EDITORIAL - Boletim ASA nº 80, jan-fev/2003

O que vai nascer?

Em recente reunião com lideranças sindicais, o presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, não mediu palavras. Disse que "a moleza acabou" e a fase de mobilizações pontuais e isoladas, voltadas exclusivamente para categorias particulares e descoladas do contexto sócio-econômico do país, caducou. Os sindicalistas serão convidados, disse Lula, a discutir um novo projeto para o Brasil e a debater os grandes nós que travam o desenvolvimento nacional. Compartilharão, enfim, as responsabilidades pelo ato de governar. 

Discurso audacioso, sem dúvida. Com ele Lula enfrenta dois dos grandes fantasmas que assombram a vida política brasileira (com os quais ele acaba de ter contato, ao quererem transformá-lo numa espécie de "santo" da hora). O primeiro é a personalização do poder. Afogado em carências imensas, o povo brasileiro acaba transferindo para figuras carismáticas e/ou místicas a chave da felicidade. Padre Cícero ou vereador de município remoto, não importa. O cidadão desesperado e enganado ignora seus direitos elementares e, jogando nos ombros alheios as tarefas da transformação, exalta os chefes e neles coloca todas as suas fichas. Lula subverte esta lógica, afirmando o papel protagonista do povo organizado. 

O segundo é a idolatria do governo. Por aqui, e isto está espalhado por todas as classes sociais, imagina-se que as iniciativas sempre devem partir do governo. A crescente participação do chamado terceiro setor (organizações não-governamentais) na formulação de soluções para os problemas sociais não diluiu esta herança. O cidadão comum ignora a força que tem, desconhece a passagem constitucional que diz que "todo o poder emana do povo". Lula, ou melhor, o projeto que ele corporifica, vem para desativar o petardo da passividade. Ele exige presença, sem intermediários.

Nesta hora, cujas características de ineditismo já foram suficientemente analisadas pela mídia, espera-se dos brasileiros em geral e dos judeus brasileiros em particular uma atitude participativa, sem abandonar o direito à crítica. Será muito mais importante acompanhar de perto os detalhes do processo que se inicia em janeiro do que, por exemplo, contar o número de "patrícios" na máquina governamental. Será muito mais relevante para o país verificar os rumos gerais da política externa vis-à-vis a globalização excludente em curso do que focalizá-la, sempre, em algum entrevero isolado sobre o conflito no Oriente Médio. Será socialmente muito mais eficiente engajar-se na luta contra as causas que geram a vergonhosa cifra de 54 milhões de pobres do que anestesiar-se com auto-elogios (na velha tradição da cavod) e campanhas caritativas. Precisamos, enfim, de horizontes mais largos. A batalha pelas mudanças, não nos iludamos, será duríssima.

É com esse espírito, convidando a quebrar pedra na hora do recreio, que desejamos a todos os leitores do Boletim ASA um 2003 especial. Que nele a esperança continue vencendo o medo. 

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