EDITORIAL - Boletim ASA nº 83, jul-ago/2003

Outra história

A liberdade de imprensa é sempre um assunto polêmico e, nesta etapa da conjuntura internacional, está particularmente aquecido. A relação dos meios de comunicação com os poderes constituídos e o nível de concentração empresarial dentro da mídia são questões essenciais para se avaliar até que ponto o público tem acesso a uma informação qualificada.

O recente ataque anglo-americano ao Iraque expôs as entranhas dos jornais e televisões dos Estados Unidos. Tornou-se elemento precioso de análise da mídia em geral. Qual era a matéria-prima do noticiário? Um dilúvio de mentiras de proporções monumentais. Desde a canhestra apresentação do secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, na ONU até a farsa hollywoodiana do resgate da soldado Jessica Lynch, passando pela divulgação de relatórios falsos sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Incinerou-se o princípio jurídico de que o ônus da prova cabe ao acusador. Com as exceções de praxe, a cobertura dos acontecimentos abdicou da investigação independente, ganhou ares patrióticos e acompanhou fielmente a agenda e as versões do governo Bush. O debate foi freqüentemente abafado e os dissidentes classificados, não raro, como traidores.

Chama atenção o concubinato jornalistas-governo Bush. Aqui no Brasil já tivemos situação semelhante. O jornal Última Hora, dirigido por Samuel Wainer, foi porta-voz oficioso do governo Vargas (1951/1954). Lá, a rede televisiva Fox News, do magnata australiano Rupert Murdoch e uma das maiores do país, nasceu com penugem chapa branca. Reproduziu toda a pregação belicista dos falcões da Casa Branca e, a exemplo de sua concorrente CNN, aceitou cobrir as ações militares de acordo com o roteiro estabelecido pelos generais. Desta forma, fraudou a missão informativa e virou moleque de recados dos poderosos de plantão.

As empresas de comunicação passam, também, por um processo comum à etapa monopolista do capitalismo. O acelerado movimento de concentração e centralização da propriedade se reflete na redução do número de empresas e na formação de grandes conglomerados. Nos EUA, cinqüenta corporações dominavam o mercado de mídia no início dos anos 1980. Hoje são cinco. A Federal Communications Commission, agência reguladora do setor, aprovou recentemente medidas que facilitam ainda mais o domínio dos poucos conglomerados. O público é cada vez mais refém destas fontes, cujos interesses desconhece e sobre as quais tem influência desprezível. O resultado final é nefasto.

Neste início de século, está em pauta a democratização da informação. Como, entretanto, enfrentar o poder dos trustes da mídia? Não há resposta trivial. As experiências, todas limitadas, incluem, entre outras, rádios comunitárias, sites na internet e os órgãos de comunicação de entidades da sociedade civil. A ASA participa deste esforço. Sem abandonar sua raiz judaica, abre espaço para os grandes temas que polarizam a sociedade contemporânea. É assim que contribuímos na busca de saídas para os gargalos que alimentam a ignorância, o preconceito e, no fim da cadeia, a violência de todos os tipos. Que nos perdoem os puristas que se restringem à "questão judaica" e preferem a tranqüilidade ilusória dos guetos, mas esse é o caminho que continuaremos a trilhar.

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