EDITORIAL - Boletim ASA nº 85, nov-dez/2003

O que é isso, camarada?

"Os judeus (...) repetem os mesmos excessos, os mesmos crimes, os mesmos abusos de que foram vítimas"; "não aprenderam nada com o sofrimento de seus pais e avós". Assim o escritor português José Saramago se referiu ao conflito palestino-israelense, dirigindo-se à platéia do 1o Congresso Internacional de Educação, realizado em outubro em São Paulo. Provocou reações iradas na seção de cartas do jornal O Globo e reacendeu a polêmica criada pelo texto que divulgou ano passado sobre uma violenta incursão do exército israelense na cidade de Jenin.

Saramago tem uma história de militância política respeitável. Homem de esquerda, participou da resistência contra a ditadura salazarista em seu país, apoiou as lutas de libertação nacional das colônias portuguesas na África, solidarizou-se com a revolta dos zapatistas no México, aproximou-se da luta pela reforma agrária no Brasil e colabora com o Fórum Social Mundial. Como intelectual, sua obra recebeu o único Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa. Este imenso patrimônio biográfico só faz aumentar a decepção de vê-lo observar o Oriente Médio e o povo judeu com lentes simplistas, indignas da sofisticação que empresta a seus personagens ficcionais. As generalizações não só distorcem a realidade, mas também podem se transformar em alavanca de preconceitos.

São vários os equívocos de Saramago. O primeiro, escandaloso, confunde israelenses com judeus e, num coquetel surrealista, iguala Ariel Sharon a Woody Allen, Noam Chomsky, Henry Sobel e aos pilotos israelenses que se recusaram a bombardear áreas civis palestinas. Em seguida, confunde governo israelense com o conjunto da população, demonizando-os por igual. Com isso, insulta o trabalho de pessoas e organizações que criticam a ocupação de territórios palestinos e suas gravíssimas seqüelas, abrem frentes de cooperação com palestinos e se articulam para criar um ambiente de tolerância. Estes, com certeza, não esquecem as lições da História. 

Comete, por fim, um erro surpreendente para quem acumulou experiência política. Ao fazer comparações impróprias com fatos ligados ao Holocausto, Saramago faz o jogo da direita. Esta, que sempre soube utilizar o trauma do genocídio nazista para justificar todos os atos dos governos israelenses, fica mais à vontade para defender o espírito do gueto, do bunker. Afinal, se até um laureado com o Prêmio Nobel demonstra tamanha ignorância, nada mais há a esperar do mundo a não ser preconceito e ódio. Daí até a clausura é um pulo. Ou, na linguagem de um dos missivistas ao Globo, "os israelenses preferem receber críticas do que condolências".

É preciso muito cuidado com as palavras. Veja-se, por exemplo, a chamada "guerra contra o terror". A política militarista do império norte-americano não justifica o antiamericanismo. É indispensável distinguir o governo Bush do povo americano. Basta lembrar que foi em Seattle o início da revolta anti-globalização, que ganha formas cada vez mais criativas e dimensões planetárias. Saramago usou, corretamente, esta distinção quando se referiu a Cuba. Disse que diverge de Fidel Castro, mas não rompeu relações com o povo cubano. Por que, então, não usou o mesmo critério no caso Israel/israelenses/judeus?

José Saramago fica devendo explicações aos que admiram seu verbo, mas que não podem aceitar a visão sectária e desinformada que tem do drama que dilacera as vidas de israelenses e palestinos.

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