EDITORIAL - Boletim ASA nº 82, mai-jun/2003

Expectativas & matanças

Israel completa 55 anos de independência. Nascido sob fortes expectativas da direita e da esquerda, o Estado judeu alcançou expressivas vitórias em alguns campos de atuação. País de poucos recursos naturais, Israel investiu pesadamente em tecnologia, setor onde logrou desenvolver técnicas pioneiras de irrigação e programas avançados de informática. Os índices de qualidade de vida, embora passem por um momento delicado, equivalem aos observados em países europeus desenvolvidos.

A sociedade israelense enfrenta, porém, desafios estruturais. É página virada o espírito socialista que inspirou os primeiros governantes. O kibutz, modelo de vida comunitária e de produção cooperativa, hoje passa por uma crise profunda. Perde seguidores e abandona suas orientações históricas. 

Rei morto, rei posto. A guinada capitalista trouxe consigo todas as contradições de um modo de produção marcado por assimetrias. Mais ainda: veio junto com a crise que todos os Estados nacionais enfrentam na era da globalização. O resultado é o aumento das desigualdades sociais e do grave problema do desemprego. A tensa relação com a minoria árabe torna mais complexa a tarefa de construir um país mais equilibrado.

No plano externo, a ameaça bélica das fronteiras continua sem solução. As tentativas de resolver a questão palestina pela força e com a manutenção de terras conquistadas manu militari têm claros limites. A proposta dos grupos pacifistas, ao que parece com o respaldo da maioria dos israelenses, aponta para a criação de um Estado palestino ao lado de Israel, com fronteiras internacionalmente reconhecidas. A correlação de forças dentro do atual governo, porém, é desfavorável a essa saída.

Os judeus sempre conviveram com o dissenso. É o que nos lembra, por exemplo, a velha piada de que onde há dois judeus, formam-se três partidos políticos (ou três sinagogas, dependendo de quem conta). Isso não desapareceu na complexa sociedade israelense. Ao contrário do que pregam anti-semitas, lá não existe uma vontade única. É um caleidoscópio de opiniões e posições políticas que garante imensa vitalidade. Pacifistas de todos os matizes, xenófobos, sionistas, anti-sionistas, direita, esquerda, ateus, religiosos, todos lutam pela hegemonia dentro do aparelho de Estado e das relações sociais. É através desta luta por corações e mentes que esperamos que Israel comece a sair do atoleiro em que se encontra. Todos lucram com isso, inclusive nós, que vivemos e temos raízes profundas na diáspora.


Dois assuntos abordados na edição 81 do Boletim ASA provocaram ruídos de protesto. O primeiro foi o curso sobre islamismo e o segundo foi a situação interna de Israel, em matéria assinada por Jacques Gruman. Algumas pessoas da comunidade demonstraram irritação com a "ousadia" de se programar um curso que falará, mesmo que com olhar acadêmico, dos "nossos inimigos". Outras se apressaram em nos rotular de "fechados", "stalinistas" e "anti-Israel" pelo mero fato de publicarmos texto, embora assinado, sobre a corrosão do tecido social israelense (fato reconhecido e discutido pela própria imprensa israelense).

Parece um déjà-vu. Ressuscitam-se velhos preconceitos e atiçam-se as brasas dos combates ideológicos de outrora. Esta intolerância é tão mais absurda quando se constata que nossa entidade tem demonstrado publicamente sua vontade de dialogar. Este Boletim abre espaço para cartas com todo tipo de opinião. A ASA promove debates comunitários, como o do dia 9 de abril, reunindo na mesma mesa representantes dos pensamentos religioso, sionista e progressista. É o testemunho de uma postura aberta e democrática.

Por que alguns ameaçam decretar um herem sempre que surge uma opinião divergente ? Por que evitam o diálogo, preferindo acusar às escondidas e ranger os dentes ? Por que sabotam a construção de uma comunidade que respeite, de verdade, a pluralidade ? 

Este ano comemoramos o 60o aniversário do levante do Gueto de Varsóvia. Uma das lições mais impressionantes da revolta foi a capacidade de unir para o combate todas as correntes de pensamento que sobreviviam dentro do gueto. A Organização Combatente Judaica, síntese desta unidade, colocou lado a lado socialistas, comunistas, sionistas e religiosos. Será que precisaremos de uma nova catástrofe para reproduzir a experiência de respeito mútuo ? Será que os judeus precisam de tragédias para reconhecer a legitimidade do Outro?

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