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Bairros - Boletim ASA nº 83, jul-ago/2003 Judeus do Catete Nélio Galsky / Especial para ASA A comunidade judaica no Rio de Janeiro vem mudando de bairro à medida que ascende socialmente. Isso não é novidade, afinal nesta cidade, nem o monumentos ficam no mesmo lugar o tempo todo. Outro dia mesmo, eu encontrei o chafariz que, na minha infância, ficava na praça da Glória, em frente à Igreja da Candelária. O primeiro momento da imigração judaica contemporânea, na região do Rio, foi em Nilópolis. Impulsionados pelos pogroms que se seguiram à Revolução Russa de 1905, alguns milhares de judeus formaram, nos laranjais da Baixada Fluminense, um shtetl [termo ídish para designar as aldeotas judaicas na Europa Oriental] tropical. Segundo a minha tia-bisavó Tube, eles estavam tão isolados ali, que até os ladrões de galinha só falavam ídish. Essa comunidade prosperou até a década de 1920. A partir daí se intensificou a "colonização" da praça Onze. Em Nilópolis restaram apenas a sinagoga, que foi reformada e tombada pelo Patrimônio Histórico, e o cemitério. A praça Onze foi o centro da comunidade judaica carioca até o final dos anos 1940. A abertura da avenida Presidente Vargas destruiu não só importantes baluartes da música popular e da cultura afro-brasileira, como o terreiro da Tia Ciata, mas também várias sinagogas e sedes de instituições judaicas. Aliás, num culto ao paradoxo, a famosa gafieira Kananga do Japão ficava no mesmo sobrado da Biblioteca Bialik - a capacidade de concentração dos leitores devia ser muito grande. A década de 1940 assistiu a novas migrações. Muitos comerciantes se estabeleceram em Madureira, os mais ricos começavam a residir na Tijuca, e a elite, é claro, ia para Copacabana. Porém, com a criação de várias fábricas e lojas de móveis no Catete, este bairro, e suas adjacências, como a Glória, se tornou residência de uma pequena mas ativa comunidade judaica. Eu cresci na rua Barão de Guaratiba e no beco do Rio, que ficava imprensado entre a rua do Catete e o Outeiro da Glória. A rua, apesar de amputada pelo metrô, ainda está lá, o beco virou pó, e com ele a Taberna da Glória, onde eram os nossos almoços de domingo. Meu avô Noé dividia suas atividades entre o Partido Comunista e o trabalho de cobrador da loja de móveis Bela Aurora. Meu pai mudava muito de emprego, mas sempre por ali. A nossa integração com os vizinhos era total: quando tive pólio, meu pai fez promessa de jejuar por dez anos no Iom Kipur; alguns moradores do prédio compraram a briga, se comprometendo a doar doces, pelo mesmo espaço de tempo, no dia de Cosme e Damião. Quando melhoramos um pouco de vida, no início da década de 1960, nos mudamos alguns metros, para a rua Benjamim Constant, na Glória. Lá se vivia uma vida de subúrbio: todo mundo se conhecia, comprava-se fiado na quitanda, e privacidade era um bem de acesso quase impossível - qualquer coisa que acontecesse na sua casa se tornava assunto do resto da rua em questão de horas. Havia várias famílias judias nos prédios próximos. O seu Tibur era húngaro, tinha sobrevivido a um campo de concentração, era mecânico e enorme. Consertava carros muito bem, muitas vezes ali na rua mesmo. Mas negociar preço não era o seu forte. Uma vez, numa discussão com um cliente, amassou a capota do carro com um soco. O antípoda dele, seu Samuel, era um quarentão que tocava piano muito bem e lia, em francês, livros sobre feitiçaria medieval. Um homem afável, mas tímido e sério. Eu era amigo da filha dele. Aí pelo final dos anos 60, a gente costumava dar festas de adolescentes que varavam a madrugada. O seu Samuel permanecia em casa, de sentinela. Nessas ocasiões, envergava o pijama, colocava uns fones de ouvido imensos e ficava ouvindo música clássica, enquanto a festa acontecia ao redor dele. A mulher, dona Ewa, era uma fera. Autoritária e prática, não se conformava com o fato do marido ser tão desligado das coisas materiais e ainda por cima estar desempregado. Um dia teve uma idéia brilhante. Como o marido era exímio datilógrafo, ela cuidou de inscrevê-lo no programa do Chacrinha, para o concurso do datilógrafo mais rápido do Brasil. Claro que o seu Samuel não foi consultado, a dona Ewa fez a inscrição e pronto. Claro também que todo mundo na rua soube da história e acompanhou na televisão todos os passos da competição. No dia da final, lá estava o seu Samuel, de terno, todo teso e inibido, sofrendo com a gozação do Chacrinha. Apesar de tudo ele venceu sua rival, uma secretária do Ministério da Fazenda, loura e exuberante. Disparou a máquina de escrever como uma metralhadora e foi para o trono. Ganhou algum dinheiro, vários quilos de bacalhau e muitas latas de produtos das Casas da Banha. A recepção foi magnífica: seu Samuel chegou no prédio carregado de pacotes, com a cara mais constrangida deste mundo. Pelas escadas e corredores, todos os moradores aplaudiam e gritavam como na recepção a um jogador de futebol. Era um tempo diferente, era um Rio de Janeiro diferente. O seu Samuel não está mais lá, fazer o quê? Nem o chafariz da praça da Glória está mais lá. * Nélio Galsky é guia de Turismo e professor de História. * [topo] |