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Cultura - Boletim ASA nº 84, set-out/2003 A música sem fronteira dos judeus Mauro Perelmann / Especial para ASA No final dos anos 1970, um grupo de músicos judeus norte-americanos descobriu um tesouro musical que estava esquecido e guardado em instituições na forma de velhas partituras e discos de 78 rotações. Hoje chamada música klézmer, era tocada por músicos judeus da Europa Oriental em casamentos, celebrações e festas, judaicas e não judaicas. Foi trazida do Velho Continente para o Novo Mundo no início do século 20. O termo klézmer vem da contração das palavras hebraicas kli (utensílio, instrumento) e zémer (canção, melodia). Na verdade, klézmer era o músico judeu que tocava nas festas. Essa música continuou sua trajetória na América, estando presente nas festas dos judeus norte-americanos até o início dos anos 1950. Mas não resistiu à nova cultura hebraica que tomava as comunidades judaicas em todo o mundo, depois da tenebrosa experiência do Holocausto e do surgimento do Estado de Israel. O sionismo propunha aos judeus, além da construção de um lar nacional, a construção de um novo tipo de judeu. E contrapunha à cultura ídish a cultura hebraica, com sua música e dança influenciadas por estilos musicais do Oriente Médio (Iêmen, Marrocos) misturados com a poesia dos halutsim russos e também com estilos musicais da Europa Oriental. Assim como o idioma ídish, parecia que também as velhas músicas de festas iriam desaparecer. No entanto, ela começa a reviver através dos músicos norte-americanos e se alastra por todo o mundo, principalmente na Europa e Estados Unidos, encantando judeus e não-judeus. Esse movimento é chamado de Klezmer Revival e tem entre seus líderes músicos (hoje na casa dos 40) como Hankus Netsky (do Klezmer Conservatory Band), Henry Sapoznik (do Old Brave World), Frank London e Alicia Szvigals (do Klezmatics) e Michael Alpert (do Kapelye), só para citar alguns. Num primeiro momento, o Klezmer Revival acaba ocupando um espaço, dentro da comunidade norte-americana, entre os judeus que não se sentem identificados com o pensamento sionista nem com a religião como forma de afirmação judaica. São judeus que têm como identificação principal a cultura secular judaica. A hoje chamada música klézmer provoca um sentimento de identificação muito forte entre os judeus ashquenazim. Ao mesmo tempo, consegue se comunicar com o mundo não-judaico por sua excelência e por se deixar influenciar (assim como acontecia na Europa) pelos estilos musicais vigentes na moderna sociedade ocidental (como jazz, rock e world beat). Nos EUA, atualmente, podem se contar cerca de duzentos instrumentistas e grupos de klézmer de tendências diferentes. Os mais importantes são os Klezmatics (misturam klézmer com tendências modernas), o Klezmer Conservatory Band (uma excelente Big Band de música klézmer), o Kapelye (mais tradicional), o clarinetista e mandolinista Andy Statman (um dos pioneiros do Klezmer Revival) e o também clarinetista David Krakauer (que faz um trabalho bastante ousado misturando klézmer e vanguarda). Não se pode esquecer a participação do violinista Itzchak Perlman num projeto que virou CD, vídeo e show ("In The Fiddler's House"), tocando com vários grupos do Klezmer Revival, e que contribui muito para a popularização do movimento. No caso da Europa, o klézmer se desenvolve, por incrível que pareça, principalmente, na Alemanha. Por um sentimento de culpa ou por uma necessidade histórica - os judeus são parte da História alemã -, a música klézmer aparece com muita força neste país através de pelo menos 25 grupos formados por não-judeus, como o Sukke, o Aufwind (criado ainda na República Democrática da Alemanha) e o La'om. Na Hungria, temos o Dy Naye Kapelye, que fez uma pesquisa de campo junto a ciganos da região que sobreviveram à Segunda Grande Guerra e antes da qual tocavam com judeus, e o Budapest Klezmer Band. Na Áustria, aparecem o Frejlech - na contracapa de seu CD lê-se "Nós tocamos música klézmer não só por interesse musical, mas também para preservar uma parte da cultura ídish, que foi totalmente destruída por nossos pais" -, o Narishe Tantz ( trio de acordeom, clarinete e tuba) e o Ensemble Klesmer Wien. Na Holanda, existem cerca de vinte bandas, entre as quais a Amsterdam Klezmer Band e a "Ot Azoy". Encontramos bandas em outros países da Europa, como França, Itália, Dinamarca, Suécia, Inglaterra. Vários festivais de música e cultura judaica acontecem na Europa e na América do Norte, como o Klezfest Ukraine, realizado em Kiev, o Klezfest London, o Jewish Culture Festival, na Cracóvia, (Polônia) já na 13a edição, o KlezKanada, no Canadá, só para citar alguns. Na América Latina, a música klézmer caminha bem devagar. Na Argentina, há o excelente duo César (piano e acordeom) e Marcelo (clarinete e flautas). E, no Brasil, temos o grupo Zemer, do Rio de Janeiro, deste articulista, o Klezmer Brasil, de São Paulo, e um grupo de Goiânia chamado Klezmer do Cerrado. O público daqui ainda não descobriu o klézmer. A apatia e desconhecimento da comunidade judaica em relação ao Klezmer Revival acabam atingindo a trajetória dos grupos brasileiros.
* Mauro Perelmann é diretor musical, arranjador e violonista do Zemer. * [topo] |