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EDITORIAL - Boletim ASA nº 84, set-out/2003 Um debate oportuno Preciso tomar cuidado. Olhar para a frente. Nada de ficar olhando para trás como um saudosista chorão. Já virou lugar comum dizer que esta é uma era de profunda instabilidade. Desde o fim da bipolarização que caracterizou a Guerra Fria, os países capitalistas centrais estão à vontade para impor regras e criar interdições. O resultado explode nas cidades e nos campos, em Seattle e Porto Alegre, em Nova York e Bagdá. Esbarramos diariamente em pontas de icebergs. O emprego formal passou a ser artigo de luxo. Os sindicatos murcham, encurralados pelo fantasma do desemprego e pela informalidade. O meio-ambiente é estuprado, com as bênçãos do "mercado". Os senhores da guerra intimidam, mentem e matam. O fascismo espreita, aguardando uma oportunidade para se reapresentar como "agente da ordem". O capital flui livre, leve e solto, enquanto as pessoas são barradas nas fronteiras. Os remédios calmantes são consumidos em quantidades industriais, numa vã tentativa de controlar a ansiedade e a depressão que crescem. As minorias estão mergulhadas nesta grande crise planetária. Além de serem atingidas pelos aspectos mais gerais, elas têm seus próprios problemas. Os judeus não são exceção. Reproduzem, nas fronteiras comunitárias, os desequilíbrios e desigualdades típicos das modernas sociedades de classe. A isto, porém, se acrescenta um diálogo tenso entre tradição e modernidade, que se traduz no questionamento de valores e na oferta de alternativas dentro da judeidade. As respostas instantâneas também estão em crise. Cada segmento comunitário enfrenta seu quinhão de turbulência. Os sionistas vêem crescer dentro de Israel o sentimento de que, com a consolidação do estado nacional, caducou a doutrina que lhe deu origem. É cada vez menor o número de judeus que imigra para Israel por razões ideológicas. Surgem, na sociedade israelense e na Diáspora, vozes que indagam sobre a viabilidade de um estado étnico ao invés de um estado para todos os cidadãos, com direitos e deveres igualmente compartilhados. As diretrizes políticas dos governos israelenses já não são aceitas pelas comunidades judaicas como mandamentos divinos. Os religiosos, por sua vez, enfrentam uma crescente secularização das sociedades (embora sejam ainda poucos os judeus que consigam definir sua identidade sem mencionar a religião). O que dizer do campo judaico progressista ? A crise das primeiras experiências socialistas, suporte doutrinário dos roite idn por décadas, abalou a sua unidade política na mesma intensidade com que o fez nos partidos de esquerda. A base social das instituições progressistas enfraqueceu-se. Hoje, a imagem de representação das "grandes massas" não passa de uma miragem nostálgica. No Brasil, agravando o quadro, as audiências judaicas têm dado claros sinais de conservadorismo político. De olho em tudo isso, a ASA achou oportuno convocar um seminário que discutirá, em setembro, as alternativas de atuação dos judeus progressistas (detalhes na página 10). Sem ignorar os problemas que enfrentamos, mas também sem cair na tentação niilista, vamos para o debate na convicção de que nossa mensagem tem conteúdo para inquietar e crescer. Debater o futuro foi a melhor forma que encontramos para desejar a todos Shaná tová/ A gut ior, um feliz 5764, rico em respostas e ... novas perguntas. * [topo] |