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EDITORIAL - Boletim ASA nº 81, mar-abr/2003 Palpite infeliz Paz pode significar guerra ? Se depender de Elie Wiesel, prêmio Nobel da paz em 1986, pode. Em artigo publicado no jornal O Globo de 29 de dezembro de 2002, ele saracoteia por meia dúzia de lugares-comuns antes de chegar ao ponto central: seu apoio à política intervencionista dos Estados Unidos e à guerra contra o Iraque. O famoso sobrevivente de Auschwitz flerta com o inferno e proclama a necessidade de mais corpos estraçalhados, mais desespero, mais tragédia. Triste ironia do destino. Para embarcar na canoa de Wiesel, esqueçamos por um momento o gordo prontuário norte-americano de intervenções militares, desestabilizações de governos legítimos, apoios a ditaduras sanguinárias e massacres de populações civis, sempre, é claro, em nome da “liberdade” e da “democracia”. Esqueçamos também que os Estados Unidos, tão ágeis nas acusações de posse de armas nucleares, são os responsáveis pelo holocausto nuclear em Hiroshima e Nagasaki. Mais ainda: fecham os olhos para “países amigos” que não assinaram o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, ficando de mãos livres para multiplicar seus arsenais sem qualquer fiscalização. Ignoremos que, em 1988, quando Sadam Hussein usou gás produzido com cepas trazidas de Maryland contra a população de Halabja, dando início ao genocídio de milhares de curdos, o presidente Bush, pai, lhe forneceu 500 milhões de dólares em subsídios para comprar produtos agrícolas nos Estados Unidos. No ano seguinte, o subsídio dobrou e veio acompanhado de germes de antraz, helicópteros e matérias-primas para fabricar armas químicas e biológicas. Façamos de conta que não sabemos que bastaria um mês e meio dos gastos militares anuais norte-americanos para acabar com a miséria no mundo. Passemos batidos, por fim, pelo informe das Nações Unidas que prevê a geração de um milhão de refugiados, dois milhões de desabrigados e de até 9 milhões e 500 mil famintos numa guerra contra o Iraque. Mesmo com essa amnésia piedosa, a posição de Wiesel, crente na missão “humanitária” de Bush, filho, não se sustenta. Arrogante, desde o início das pressões contra o ditador iraquiano o império desprezou a necessidade de apresentação de provas de suas acusações. Aliás, existirá algum capítulo do direito internacional que considere “natural” a concentração de armas de alta letalidade nos arsenais dos Estados Unidos? Existirá infalibilidade divina ao norte do continente americano? Alguém se dá conta desta insanidade, fincada num projeto de dominação planetária e num unilateralismo que aniquila qualquer possibilidade de convivência internacional equilibrada? Wiesel usa lógica escoteira quando passa uma borracha no fator petróleo, insumo cuja demanda nos Estados Unidos é atendida com 50% de importações. Como bem lembrou o jornalista britânico Robert Fisk, o Iraque pode possuir reservas petrolíferas maiores do que as da Arábia Saudita e as empresas norte-americanas podem lucrar muito com a deposição de Sadam e a instalação de um governo títere (“democrático”, é claro). Uma vez fora do poder, “Bush e seus amigos poderão tornar-se multibilionários com o butim da guerra”. Não é ocioso lembrar que este negócio rendoso alimenta uma indústria altamente poluidora, cujos gases alargam o buraco de ozônio e agravam o efeito estufa, enlouquecendo o clima do planeta. Também não é à toa que os Estados Unidos se recusam a assinar o Tratado de Kyoto, que prevê metas de redução das emissões gasosas que agravam o efeito estufa. É preciso defender, com armas se preciso, os feudos dos barões do petróleo. Uma lógica que não se saciará com a “redenção” do Iraque. O Irã, com suas suculentas reservas em óleo e gás, já pode se considerar na alça de mira. Com mais largueza de espírito, Wiesel não precisaria se esforçar para focalizar um terrorista menos badalado, sem rosto e sem turbante, que rouba comida, assassina empregos, seqüestra países e produz guerras. É o Mercado, cujos atentados matam de fome doze crianças a cada dia, sem manchetes nos jornais. O escritor uruguaio Eduardo Galeano observa que “na organização terrorista do mundo, custodiada pelo poder militar, existem um bilhão de famintos crônicos e 600 milhões de obesos”. Perto de tudo isso, Sadam é um aprendiz inocente. OLHO – Existirá infalibilidade divina ao norte do continente americano? * [topo] |