aconselhamos que continuem esperando bem acomodados. 

Desde o berço, a vida da ONU foi de regulares sobressaltos. Afinal, todos sabemos que não vivemos em um mundo em que campeia a paz e a quietude. As Nações Unidas viram-se logo no nascedouro envolvidas em um confronto entre as grandes potências (1950, Guerra da Coréia) e, de um modo geral, mediaram de forma muito precária importantes conflitos africanos, tais como a crise do Congo e a guerra colonial travada pelos franceses na Argélia, ambas na década de 1950 e inícios dos anos 60. Esses são apenas alguns exemplos. A impressão que ficou é que a capacidade de mediação da ONU funcionava mais celeremente quando as grandes potências estavam comprometidas com a resolução da crise, e recuava ao patamar da impotência no momento em que apenas uma delas não só se recusava a colaborar, como também parecia disposta a colocar lenha na fogueira e manter a crise prosperando. 

O problema das estreitas limitações da ONU em mediar as crises entre árabes e israelenses apresenta-se como um cenário que se arrasta até os nossos dias. A ONU herdou o problema dos ingleses. Esses, escaldados por sua própria crise econômica no imediato pós-guerra e percebendo que os ânimos entre as comunidades na Palestina tendiam a ferver cada vez mais, apressaram-se em 1948 em transferir as responsabilidades para as Nações Unidas, retirando-se da área. O teatro bélico estava formado. A ONU decidiu-se pela partilha, os árabes a declararam inaceitável e os colonos judeus, ao contrário do que conta a lenda, muito bem preparados para a guerra, aproveitaram a recusa árabe para garantir o nascimento de seu Estado e conquistar mais território do que a resolução da partilha havia garantido. 

O fato é que o Oriente Médio tem sido o palco do mais prolongado calvário da ONU. Os contendores freqüentemente fazem o que querem, a presença de delegados da ONU regularmente é vetada e a instituição se desmoraliza. Os motivos para isso não são muito difíceis de serem percebidos. Do lado árabe, as lideranças reclamam da inoperância da organização. Suas resoluções são seguidamente desobedecidas pelos israelenses e tudo fica por isso mesmo. Em parte, o estouro da Intifada de 1987 pode ser explicado nessa linha. Os palestinos residentes nos territórios, fartos por esperar que as autoridades israelenses obedecessem a Resolução aprovada pelas Nações Unidas para se retirarem logo após a Guerra dos Seis Dias (1967), trocaram a fé na ONU pelas pedras. 

Esse é o maior elemento complicador da atual fase do conflito entre árabes e israelenses. Nos territórios, as tropas israelenses que enfrentam um povo inteiro são na verdade tropas de ocupação. Além disso, as colônias judaicas em áreas palestinas foram ampliadas. Um dos avanços obtidos pelas Nações Unidas depois de 1945, (escorados na concordância das grandes potências), é que nenhuma alteração de limites fronteiriços mediante o uso da força pode ser referendada pelo sistema internacional. O governo israelense sabe disso e o povo palestino também. Deste modo, nem a ONU pode desejar que toda uma população suporte as agruras de uma ocupação militar e o flagrante desrespeito ao direito internacional em estado de paz e quietude tal como um rebanho de carneiros. Isto é impossível. E para piorar, era de se esperar que as pedras originais da revolta degenerassem em algo bem pior. Suicidas desesperados se explodindo com bombas, por exemplo. 

Do lado israelense, o sentimento de gratidão para com a ONU, municiado pela decisão da Assembléia Geral favorável à partilha da Palestina e formação do Israel moderno, foi soterrado pela poeira fabricada por seguidas condenações às ações de retaliação militar das forças israelenses contra seus vizinhos. Os grupos politicamente mais "duros" de Israel, aliás, não perdem oportunidade de manifestar com fervor seu pouco caso em relação à ONU. Alegam que os países muçulmanos, unidos em bloco, empenham-se na prática de criar todas as dificuldades possíveis para Israel. Além do mais, devido ao problema do status de Jerusalém, contam com a antipatia dos países católicos que preferiam internacionalizar a gestão da Cidade Santa conforme consta na proposta original de partilha da Palestina. Em seguida, afirmam que o mundo só se preocupa com os palestinos e que o pesar e a condenação geral em relação às vítimas israelenses de atentados terroristas são insuficientes ou mesmo hipócritas. 

Resta ainda um certo sentimento, propagado nos corações de muitos líderes israelenses, de que os judeus não podem confiar na ajuda dos "gentios", isto é, no resto do mundo. No caso de não serem capazes de defender a si próprios e contundentemente, estarão irremediavelmente perdidos. O mundo não os ajudará, como teria acontecido na época da tragédia da perseguição nazista. Interpretação como essa era insistentemente propalada pelo ministro Menahem Begin na época em que liderou o governo de Israel. O problema é que essa impressão deixa de lado os momentos em que Israel conseguiu efetivar alianças internacionais que garantiram a sua existência. Não podemos esquecer que em 1948 foram as armas tchecas enviadas pelo "papai" Stalin que auxiliaram a vencer a Guerra de Independência; as "trapalhadas de Suez", em 1956, foram devidamente coadjuvadas pela Inglaterra e França; e, finalmente, seria muito difícil para a economia israelense manter-se flutuando sem a ajuda da mesada americana. Em síntese, basta haver interesses comuns em jogo para que importantes representantes do "resto do mundo" se candidatem a aparecer e ajudar. 

A novela do conflito árabe-israelense e a incapacidade da ONU para mediá-lo está longe de acabar. Enquanto a ONU não contar com o suporte das grandes potências, sua atuação não será eficaz. Foi assim no começo, continua sendo assim agora. Os perdedores são a totalidade dos civis israelenses e palestinos, emaranhados em um conflito sangrento, cruel e economicamente custoso. Suspeito que nem os palestinos, cada vez mais compromissados em sua revolta, nem o governo israelense, cuja confiança inabalável em um belicismo agressivo jamais recua, tenham condições de sozinhos superar a crise. Atores internacionais são necessários. Apesar dos pesares, e em meio a tantas desconfianças, as Nações Unidas ainda têm um papel a desempenhar no Oriente Médio.


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* Márcio Scalercio, historiador, é professor titular da Universidade Cândido Mendes e do Departamento de Economia da PUC/RJ. É autor do livro Oriente Médio (Editora Campus).

 

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